Só com muito investimento público...

Na quinta-feira da semana passada a repórter Adriana Cotias, do jornal Valor, brindou-nos com uma oportuna matéria sobre um tema - o ouro - sempre excitante no imaginário popular, mas pouco explorado (hoje em dia) nas editorias de Economia da imprensa escrita.Ali ficamos sabendo que nos últimos seis meses, no Brasil, o valor do ouro subiu 42,85%, o que nenhum guru das expectativas racionais pôde sequer vislumbrar. Mas, em compensação, no acumulado dos cinco anos precedentes, a valorização do ouro foi de apenas 29,1%.Isso é um pequeno exemplo do efeito do que os economistas costumam chamar de "aversão ao risco". Na prática, os investidores, principalmente aqueles com forte inclinação conservadora e que sabem que na hora da onça beber água é prudente ficar de frente para ela e contra o vento, procuram encontrar um bom chão onde assentar os pés. E é quando o velho, sólido e pesado metal amarelo costuma assumir o lugar do papel-moeda e dos muitos papéis que esvoaçam pelo mercado. O ouro não esvoaça...Num passado não muito distante, apenas um pouco antes do início da era do rock-and-roll, o ouro esteve em destaque na imprensa porque o presidente da França, o general De Gaulle, parecia empenhado em convencer o mundo de que era melhor tê-lo como principal padrão monetário em lugar do dólar. Pregou no deserto. Até porque o dólar estava firmemente ancorado no ouro, graças ao compromisso assumido pelo governo americano quando das discussões de Bretton Woods e da formação do Fundo Monetário Internacional (FMI) nos anos 40. Isso acabou no governo Nixon, que rompeu o compromisso dos EUA com o mundo. O que indignou e muito desconcertou Mr. Pickwick. Este senhor frequentava assiduamente as assembleias do FMI nos anos 70 e editava uma newsletter intitulada The Pickwick?s World of Money, bastante útil naqueles longínquos tempos pré-internet e pré-informações online, pois, uma vez por semana, ela trazia as cotações, em relação ao ouro, das mais importantes moedas de livre curso internacional. O que permitia aos comerciantes, exportadores, investidores, etc., fazerem contas com os pés no chão, não com a cuca nos famosos "futuros" que surgiriam depois e, ao contrário do que o nome possa sugerir, fariam do "futuro" apenas o trimestre seguinte. A paixão de Mr. Pickwick ia a ponto de ele usar, permanentemente, um pesado prendedor de gravata, de ouro, no qual se destacavam, em relevo, e ainda em ouro, as palavras In Gold We Trust. Não se falou ainda, pelo menos não numa escala relevante, ao longo da turbulência financeira atual, num retorno ao padrão ouro. Mas não seria nada surpreendente se pelo menos alguns contratos que estejam sendo firmados neste momento - de compra e venda, de investimentos, de serviços - contivessem uma cláusula ouro, ou seja, ancorassem seus valores nas cotações do ouro.Isso nos remete à questão que nos parece fundamental no momento - a que está no foco dos acontecimentos: a questão da segurança. A sequência da crise não deve ser esquecida: ela começou a se formar na esteira da política irresponsável de instituições financeiras que se lançaram à securitização irresponsável de créditos oferecidos e aprovados irresponsavelmente; o aumento da inadimplência resultante dessa irresponsabilidade geral, previsível, aliás, até nem era assustador, poderia ser considerado normal; assustador foi o valor total dos créditos oferecidos irresponsavelmente; isso fez com que alguns bancos se retraíssem e o lastro das operações de securitização (os créditos imobiliários) começou a apodrecer, tornando-as irresgatáveis. Nesse quadro, os bancos que não quebraram viram uma oportunidade de, dos limões, fazerem uma limonada: alegando o famoso risco sistêmico, meteram o pé no freio do crédito para se protegerem - o que ninguém podia condenar. Mas ao mesmo tempo sabiam que isso derrubaria as atividades econômicas (talvez não calculassem que a queda pudesse ser tão grande e tão súbita), o que levaria os governos a se mexerem para encontrar uma solução que, na prática, só poderia ser a de "dar dinheiro a eles". Com isso se livrariam dos créditos podres, da inadimplência e permaneceriam entesourados, enquanto a economia, os empregos, a produção, as esperanças e o futuro (real) das pessoas rolariam escada abaixo.Esse é o resumo da situação atual. E não adianta o governo dar mais dinheiro aos bancos: "O que vocês fizeram com os US$ 300 bilhões que demos para vocês?", indagou rispidamente o deputado americano ao banqueiro que havia sido convocado para depor no Congresso. O homem não respondeu. "Por que não usam esse dinheiro?", ainda provocou o deputado. Sem resposta, porque a resposta teria de ser: "Enfurnamos...!", ou seja, aplicaram em títulos do governo americano e estão sentados em cima. Não vão voltar a emprestar, porque estão atrás de segurança. Todo mundo agora está atrás de segurança, e mais nada. Quase ninguém que pode fazer negócios quer fazer negócios.Então não adianta também o governo americano comprar as dívidas dos inadimplentes, porque eles usarão o dinheiro para pagar os bancos e estes não farão nada com o dinheiro, comprarão títulos do governo.É preferível o governo mesmo gastar o dinheiro, num monumental programa de obras e serviços públicos, como nunca se viu na história. E não se preocupar se isso vai gerar inflação ou não. Se o dinheiro vier do confisco do lucro dos bancos pela elevação de impostos, não gera inflação, gera empregos. E também não precisa se preocupar com um fantasma de aumento dos juros por causa do aumento dos impostos sobre os bancos. Os governos sempre podem emprestar dinheiro a fundo perdido...*Marco Antonio Rocha é jornalista. E-mail: marcoantonio.rocha@grupoestado.com.br

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