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‘Só de saber que o monitor vinha, tomávamos cuidado adicional’

Siemens foi vigiada por 4 anos em todo o mundo e ex-diretor da empresa no Brasil conta que fiscalização ia no detalhe

Josette Goulart, O Estado de S.Paulo

20 Novembro 2016 | 07h00

Durante quatro anos, as mais de 100 unidades da Siemens espalhadas pelo mundo foram vigiadas por Theodore Waigel, conhecido como pai do euro, ex-ministro das Finanças da Alemanha e um monitor temido. Waigel foi o responsável por verificar se a empresa estava cumprindo o acordo fechado com o Departamento de Justiça americano em que se comprometeu a implementar as melhores práticas de compliance. Ou seja, se a empresa estava estabelecendo padrões efetivos para que todos os milhares de funcionários espalhados pelo mundo passassem a cumprir toda e qualquer regra ou lei, sem deixar qualquer brecha para práticas de corrupção.

“Só em saber que ele vinha, a empresa tomava cuidados adicionais”, conta o ex-diretor de compliance da Siemens no Brasil, Wagner Giovanini. “Sabíamos que ele ia nos expor para o mundo inteiro. Contar se estávamos fazendo direito ou não. E mais, se o monitor diz para a autoridade que o que você está fazendo é papagaiada, o acordo acaba e é o fim da empresa.”

Regras. Giovanini conta que, assim que a Siemens começou a negociar com as autoridades americanas, já deu início a mudanças em suas regras de compliance. “Por isso, quando o monitor chegou, já estávamos preparados”, diz Giovanini. “Mas não pudemos deixar de notar que quem não estivesse preparado não sobreviveria”. Em uma das apresentações que fez ao monitor, Giovanini mostrou uma ferramenta que a unidade brasileira ia adotar.

“Waigel designou duas pessoas para fazer um pente-fino na ferramenta. Olharam 100%. Não faltou nada.” Quando chegou ao Brasil, Waigel trouxe junto 20 pessoas que faziam parte de sua equipe. Na primeira visita, passaram três semanas no País, mas voltaram todos os anos entre 2008 e 2012. 

Ao fim de seu período como monitor, Waigel fez 152 sugestões de mudanças nas regras de compliance da empresa, todas adotadas pela companhia. Até para trocar uma lâmpada, o funcionário tinha uma forma padrão para justificar o gasto.

Ter um monitor era uma das condições para que a Siemens fechasse o que acabou sendo o maior acordo firmado com as autoridades americanas em programas anticorrupção. O caso custou caro. Foram US$ 800 milhões pagos para o governo americano, outros US$ 800 milhões para as autoridades alemãs e algo estimado em torno de US$ 2 bilhões gastos com honorários de investigadores, contadores, advogados e toda sorte de profissão envolvida na questão desde que começaram as investigações até o fim do período do monitor. 

O caso Siemens é hoje considerado um exemplo para o mundo. O próprio Departamento de Justiça americano publicou recentemente um relatório em que sugere que a Siemens dê publicidade ao relatório final produzido pelo monitor, pois ali teria o passo a passo para eliminar qualquer possibilidade do corrupção em empresas. Na opinião de Giovanini, no Brasil, foi a implementação das novas regras de compliance que permitiu que fosse feita apurações sobre um possível esquema de cartel nas obras do metrô de São Paulo. O caso foi investigado pela empresa em função de uma denúncia feita pelos canais criados para essa função. 

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