Só falta combinar

Só falta combinar com os outros países emergentes e em desenvolvimento. Se toparem, terão influência muito maior no Fundo Monetário Internacional (FMI) e poderão barrar propostas de interesse dos mais desenvolvidos. Mas o ministro da Fazenda, Guido Mantega, não se mostra preocupado com essa limitação - o "só falta combinar". Ele prefere festejar o fortalecimento dos países do "Sul". Segundo sua interpretação, isso resultará diretamente da redistribuição de cotas e votos entre os sócios do fundo. Com as condições definidas na reunião ministerial do Grupo dos 20 (G-20), 6% das cotas e votos serão transferidos de países com representação excessiva para emergentes sub-representados, incluído o Brasil. As 10 maiores cotas caberão às 10 maiores economias - Estados Unidos, Japão, Alemanha, Reino Unido, França, Itália, Rússia, Índia, China e Brasil. Na cúpula do G-20 em Pittsburgh, no ano passado, havia-se combinado transferir "pelo menos 5%".

Rolf Kuntz, O Estado de S.Paulo

27 de outubro de 2010 | 00h00

Quando a redistribuição for concluída, os Brics - Brasil, Rússia, Índia e China - terão 14,8% das cotas, quase a parcela necessária (15%) para o poder de veto nas decisões mais importantes, observou o ministro Mantega. Ele insiste nesse ponto pelo menos desde a penúltima assembleia anual do fundo, em outubro do ano passado, em Istambul. Hoje, só um país detém isoladamente o poder de veto: os Estados Unidos, com 16,74% dos votos. Essa posição singular será mantida depois da reforma. As outras quatro maiores economias capitalistas - Japão, Alemanha, Reino Unido e França - controlam a soma de 21,58%. Qualquer combinação de três desses países daria um total superior a 15%.

Muitos arranjos permitiriam o exercício ocasional, ou mesmo frequente, desse poder. A divisão atual de votos entre os desenvolvidos e os demais corresponde a aproximadamente 60/40. Mesmo os emergentes e outros países em desenvolvimento poderiam ter maior influência há muito tempo, se estivessem dispostos a se articular e tivessem interesse nessa aliança. O ministro Mantega parece esquecer esse dado.

Em sua demonstração de entusiasmo, ele confunde duas ordens de fatos. Em primeiro lugar, a reforma é importante porque recompõe a relação entre o peso econômico de cada país e sua participação no FMI. Essa discussão começou há muito tempo, antes da recriação do mundo pelo governo petista.

O argumento típico era a comparação entre as economias mexicana e belga. O México era obviamente sub-representado. Além disso, a redistribuição confere maior peso às economias em desenvolvimento e também às mais pobres. Mas essa alteração não resultará necessariamente em nova relação de forças entre categorias de países. Este é o segundo ponto. A divisão entre desenvolvidos e em desenvolvimento (incluídos neste grupo os emergentes e os pobres) é apenas uma classificação econômica. Não há correspondência direta e unívoca entre essa classificação e qualquer tipo de alinhamento estratégico. A divisão "Norte-Sul", ainda uma referência para a diplomacia petista, é um mito, quando se trata de combinações diplomáticas.

Na semana passada, enquanto os ministros do G-20 se reuniam na Coreia, representantes de 70 países da Organização Internacional da Francofonia conferenciavam em Montreux, na Suíça. O presidente da França, Nicolas Sarkozy, aproveitou a ocasião para encontros bilaterais com vários governantes africanos. Ele estava num ambiente familiar. Quando o Brasil entra em disputa com parceiros europeus na Organização Mundial do Comércio (OMC), esses africanos podem alinhar-se com os europeus. O mesmo tipo de lealdade pode manifestar-se em discussões no FMI ou em qualquer outra organização multilateral.

Da mesma forma, atribuir conteúdo político à sigla Bric é evidente exagero. Mas o governo brasileiro continua agindo como se os quatro países mantivessem uma aliança estratégica de longo alcance. É uma ilusão.

No debate sobre o câmbio, as autoridades brasileiras ficaram ao lado da China e concentraram suas críticas na política monetária americana. Mas a depreciação do dólar, provocada por essa política, é um fato recente, associado à crise. Muito antes disso o governo chinês já mantinha o yuan subvalorizado. Não há um lado bonzinho nessa história.

Ao tomar partido, Brasília mais uma vez confunde estratégia internacional com política sindical. Russos, indianos e chineses conduzem sua diplomacia de acordo com interesses nacionais, não com base numa fantasiosa divisão Norte-Sul. O ministro Mantega mantém essa fantasia em sua avaliação da reforma no FMI.

JORNALISTA

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