Coluna

Thiago de Aragão: China traça 6 estratégias para pós-covid que afetam EUA e Brasil

Só os passageiros estão irritados

Companhias aéreas americanas estão conseguindo recuperar perdas com passagens mais caras, tarifas mais numerosas, menos voos e aviões lotados

JAD MOUAWAD , THE NEW YORK TIMES , O Estado de S.Paulo

24 de outubro de 2011 | 03h05

Os detalhes que fazem muitos passageiros se queixarem dos transportes aéreos - passagens cada vez mais caras, com tarifas extras cada vez mais numerosas, menos voos e aviões completamente lotados - são os mesmos que fazem os executivos das companhias aéreas sorrirem.

Após uma década perdendo dinheiro por causa da concorrência acirrada, do recuo na demanda dos passageiros e da volatilidade dos preços do combustível, a indústria descobriu um jeito de retomar o controle do seu destino: desistir da estratégia de crescimento agressivo consagrada nos anos 90. Apesar da situação econômica, a maioria das companhias que opera voos domésticos nos Estados Unidos vai acumular em 2011 seu segundo ano consecutivo de lucro, depois de sofrer perdas que chegaram a US$ 55 bilhões desde 2001.

A única exceção é a American Airlines, que deve relatar na quarta-feira mais um trimestre de prejuízos. Antes a maior empresa aérea dos EUA, a American perdeu o primeiro lugar e está lutando contra dívidas e custos operacionais altos, além de relações trabalhistas tumultuadas.

A American foi ultrapassada pelas rivais por ter sido excluída das grandes fusões que consolidaram a indústria. Esse processo permitiu que as maiores empresas aéreas cortassem o serviço que atendia a muitos mercados menores, eliminassem voos pouco lucrativos e se concentrassem nos seus hubs mais prósperos. Com menos linhas aéreas concorrendo para oferecer o assento mais barato, elas puderam aumentar o preço.

Disciplina do medo. As cinco principais empresas aéreas dos EUA, incluindo números conjuntos para a United-Continental e a Southwest-AirTran, responderam por 85% de todos os assentos domésticos em 2010; em 2000, as cinco principais respondiam por 64%, disse Hunter Keay, analista da aviação da Wolfe Trahan & Company. "A situação tem sido muito favorável nos últimos três anos", disse Keay. "As linhas aéreas finalmente compreenderam as leis fundamentais da economia: oferta e demanda. O que temos é uma disciplina com base no medo."

Analisando o número total de assentos disponíveis, a capacidade das empresas aéreas domésticas chegou ao auge em 2005 e tem caído desde então. Mas os cortes foram ainda mais agressivos se compararmos o número de assentos com as proporções da economia, disse John Heimlich, economista chefe da Associação dos Transportes Aéreos (ATA, em inglês). Essa proporção encontra-se no seu ponto mais baixo desde 1979.

"A sobrevivência da indústria no decorrer da última década tornou necessário um encolhimento substancial", disse Heimlich. "Uma combinação do excesso de oferta e da falta de demanda produziu uma década particularmente difícil. Na maioria das indústrias, é preferível ver uma entidade crescer de maneira rentável do que encolher de maneira rentável."

Com um número menor de voos diários, os aviões estão agora mais cheios do que nunca. A proporção de assentos ocupados nos voos domésticos e internacionais aumentou para 81,9% em 2010, um recorde. Em 2000, essa proporção era de 72,9%.

Enquanto isso, a qualidade do serviço prestado piorou, conforme as grandes empresas aéreas reduziram seu número de funcionários e pararam de oferecer refeições gratuitas e até travesseiros durante os voos. O espaço entre os assentos diminuiu em muitas das linhas aéreas mais baratas. A Spirit Airlines, por exemplo, está operando aviões Airbus A320 com uma distância de 71cm entre os assentos. (Nas outras, a distância costuma ser de 79cm.) Isso permite levar 28 passageiros a mais que os aviões da JetBlue, que usa aeronaves parecidas, de acordo com Matthew Daimler, fundador do site SeatGuru.com.

O preço das passagens, que aumentou nos últimos três anos, é apenas parte do que os passageiros pagam atualmente. As linhas aéreas cobram por uma variedade de serviços e bens, como bagagem entregue no check-in, prioridade na escolha dos assentos e serviços oferecidos a bordo como refeições, TV e cobertores. Algumas empresas cobram por assentos próximos à saída e pelos assentos mais próximos da parte dianteira do avião.

"As empresas aéreas estão simplesmente imitando práticas que há muito vigoram em outros serviços", disse Richard H. Anderson, presidente e diretor executivo da Delta. Em 1990, as passagens respondiam por 88% dos lucros que as empresas aéreas obtinham com os passageiros. Em 2010, essa porcentagem caiu para 71%. As novas fontes de renda consistiram na maior parte dessa diferença. As taxas cobradas pela bagagem trouxeram sozinhas um lucro de mais de US$ 784 milhões no primeiro trimestre - o lucro total da indústria chegou a US$ 43 bilhões.

/ TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.