Skaf compara decisão do Copom a agarrão em atleta na reta final

Empresários e sindicalistas aprofundam crítica à alta da Selic, que vinha se mantendo inalterada nas últimas reuniões

Marcelo Rehder, Cleide Silva e Jacqueline Farid, O Estadao de S.Paulo

17 de abril de 2008 | 00h00

Mesmo esperada, a alta dos juros anunciada ontem pelo Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central, de 0,5 ponto porcentual, recebeu revoada de críticas de empresários e sindicalistas, num coro que vem se repetindo mesmo quando o BC mantinha a taxa inalterada. O presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Armando Monteiro Neto, disse estar perplexo. "A alta dos juros não se justifica, porque a trajetória atual da inflação permanece dentro da meta estabelecida, não havendo sinais de alastramento da pressão inflacionária."A decisão de aumentar os juros de forma mais agressiva em caráter de precaução é resultado do descompasso entre as políticas fiscal e monetária, afirmou Monteiro Neto. "Há necessidade de reverter a atual política fiscal expansionista que impõe à política monetária a ancoragem única da inflação." O presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, comparou a decisão com o episódio do atleta Vanderlei Cordeiro de Lima, que foi agarrado e impedido de vencer uma corrida nas Olimpíadas de 2006. Em frase publicada abaixo da foto do atleta sendo agarrado, a Fiesp cita: "Flagrante de mais uma ação preventiva da autoridade monetária para impedir o desempenho do atleta da economia brasileira no ranking mundial do crescimento".Os efeitos da alta dos juros nos investimentos são a principal preocupação do economista Julio Sérgio Gomes de Almeida, consultor do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi)."O BC deu início a um processo extremamente perigoso para a economia brasileira." Para Almeida,"mais importante que o aumento do custo do crédito para o setor privado, é que a alta de 0,5 ponto, infelizmente, diz para os nossos empresários não investirem tanto, para os bancos não emprestarem tanto para os consumidores e, com isso, a economia vai sofrer". Ele citou ainda um efeito adicional, que estará claro já a partir de hoje e consiste numa queda ainda maior do dólar. "Infelizmente, isso trará mais problemas à balança." Paulo Butori, presidente do Sindipeças, disse que o mercado "não precisava desse aumento de juros agora". Ele acredita que o efeito no consumo não será imediato, mas, daqui a dois meses, haverá queda de demanda em vários setores.ALERGIAPara Abram Szajman, presidente da Federação do Comércio do Estado de São Paulo, a decisão, ao apontar para um ciclo de longo aperto monetário, vai condenar o Brasil "ao eterno vôo da galinha, sem conseguir manter os índices robustos de crescimento do PIB que se verificaram nos dois últimos anos".O presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Artur Henrique, considerou lamentável o fato de o Copom ter desprezado a "vontade da imensa maioria da sociedade", que era de redução de juros. Já o presidente da Força Sindical, Paulo Pereira da Silva, disse ser um erro conter esse momento virtuoso da economia. "O BC demonstra que tem alergia à palavra crescimento."

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