Só mais crédito não será suficiente para reativar a economia

Volume anunciado não representa mais de 2,5% do total de crédito disponível na economia; além disso, é preciso ver se, na prática, as condições dos financiamentos serão atraentes

José Paulo Kupfer, O Estado de S.Paulo

28 de janeiro de 2016 | 21h26

O aumento ou reativação de linhas de crédito, ainda que os recursos venham a ser utilizados em larga escala, possibilidade em relação à qual grande número de analistas se mostra descrente, não configura um programa de relançamento da economia – e, apesar do aparato de marketing que cercou o anúncio, não chegou a ser apresentado como tal nem pela presidente Dilma Rousseff nem por seu ministro da Fazenda, Nelson Barbosa.

Para começar, o acréscimo potencial anunciado de R$ 83 bilhões não representa mais de 2,5% do volume total de crédito disponível na economia. Depois, é preciso ver, na prática, se as condições oferecidas serão suficientemente atraentes para, nas atuais circunstâncias, quebrar resistências de pessoas e empresas a tomar financiamentos. Segundo Barbosa, taxas e regras das operações ainda serão detalhadas.

Embora a inadimplência em geral ainda se encontre em níveis moderados, o endividamento é alto e a desconfiança sobre o desempenho da economia no futuro próximo, grande. Números divulgados pelo Banco Central, não por acaso, mostram contração generalizada do crédito, em termos reais, no ano passado. Mas o ministro discorda do diagnóstico de que a demanda se encontra arredia e se diz esperançoso de que a oferta adicional de crédito contribua para movimentar a economia.

Independentemente de quem tenha razão, as linhas aumentadas ou reativadas miram segmentos em tese mais propensos a tomar os recursos oferecidos. Do lado da pessoa física, visando ao consumo, os elegíveis ao crédito consignado. No setor empresarial, agricultores, construção civil e, principalmente, infraestrutura. Esta última, um segmento chave em que não existe problema de demanda e que pode resultar tanto em redução de custos quanto em aumento de produtividade para o setor privado, dificilmente responderá a estímulos de crédito sem a presença indutora do setor público. Daí a importância crítica do ajuste fiscal, condição necessária para que o governo volte a investir.

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