Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

‘Situação fiscal é muito frágil na região’

Para Végh, América Latina deve enfrentar dilema entre subir juro para proteger a moeda ou ter taxa baixa para crescer

Entrevista com

Carlos Végh, economista-chefe do Banco Mundial para América Latina e Caribe

Adriana Fernandes e Fernando Nakagawa, O Estado de S.Paulo

25 Junho 2018 | 05h00

BRASILIA - Não é só o Brasil que vive dias difíceis nas contas públicas. Os problemas fiscais se espalharam pela América Latina após um período de gastança. “A situação fiscal é muito frágil. É um grande desafio macro que a região enfrenta hoje”, diz Carlos Végh, economista-chefe do Banco Mundial para América Latina e Caribe. O uruguaio alerta ainda que outro problema aparece diante dos juros em alta nos Estados Unidos: vários países devem enfrentar o dilema entre subir o juro para proteger a moeda ou manter taxas baixas que ajudam o crescimento.

Como está hoje o quadro fiscal dos países da América Latina?

A situação fiscal é muito frágil. É um grande desafio macro que a região enfrenta hoje. Pense que 31 entre 32 países tiveram déficit nominal em 2017 (a Ilha Granada foi a única com resultado positivo), 53% deles (17) com déficit primário. A dívida é também alta para países em desenvolvimento. O fato é que os déficits fiscais continuam a alimentar a dívida dos países da região, que está agora em 57,6% do PIB.

O relatório mostra que a situação fiscal é pior nos países da América do Sul do que no México, Caribe e América. Por quê?

O déficit fiscal médio para a região é de 2,4% do PIB. Mas na América do Sul é 4%, mais que o dobro que em México, Caribe e América (1,9%). O fato é que muitos países desse último grupo mostram um superávit primário, o que é mais raro entre os da América do Sul. Vários fatores contribuíram para a deterioração fiscal na América do Sul. Mas a maioria dos governos não conseguiu poupar o suficiente durante a “Década de Ouro” de 2003 a 2012, quando os preços das commodities eram extremamente altos e, em vez disso, gastavam a maior parte do lucro. Alguns dos gastos foram sem dúvida importantes para melhorar as condições sociais. Mas um princípio fundamental das finanças públicas é que as despesas permanentes só devem ser financiadas por aumentos permanentes em receitas. Aumentar gastos permanentes com receitas temporárias certamente semeou os problemas fiscais futuros. Há pouca dúvida de que os países devem se engajar em ajustes já.

Qual o custo do ajuste?

O custo do ajuste feito com choque é muito maior. Nossa recomendação é que ele seja gradual. Isso não significa não fazer ajuste fiscal. Você sabe que as pessoas na Argentina atribuem a situação atual à decisão do presidente Macri de fazer um ajuste fiscal gradual em vez de um choque. Acho que foi uma escolha correta da parte dele. O que está acontecendo na Argentina não é resultado de ter havido ajuste fiscal gradual ou choque. É basicamente não ter um ajuste fiscal.

Os argentinos não estão fazendo ajuste?

Não. O problema não é o ajuste gradual. É a falta dele. Agora, com o acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI), eles têm uma agenda para reduzir o déficit fiscal de maneira bem gradual.

E nos outros países como está a situação?

Alguns países estão fazendo ajustes fiscais graduais e sérios, como Colômbia, México. E outros países claramente precisam fazer mais.

Qual o risco do aumento dos juros nos EUA?

A normalização da política monetária finalmente está aqui após três anos se ouvindo falar dela. Isso significa que o dólar ganha força e fará com que aumente o custo de crédito dos países da América Latina. Entramos no que chamamos de dilema de política monetária que a maioria dos bancos centrais da região vão enfrentar. Como as moedas ficarão mais fracas, em geral a economia começa a crescer mais devagar. Então, se tem o grande dilema: devo aumentar a taxa de juros para se defender apesar do possível custo para a economia?

Os países estão passando por esse dilema agora?

Isso tem sido a história da América Latina nos 20 ou 30 anos. O dilema: o que você faz? Aumenta a taxa de juros para se proteger ou você faz como o Chile que tem baixa taxa de juros. Eles dizem, no Chile, que não há problema com a depreciação (cambial) de 10% ou 15%. O país tem muita credibilidade, o capital não vai sair do país e eles optam por manter a taxa de juros baixa para estimular a economia, mesmo se houver um pouco mais de depreciação. Se você olhar as evidências, a maioria dos demais países, como México, Brasil, Uruguai e Argentina, escolhem defender a taxa de câmbio aumentando os juros.

O que o sr. acha que vai acontecer no Brasil?

É difícil dizer. Todo banco central define qual deve ser a sua prioridade. Mas não há dúvidas de que nos próximos seis, oito meses ou talvez mais, muitos bancos centrais vão enfrentar esse dilema. Olhe o México. Eles tinham plano de reduzir a taxa de juros. Mas, por causa do Nafta, das incertezas políticas e outros fatores, eles decidiram aumentar. Eu acho que os bancos centrais vão literalmente, de reunião em reunião, enfrentar essa situação.

Está faltando credibilidade para esses países?

Não acho que é falta de credibilidade. É mais um ambiente externo difícil. Há incertezas políticas em muitos países. Há incerteza em relação à normalização monetária nos EUA e agora vai começar na Europa. Especialmente no front monetário, a maioria dos países está fazendo um trabalho bom. Pense no fato de que a taxa de inflação média, excluindo Venezuela, está em torno de 3%. Isso é inacreditável. A taxa média de inflação era em torno de 200% nos anos 90. Os bancos centrais vão fazer o que acharem que é o melhor e minha aposta é que eles vão fazer o que é certo. A parte fiscal é um pouco mais frágil. Na Argentina, é claro, Uruguai também...

No Brasil também?

Sim. No Brasil também.

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