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José Roberto Mendonça de Barros
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Só uma recessão segura Trump

O presidente dos EUA parece hostil aos valores americanos essenciais de democracia

O Estado de S.Paulo

22 de julho de 2018 | 05h00

Está cada vez mais claro que o mundo pode caminhar para uma grande confusão, com a firme liderança do presidente Trump. Isso só não ocorrerá se a economia americana vier a enfrentar uma recessão a partir do próximo ano.

A mais adequada descrição do que ocorre está num artigo recente de Martin Wolf, do qual transcrevo um trecho: “No mundo do pós-guerra, a política dos EUA tinha quatro características atraentes: tinha valores essenciais cativantes; era fiel aos aliados que compartilhavam esses valores; acreditava em mercados abertos e competitivos; e alicerçava esses mercados com regras institucionalizadas. (...) Mas atualmente o presidente dos EUA parece hostil aos valores americanos essenciais de democracia, liberdade e Estado de Direito; não se sente fiel aos aliados; rejeita os mercados abertos; e despreza as instituições internacionais. Ele acredita que o poder dita as regras”. (Valor, 18/7).

É por isso que admira muito autocratas, como Putin, para os quais concede tanto. É por isso que gostaria de governar com base em ordens executivas e um Partido Republicano totalmente submisso à sua vontade.

Completa o cenário de tensão mundial a política comercial agressiva e protecionista de Trump, que está implodindo todos os acordos duramente construídos, do TPP ao Nafta, levando a uma retaliação maciça por parte dos parceiros comerciais. Essa guerra levará, inevitavelmente, a uma redução do comércio global, afetando o crescimento, em especial dos emergentes mais vulneráveis.

Em seu excelente artigo, Wolf lembra que a plutocracia manda na política americana: ela foi a grande beneficiada com a redução de impostos promovida pelo governo e, a despeito da piora persistente na situação de boa parte da classe média e da distribuição de renda, ainda assim a base republicana vota com Trump e não se importa com as barbaridades que são ditas todos os dias.

Trump herdou uma economia em boa situação: inflação baixa, contas públicas em ordem, bom crescimento e quase pleno emprego. Sua política adicionou uma expansão fiscal sem precedentes, via queda de tributos e elevação de gastos, e o protecionismo com grandes conflitos comerciais.

Como bom populista, além da infinita autoconfiança e de falar diretamente com sua base, sem a interferência do sistema político, Trump expandiu via Tesouro a economia e o emprego no curto prazo, sem perder tempo em pensar no que vem depois. 

Nós latino-americanos conhecemos bem esse padrão (bom dia PT!): depois do momento de glória vem a inflação, os juros em elevação, a redução da atividade e os desequilíbrios setoriais e microeconômicos. A diferença é que, quando um país da periferia quebra, pouca gente no centro do mundo percebe. Mas na nação mais importante do planeta, que emite a moeda reserva global, o caminho da recessão e da inflação machuca a todos.

Não tenho dúvida de que isso ocorrerá em breve, especialmente porque, no presente ciclo, a produtividade americana tem crescido pouco e tudo indica, pela enésima vez, que uma redução de impostos num ambiente incerto e de conflagração não trará grande elevação de investimentos.

Assim, para muita gente no mercado financeiro, a expressiva redução do “spread” entre os juros dos títulos do Tesouro de 10 e de 2 anos, que hoje está próximo de zero, preocupa muito. No passado, toda vez que esse diferencial entrou no terreno negativo, em pouco tempo seguiu-se uma recessão, pois uma forte queda no juro do título longo significa que o investimento não tem mais atrativo e é melhor privilegiar a liquidez, levando ao fim do crescimento. Vai no mesmo sentido a elevação dos prêmios de risco pago pelas empresas mais frágeis.

Entretanto, se o problema não é a tendência, a questão-chave é o “timing”: a recessão ocorrerá em algum momento do ano que vem, impedindo a reeleição do presidente americano? Ou virá mais tarde?

Por tudo isso que, em conversa com Sérgio Vale, amigo e economista-chefe da MB Associados, já há algum tempo concluímos: só uma recessão segura Trump. 

*ECONOMISTA E SÓCIO DA MB ASSOCIADOS. ESCREVE QUINZENALMENTE

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