Sinuca de bico

A surpresa de uma derrota da democrata Hillary Clinton para o republicano Donald Trump tem força para mudar o cenário e interferir na decisão dos dirigentes do Fed

José Paulo Kupfer, O Estado de S.Paulo

08 Novembro 2016 | 05h00

Assim como eram baixíssimas as expectativas de que o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) elevasse em novembro as taxas de referência dos fundos federais, a taxa básica de juros na economia dos Estados Unidos, eram grandes as chances de que, finalmente, ocorresse uma alta, na última reunião do ano, em meados de dezembro, numa primeira mexida nos juros básicos americanos depois de um ano. Depois do acirramento da disputa eleitoral nos Estados Unidos, que só será decidida no pleito de hoje, a situação também embolou a decisão sobre os juros.

Verdade que a surpresa de uma derrota da democrata Hillary Clinton para o republicano Donald Trump – de fato, um outsider, repelido por lideranças importantes do próprio partido que o indicou à corrida presidencial – tem força para mudar o cenário e interferir na decisão dos dirigentes do Fed. Com Hillary, os analistas preveem, depois da esperada alta em dezembro, apenas uma outra subida nos juros em 2017. Com Trump e com o suposto retorno a um tipo de “supply-side economics” dos anos 80, ninguém ousa adivinhar como o BC americano se comportaria.

As praças financeiras, em todo o mundo, têm dado evidências inequívocas de preferência pela relativa normalidade econômica representada pela eleição de Hillary. Estima-se, nesse caso, que, apesar de todos os riscos teóricos, os efeitos práticos da elevação dos juros nos Estados Unidos tenderiam a ser menores e menos abrangentes do que se imaginava há algum tempo. Não seria o caso de esperar, em resumo, uma revoada desestabilizadora de recursos para o mercado americano. Se uma reciclagem parece inevitável, ela afetaria mais de perto – e, mesmo assim, possivelmente com moderação – os suspeitos de sempre, ou seja, economias emergentes, que atraem capitais, em ambientes de maior incerteza regulatória e nível de atividade mais instável, com a isca dos juros mais altos.

Sobrevive, contudo, por detrás dessa dança, uma questão mais complicada e de maior impacto para a economia global. Trata-se da perda de potência da política monetária, principalmente nos países maduros, onde a economia ainda não se recuperou inteiramente dos traumas do crash de 2008. Aprisionadas por programas de austeridade fiscal e crises de insolvência, que resultaram em processos lentos de desalavangem, restou a política monetária para tentar tirá-las do atoleiro. Sete anos depois, vai ficando claro que a missão é maior do que as possibilidades do instrumento.

A profusão de dinheiro despejado nos mercados pelos bancos centrais desembocou em hipertrofia e provocou uma clara redução da margem de manobra da própria política monetária. Os ativos dos quatro maiores BCs – Federal Reserve, Banco Central Europeu (BCE), Banco do Japão (BoJ) e Banco Popular da China (PBoC) –, que somam 75% do total, se multiplicaram por três, saltando de US$ 6 trilhões, em 2008, para US$ 17,8 trilhões, em setembro de 2016. Estimativas da Bloomberg, reunindo os 10 maiores bancos centrais (o do Brasil faz parte do grupo), indicam que a evolução dos ativos avançou 10% do início deste ano até outubro, ritmo não registrado desde 2011. Exceto o Fed e o PBoC, que registraram quedas de 2% no volume total de ativos em seus balanços, os demais continuaram a digerir contrapartidas de novas ondas de afrouxamento monetário. Os ativos totais desses bancos centrais, alcançou em outubro, US$ 21,5 trilhões, o que equivale a um terço do PIB global.

Carregando montantes nunca antes vistos de reservas livres em seus portfólios – dinheiro que não encontra interessados em tomá-los –, os bancos centrais não podem derrubar os juros ainda mais, sob o risco de desarrumar todo o sistema de poupanças estruturado em torno dos fundos de pensão, nem elevá-los a um ponto em que não sobrará nenhum incentivo para novos investimentos e as reservas livres depositadas em seus cofres se tornarão ainda mais volumosas e improdutivas. É uma autêntica sinuca de bico.

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