Marisa Cauduro/LCA Consultores - 1/10/2021
Fábio Romão, economista da LCA Consultores. Marisa Cauduro/LCA Consultores - 1/10/2021

'Só vamos perceber um alívio mais claro na inflação no primeiro semestre de 2022', diz economista

Fábio Romão acredita que o IPCA vai desacelerar até fechar o ano em 8,7%, mas diz que o cenário é preocupante porque problemas concomitantes pressionam ainda mais os preços

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

08 de outubro de 2021 | 15h47

Para o economista Fábio Romão, da LCA Consultores, o cenário da inflação hoje é preocupante. Em  setembro, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) atingiu  1,16%, a maior variação para o mês em 27 anos. A preocupação, segundo o economista, decorre do fato de haver no momento vários problemas concomitantes que põem mais pressão nos preços. Entre eles estão as cotações dos bens industriais impulsionadas pela escassez de matérias primas, a elevação dos preços administrados puxados pela energia elétrica e pelos combustíveis e também o potencial aumento dos serviços, que deve ser chancelado pela retomada das atividades.

Nas contas do economista, a inflação em 12 meses atingiu o pico em setembro, com alta de 10,25%. Deve desacelerar daí para frente, mas fecha o ano em 8,7%, que é um nível extremamente alto e deve trazer uma inércia inflacionária importante para 2022. Para o ano que vem, Romão espera uma inflação de 4,5%, muito mais perto do teto da meta (5%) do que do centro (3,5%). A seguir, os principais trechos da entrevista.

A alta de 1,16% da inflação em setembro surpreendeu?

O resultado veio abaixo do que projetamos e da mediana do mercado, mas é uma alta importante e preocupante. Esse resultado não muda minha estimativa para este ano de uma inflação 8,7% que vai gerar uma inércia importante para 2022. Por isso, projeto 4,5% para o ano que vem. 

Por que o resultado é preocupante?

Se pegarmos a mediana da inflação dos meses de setembro da década passada, ela foi de 0,5% e hoje temos 1,16%. Temos vários problemas concomitantes que geram pressões de preços. Um deles é a alta dos bens industriais, que fecharam o ano passado em 3,2%, e em 12 meses até setembro estão em 10,5%. Projeto que encerrem o ano em 9,5%, o segundo maior aumento da série. Outro ponto é a alimentação no domicílio, que está em 14,7% em 12 meses e deve fechar o ano em 8,4%. Também é uma pressão importante. Também a vacina no braço significa maior circulação de pessoas, o que chancela o reajuste dos serviços. Os serviços subiram 1,6% em 2020, começaram a acelerar a partir de meados do ano e devem fechar 2021 com alta de 4,5%. Além disso, tem os preços monitorados, sobretudo da energia elétrica. A energia elétrica está em tudo. Ela pressionou diretamente o IPCA de setembro por causa da escassez hídrica.

A inflação hoje atingiu o pico?

Para outubro espero um aumento de 0,70% do IPCA. Não é pouco, mas vai representar uma desaceleração em 12 meses, do índice, que sai de 10,25% em setembro para 10,07% em outubro, indo para 9,56% em novembro. O ano fecha em 8,7%. É um resultado bem alto, mas é difícil imaginar que a inflação em 12 meses permaneça em dois dígitos por causa da forte base de comparação que foi o final do ano passado. A alimentação está perdendo ritmo de alta, o que é parcialmente uma boa notícia.

Quais os riscos que há pela frente?

O preços dos combustíveis é um deles. Com a piora do cenário global energético em razão da diminuição da oferta de gás natural, o consumo global de óleo e gasolina pode crescer e pressionar os preços dos combustíveis. Outro risco é a crise hídrica. A bandeira de escassez hídrica deve continuar até abril, mas existe o risco de se ter um sobrepreço ainda maior antes de abril de 2022. O discurso é que não vai mudar. Mas há esse risco. Outro ponto são os bens industriais, que tiveram uma avalanche de custos. Parte disso foi repassado e parte disso, não. O desarranjo das cadeias produtivas não passou. Os serviços também preocupam. Há uma demanda reprimida por serviços. Com o isolamento social, as famílias acabaram fazendo uma poupança forçada, deixaram de viajar, por exemplo, e podem voltar agora. Existe uma predisposição de gastar mais com serviços e a estrutura de oferta é menor, o que pode significar mais aumentos de preços também. O IPCA de 8,7% projetado para este ano é óbvio que joga muita inércia inflacionária para o ano que vem. Por isso, espero uma inflação de 4,5% para 2022, que está mais para perto do teto da meta (5%), do que do centro (3,5%).

A meta de 2022 virou miragem?

O Banco Central não admite, mas cada vez está mais difícil cumprir a meta. O BC vai focar com muito mais clareza sobre a inflação de 2023 quando começar 2022. Ele vai deixar mais evidente que a principal de preocupação será o centro da meta de 2023.

Com o resultado de hoje, o seu cenário para a taxa básica de juros, a Selic, muda?

Não. A Selic hoje está em 6,25%. Neste mês deve ir para 7,25% e em dezembro sobe para 8,25%. Espero uma alta de meio ponto para fevereiro de 2022, quando deve atingir 8,75% ao ano.

Quando o brasileiro vai sentir algum alívio na inflação

Mesmo com a inflação esperada para outubro menor do que a de setembro, a sensação térmica é muito ruim. O IPCA está em 10,25% em 12 meses e deve fechar o ano em 8,7%. Só vamos perceber um alívio mais claro nos preços ao longo do primeiro semestre de 2022.

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Inflação chega a 10,25% em 12 meses e é a maior para o mês de setembro desde o início do Plano Real

Aumentos no valor da bandeira tarifária na conta de luz e no gás de cozinha pesaram no IPCA, aponta o IBGE; resultado acumulado em 12 meses é o maior desde fevereiro de 2016

Daniela Amorim e Guilherme Bianchini , O Estado de S.Paulo

08 de outubro de 2021 | 09h15
Atualizado 08 de outubro de 2021 | 15h51

RIO e SÃO PAULO - Sob a pressão dos aumentos na energia elétrica, gasolina, passagem aérea e gás de botijão, a inflação oficial no País acelerou para 1,16% em setembro, a taxa mais elevada para o mês desde 1994, ano de implantação do Plano Real, segundo os dados do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), divulgados nesta sexta-feira, 8, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Como consequência, a taxa acumulada pelo IPCA em 12 meses rompeu o patamar de dois dígitos, subindo a 10,25% em setembro, ante uma meta de 3,75% perseguida pelo Banco Central neste ano, com margem de tolerância de 1,5 ponto (2,25% a 5,25%). O resultado em 12 meses é o maior desde fevereiro de 2016.

O porcentual de itens investigados com aumentos de preços desceu de 72% em agosto para 65% em setembro. “A inflação de setembro traz boa novidade, depois de tantas surpresas negativas, mas o número ainda é muito elevado. O cenário é preocupante, e não só por commodities. É uma inflação que está se espalhando, com piora nas expectativas para 2022”, avaliou o economista-chefe da consultoria MB Associados, Sergio Vale, que manteve as projeções de 9,00% para o IPCA em 2021 e de 4,70% para 2022. 

Para o economista, é praticamente impossível atingir o centro da meta da inflação no próximo ano, fixado em 3,50%. Diante das incertezas políticas, acrescenta, também será difícil alcançar o objetivo em 2023 (3,25%).

“Tem energia, combustíveis e os efeitos da inflação americana e da instabilidade chinesa, que pressionam nossa taxa de câmbio. Não há cenário tranquilizador e, nessa equação, não consigo ver uma inflação mais baixa”, alertou Vale. 

Os itens monitorados pelo governo têm pressionado os aumentos de preços na economia, apontou Pedro Kislanov, gerente do Sistema Nacional de Índices de Preços do IBGE. "Tem uma série de fatores que estão por trás dessa inflação. Ela tem sido verificada, principalmente, sobre itens monitorados: energia, gasolina e gás de botijão. E também tem contribuição importante dos alimentícios, especialmente proteínas", afirmou Kislanov.

Para o pesquisador do IBGE, a demanda tem se recuperado aos poucos, diante da reabertura da economia, o que pode influenciar resultados futuros do IPCA. No momento atual, o cenário conta com a pressão de uma inflação de custos operacionais e elevação de preço de insumos, além da alta do dólar, que também influencia itens da cesta de consumo, como eletrônicos e gasolina.

“O dólar elevado muitas vezes também acaba estimulando exportações, reduz a oferta interna e acaba aumentando preços”, lembrou Kislanov.

No mês de setembro, os aumentos de preços nos grupos habitação, transportes e alimentação responderam por cerca de 86% do IPCA. Entre os itens de maior impacto, os que mais contribuíram para a inflação de setembro foram energia elétrica (0,31 ponto porcentual), gasolina (0,14 ponto porcentual), passagem aérea (0,10 ponto porcentual), gás de botijão (0,05 ponto porcentual) e automóvel novo (0,05 ponto porcentual).

Dentro do índice, a inflação de serviços - usada como termômetro de pressões de demanda sobre a inflação - passou de alta de 0,39% em agosto para 0,64% em setembro. A inflação de itens monitorados pelo governo saiu de 0,95% em agosto para 1,93% em setembro.

"Os serviços já tiveram variação positiva, o que mostra alguma recuperação, nesse contexto de melhora da pandemia, avanço da vacinação, aumento da mobilidade urbana. No entanto, o acumulado está abaixo do IPCA. O setor de serviços ainda está deprimido. Ele ainda está em processo de recuperação. Mas pode contribuir para uma eventual aceleração (nos preços) tanto essa melhora da pandemia quanto uma questão de custos do próprio setor, como a alta da gasolina, da energia elétrica, com a melhora do cenário, melhora da economia. Mas isso também tudo depende da recomposição salarial, da melhora do mercado de trabalho. As pessoas dependem de renda para o consumo de serviços", observou Kislanov.

A inflação de serviços acumulada em 12 meses saiu de 3,93% em agosto para 4,41% em setembro. A inflação de monitorados em 12 meses passou de 13,68% em agosto para 15,72% em setembro, o maior patamar desde janeiro de 2016, quando foi de 17,22%. “Os monitorados são os que mais têm impactado a inflação em 12 meses”, frisou Kislanov.

A gasolina subiu 39,60% nos 12 meses encerrados em setembro, enquanto o etanol aumentou 64,77%. A energia elétrica acumula um aumento de 28,82%. O gás de botijão aumentou 34,67% em 12 meses, mas vem subindo ininterruptamente há 16 meses, período em que acumulou uma alta de 39,64%.

As carnes ficaram 24,84% mais caras nos 12 meses encerrados em setembro, e as passagens aéreas subiram 56,81%.

A taxa de 10,25% acumulada pela inflação nos 12 meses terminados em setembro teve como principais contribuições os combustíveis (2,40 pontos porcentuais, sendo a gasolina responsável por 1,93 ponto porcentual individualmente), energia (1,25 ponto porcentual), carnes (0,67 ponto porcentual), etanol (0,39 ponto porcentual) e gás de botijão (0,38 ponto porcentual).

Os dados da inflação de setembro corroboram o “plano de voo” do Banco Central, com prováveis altas de 1 ponto porcentual na taxa básica de juros, a Selic, em outubro e em dezembro, para 8,25% ao ano, opinou o economista João Leal, da gestora de recursos Rio Bravo Investimentos. Ele prevê que o Comitê de Política Monetária (Copom) do BC encerre o ciclo de elevação dos juros na primeira reunião de 2022, quando subiria a taxa para 8,75% ao ano.

“É um nível razoável para cumprir o centro da meta em 2022 (3,50%). A partir daí, o BC começa a colocar 2023 mais na conta”, previu Leal. 

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Guedes: com alta global da inflação, é 'natural' que preços no Brasil subam para 'ao redor de 9%'

Nesta sexta-feira, o IBGE divulgou que o IPCA atingiu 10,25% no acumulado em 12 meses e subiu 1,16% em setembro, na maior alta para o mês desde o início do Plano Real

Idiana Tomazelli e Lorenna Rodrigues, O Estado de S.Paulo

08 de outubro de 2021 | 13h31

BRASÍLIA - O ministro da Economia, Paulo Guedes, disse nesta sexta-feira, 8, que a questão da inflação já está “endereçada”. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou que o IPCA, a inflação oficial do País, acumulado em 12 meses atingiu 10,25%, o maior nível desde fevereiro de 2016 - em setembro, o indicador subiu 1,16%, maior alta para o mês desde o início do Plano Real. 

A perseguida pelo Banco Central para este ano é de 3,75%, com margem de tolerância de 1,5 ponto (2,25% a 5,25%). 

Segundo Guedes, em um contexto de aceleração global da inflação, é “natural” que, num País onde os preços já costumam ter variação ao redor de 4%, o índice acabe subindo para algo “ao redor de 9%”. Para argumentar isso, ele citou que nos Estados Unidos, onde a inflação costuma ser próxima de zero, a variação de preços beira os 5%.

Durante evento promovido pelo Itaú, voltado para investidores estrangeiros, o ministro citou a aprovação da autonomia formal do Banco Central como medida essencial para conter a alta de preços. No mais recente ciclo de alta de juros, o Comitê de Política Monetária (Copom) levou a taxa básica de juros da mínima histórica de 2% para os atuais 6,25% ao ano. 

“Vemos muitas reeleições em cima de exploração de ciclos econômicos, por meio do Banco Central. Nós fizemos a despolitização do Banco Central”, disse Guedes. 

A meta de inflação é fixada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) e, para alcançá-la, o Banco Central eleva ou reduz a taxa básica de juros da economia. Na hipótese de a meta de inflação ser descumprida, o presidente do BC, Roberto Campos Neto, terá de enviar uma "carta aberta" ao ministro da Economia, Paulo Guedes, explicando as razões para o estouro. A última vez que isso ocorreu foi em janeiro de 2018 e o motivo foi o descumprimento em outra direção, por a inflação do ano anterior ter ficado abaixo do piso da meta. 

Crescimento em 2022

Guedes disse que é “fato” que o Brasil está crescendo e criando empregos e criticou projeções de economistas que apontam baixo crescimento no ano que vem.

O ministro dirigiu-se ao economista-chefe do banco, Mario Mesquita. Depois de chamá-lo de “meu amigo”, criticou o modelo usado pela equipe da instituição para projetar o Produto Interno Bruto (PIB) e disse que algumas variáveis usadas talvez não fossem as mais adequadas.

“Agora estão rodando as projeções para o ano que vem, de que (o crescimento) será de 0,5%. Vão errar de novo, será muito mais do que isso. Nosso real problema é a inflação, mas o crescimento está vindo. Ainda não sabemos o nível, 2%, poderia ser um pouco mais, um pouco menos, mas estou falando apenas de fatos. Uma coisa é barulho, política, narrativas. Outra coisa são fatos”, afirmou.

Segundo ele, há evidências na arrecadação e no consumo de que há retomada do crescimento. Ele disse que o PIB brasileiro caiu menos em 2020 e recuperou mais rápido que o esperado. “O Brasil mantém um ritmo muito acelerado de recuperação este ano, confirmando nossa expectativa”, afirmou.

“Quero frisar para os (investidores) estrangeiros, há muito barulho no Brasil. Continuamos promovendo reformas estruturais, que são chave para crescimento sustentado”, disse o ministro.

Guedes, que discursou em inglês no evento, citou ainda projeções de alta de “4,2% ou 4,3%” neste ano no PIB. A projeção oficial do governo, no entanto, é de um avanço de 5,3% em 2021.

O ministro destacou ainda o avanço da vacinação e citou alguns dos tipos de imunizantes usados no Brasil, como Pfizer, Janssen e até Coronavac, produzida pelo Instituto Butantan, de São Paulo, e que costuma ser alvejada por críticas do presidente Jair Bolsonaro por ser a “vacina de João Doria”, governador paulista e adversário político do chefe do Palácio do Planalto. O próprio Guedes foi vacinado com Coronavac. O ministro ainda citou a Moderna, embora o Brasil não tenha adquirido nenhum lote desse imunizante. 

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