Marko Djurica/Reuters
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Sob chuva, gregos vão às ruas defender permanência do país na União Europeia

Prejudicada pelo mau tempo, manifestação se esvaziou relativamente cedo; homens e mulheres desafiaram governo com o mote 'Grécia, Europa, democracia'

Fernando Scheller, enviado especial a Atenas, O Estado de S. Paulo

30 de junho de 2015 | 18h59

ATENAS - Na noite em que se confirmaria o calote grego a um empréstimo de € 1,6 bilhão do Fundo Monetário Internacional (FMI), deixando ameaçada a posição do país como membro da União Europeia, viam-se raios no céu de Atenas e ouviam-se trovões. Por volta das 20h30, a chuva que ameaçava cair sobre a capital grega desabou no momento em que a mobilização pró-euro chegava ao ápice. À medida que a chuva engrossava, o movimento se esvaziava. Por volta das 21h30, era fácil caminhar em meio aos manifestantes. Até o vendedor de apitos e bandeirolas já ia embora, desistindo das novas vendas.

 

O público que foi ao pátio diante do parlamento grego nesta terça-feira, mesmo lugar que abrigou uma manifestação contrária ao tratamento que o país vem recebendo da União Europeia, era visivelmente formado por pessoas de maior poder aquisitivo. Os que entoavam gritos de guerra vestiam roupas de marcas famosas: um empresário, que concordou em falar com o Estado com a condição de não se identificar, tinha vindo ao protesto com o seu relógio IWC.

 

Ao contrário do que ocorreu na segunda-feira, a organização do protesto desta noite se preocupou em mandar um recado para o mundo. Em vez de cartazes em grego, as faixas mais visíveis tinham dizeres em inglês, com "recados" a perigos da história grega, que já passou por uma guerra civil e por uma ditadura militar relativamente recente. Nos gritos de guerra, que a multidão entoava de forma intermitente, apenas três palavras: "Grécia, Europa, democracia". 

 

A insistência na questão da democracia dirige-se diretamente ao primeiro-ministro Alexis Tsipras, do partido de esquerda Syriza. Os manifestantes também pediam para Tsipras renuncie ao cargo. "O nosso primeiro ministro admira figuras como Hugo Chávez (ex-presidente da Venezuela, morto em 2013)", disse Nikos Kopemaris, 47 anos, que compareceu à praça do parlamento europeu com a mulher, Georgia, e os dois filhos. "A Grécia está unida à Europa. A União Europeia cometeu erros (com o país), mas a maior irresponsabilidade foi do nosso próprio governo."

 

O estudante Michael Konstantinos, 20 anos, frequenta a universidade nos Estados Unidos, mas voltou à Grécia esta semana por causa do referendo relativo à permanência do país na União Europeia. Segundo ele, a vitória do "não" pode representar a saída da Grécia do bloco econômico e do euro. "Não é uma votação que a gente está feliz de fazer, mas é necessária", disse Michael. "Estamos extremamente preocupados."

 

O diretor de cinema Lofteris Danikas, de 55 anos, afirmou que a permanência na União Europeia é uma rede de proteção para a Grécia. "Nós não somos um país completamente desenvolvido, em alguns aspectos somos como na África em nossa falta de organização e na corrupção que vivemos." Michael Troulinos, 31 anos, amigo de Lofteris, disse que o bloco econômico também ajuda na segurança nacional do país. "Temos vizinhos perigosos."

 

Um empresário do ramo de varejo, que identificou-se apenas como Aleksander e não quis revelar seu sobrenome, afirmou que o país corre o risco de "voltar para a pobreza" caso decida abandonar o euro. "Estar na Europa sempre foi uma vantagem, tivemos muito mais investimentos. Acho que as pessoas não entendem a importância de seu voto. Eu não quero nem pensar o que vai acontecer se nós deixarmos o euro."

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