Situação de conflito

Com a proximidade da reunião de abril do Comitê de Política Monetária (Copom), marcada para hoje e amanhã, houve, nas últimas semanas, uma convergência de apostas numa elevação mais forte da taxa básica de juros para os próximos 45 dias. A grande maioria dos analistas mantém agora a expectativa de que os diretores do Banco Central decidam por uma alta de 0,5 ponto porcentual na taxa Selic, levando-a a 13,25% ao ano. O que ainda não encontrou consenso é se o ciclo de altas será encerrado em abril ou, como prevê uma minoria, ficará para junho, com um aumento adicional de 0,25 ponto e juros estacionando em 13,5% anuais.

José Paulo Kupfer, O Estado de S.Paulo

28 Abril 2015 | 02h01

Quem observa as projeções desses mesmos analistas para o indicadores macroeconômicos mais relevantes encontra uma lógica nessa aposta. Eles parecem finalmente acreditar que a prioridade do BC é de fato reunir condições para aplainar, tanto quanto possível, o caminho da inflação na direção do centro da meta. Por isso, como informa o boletim Focus desta semana, a mediana das previsões aponta uma apenas muito ligeira alta na inflação anual e um recuo relativamente mais forte na variação do PIB.

O cenário em que prevalecem as projeções do Focus, no entanto, deixa transparecer uma situação de conflito com outros objetivos macroeconômicos. Os juros mais altos, que atuam para enfraquecer as pressões inflacionárias, operam na contramão dos esforços para evitar sacrifícios excessivos no reequilíbrio da economia. Eles tendem a valorizar o real ante o dólar, a turbinar a dívida pública e a frear ainda mais o ritmo de crescimento, com efeitos adversos para o bom encaminhamento do ajuste fiscal.

Surpreendente para alguns, a valorização do real ante a moeda americana será reforçada com a alta da taxa de juros tida como certa no mercado financeiro. No sistema de câmbio flutuante, juros e cotação do dólar funcionam como vasos comunicantes, em direções opostas. Caso esse tendência se confirme, diminuem as perspectivas de obtenção de um superávit comercial que valha o nome - má notícia não só para o custo de cobertura dos déficits externos, mas também para as chances de que a retração do nível de atividade seja mais suave e, em consequência, de que as dores do ajuste fiscal em curso sejam menos intensas.

Não há, porém, elementos suficientes para antecipar os próximos lances da política cambial. A tendência à valorização do real não se deve apenas ao recrudescimento das dúvidas em relação ao momento do início e ao ritmo da retomada das altas de juros, nos Estados Unidos - sinais ambíguos são emitidos a cada semana pela economia e pelos dirigentes do Federal Reserve e, por coincidência, também amanhã eles estarão reunidos para discutir o ponto. Fatores internos, como a atração exercida pelo diferencial dos juros reais pagos no Brasil, na comparação com os do exterior, complementada pela distensão produzida com a publicação do balanço auditado da Petrobrás, estão ajudando a impulsionar o ingresso de recursos externos e segurar as cotações.

O BC, que deixou de intervir no recente ciclo de alta da moeda americana, também não está atuando na virada de valorização do real. Pode ser, como é recorrente na história econômica brasileira, que os responsáveis pela política cambial se sintam tentados a deixar a cotação deslizar para baixo, colaborando no esforço para quebrar vetores inflacionários. A ausência de novas alterações e a manutenção dos estoques no programa de swaps cambiais é uma indicação razoável nessa direção.

Quando se combinam, em ambiente de elevados déficits externos, juros em alta com dólar em baixa, a corda tende a romper no lado do crescimento econômico. Com mais juros e, em consequência, menos crescimento, o ajuste fiscal necessário para estabilizar a relação entre a dívida pública e o PIB acaba exigindo superávits fiscais maiores e impondo mais sacrifícios

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.