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Sinuca macroeconômica

Dez entre 10 analistas concordam que o Comitê de Política Monetária (Copom) manterá a taxa básica de juros em 11% ao ano, na reunião marcadas para hoje e amanhã. Consensos em torno das decisões do Copom não são incomuns. Mas uma unanimidade como a que agora se observa é coisa mais rara. Qualquer resultado diferente desta vez, por isso, configurará a surpresa das surpresas.

José Paulo Kupfer, O Estado de S.Paulo

15 de julho de 2014 | 02h01

Não deixa de parecer algo estranho quando há também unanimidade sobre os índices de inflação futuros. Os mesmos que estão convictos de que os juros básicos não se mexerão tão cedo também se mostram convencidos de que a inflação, já tendo ultrapassado o teto da meta, continuará em alta até pelo menos o fim deste terceiro trimestre.

Essa, porém, é uma estranheza apenas aparente. Existem, de fato, razões fortes para que nenhum analista ouse discordar da tendência à imobilidade, nos próximos meses, da taxa Selic. A principal delas deriva do fato de que a economia vem dando sinais de esfriamento cada vez mais evidentes. Ninguém duvida de uma contração da atividade, no segundo trimestre, em relação ao trimestre anterior. A expectativa é a de que, mesmo ocorrendo alguma recuperação daí em diante, a tendência para a variação do PIB em 2014 é descendente, com boas possibilidades de fechar o ano com crescimento abaixo de 1%.

Assim, uma elevação nos juros básicos enquanto não for possível detectar onde se encontra o fundo do poço da atividade econômica - ou seja, até onde podem ir os impactos contracionistas acumulados da alta nos juros promovida no último ano - embutiria grandes riscos. O maior deles seria o de jogar a economia numa recessão de dimensões desconhecidas.

Tem sido particularmente notável - e preocupante - o recuo no setor industrial. Embora seu peso no conjunto da economia venha diminuindo ano a ano, o progressivo encolhimento da indústria tem consequências de grande impacto no nível geral de atividades e, como reflexo, nos indicadores econômicos. A produção industrial recua, consecutivamente, mês a mês, há quase três anos, na comparação com o mesmo período do ano anterior. No início do segundo semestre, as projeções para a produção da indústria, em 2014, já estão 1% abaixo do volume produzido em 2013.

Diante de um quadro agudo de perda de substância da produção em geral, puxada pela queda da produção industrial, a política de juros perde espaço como ferramenta eficaz para furar pressões inflacionárias. Essa tarefa foi transferida para a política cambial, que opera com o objetivo de manter o real valorizado, esvaziando a pressão inflacionária dos produtos comerciáveis, que competem com bens importados. Mas esta também roda em avenida estreita.

Com reservas internacionais abundantes e um perfil de passivo externo menos dependente de dívidas do que de participações em capital, embora a fatia das dívidas esteja em progressão, não é por esse lado que a margem de manobra da política cambial fica mais apertada. Valendo-se desse colchão de moeda estrangeira, o Banco Central tem mantido a taxa de câmbio estacionada em ponto baixo com a venda de dólares em operações diárias programadas

Os limites da política cambial, no quadro atual, são dados pelo outro lado do câmbio, expresso pelas contas do balanço de pagamentos, com ênfase na balança em transações correntes. Já nas alturas de US$ 80 bilhões, o equivalente a 3,6% do PIB, o déficit em transações correntes não só, mas também em razão do câmbio valorizado, se encontra no limite do administrável.

É, em resumo, tal a sinuca em que se encontra a política macroeconômica e são tão crescentes os riscos de uma recessão que, com inflação no teto da meta e tudo, começam a ganhar adeptos, ainda que timidamente, as hipóteses de cortes pelo Banco Central - e não aumentos, como seria de se esperar com a inflação no teto - da taxa básica de juros, em futuro não distante.

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