Sérgio Moraes/Reuters
Sérgio Moraes/Reuters

Sob gestão de Maria Silvia, mudanças aceleradas ditam ritmo no BNDES

Presidente do banco desde junho, executiva mudou gestão e política de crédito do banco, mas enfrenta resistências

Vínicius Neder, O Estado de S.Paulo

08 de janeiro de 2017 | 05h00

RIO - Reconhecida como uma executiva exigente e focada em resultados, a economista Maria Silvia Bastos Marques, presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), vem sacudindo a instituição desde que tomou posse, em junho. Maria Silvia assumiu com a missão de encolher o gigante que o BNDES se tornou nos governos do PT, mas vem enfrentando resistências, à medida que acelera o ritmo das mudanças.

A devolução antecipada de R$ 100 bilhões à União, anunciada no fim de novembro, e o avanço nos estudos para atrelar a TJLP (taxa de juros subsidiada do BNDES) à cotação de títulos públicos, revelado pelo Estado no último dia 23, deram a medida da pressa da executiva. Em setembro, Maria Silvia disse ao Estado que o banco precisava correr para entregar resultados: “Temos dois anos para fazer isso. É um tempo muito curto.”

As mudanças de Maria Silvia não ficam apenas na questão financeira. A executiva também reorganizou a gestão: duas diretorias (de Controladoria e Jurídica) foram criadas, duas áreas foram extintas, oito foram fundidas em quatro e uma foi criada. O número de superintendentes (executivos que comandam as áreas) passou de 24 para 19, e eles entraram numa dança das cadeiras. 

A reorganização também foi física. Os superintendentes deixaram de ter mesas com divisórias de vidro e os próprios diretores perderam suas salas. Agora, estão num único salão e um andar inteiro foi liberado. Com isso, a nova diretoria abandonou a construção de um prédio, orçado em R$ 490 milhões, e transferiu para a sede empregados que ocupavam nove andares num edifício comercial. 

Tudo isso gerou reclamações. Três empregados do banco, de diferentes áreas, disseram ao [BOLD]Estado[/BOLD], em anonimato, que mexer no organograma e mudar funcionários de andar gera pouco resultado. “O banco está parado”, disse um funcionário.

Crédito. Na última quinta-feira, o anúncio de uma nova política para a concessão de crédito marcou as diferenças em relação à gestão do economista Luciano Coutinho, o mais longevo presidente da história do BNDES. O objetivo da nova política é dar incentivos “horizontais”, com regras que valem para todos os setores.

A gestão de Coutinho foi marcada por polêmicas, como o custo dos aportes bilionários do Tesouro Nacional, o apoio à consolidação e internacionalização de empresas (a política de “campeões nacionais”) e o financiamento às obras das empreiteiras no exterior. Uma das críticas é que os juros subsidiados foram concedidos a setores específicos, escolhidos pelo governo. 

Maria Silvia disse, ao anunciar a nova política, que a lógica de segmentar as condições de crédito por setores era tradicional no banco, mas a visão setorial foi aprofundada com o crescimento dos anos recentes. 

“Como o banco passou a atuar mais extensivamente, essa coisa foi se multiplicando e virou um negócio bastante confuso”, alfinetou. A executiva assumiu o cargo com o desafio de reduzir o BNDES. Turbinado por R$ 440,8 bilhões em aportes do Tesouro, o banco teve o crescimento como marca na gestão de Coutinho. O ativo do banco saltou 360% de 2007 a 2015 – em junho de 2016, ficou em R$ 935 bilhões.

Para Armando Castelar, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV), nos governos do PT, o BNDES se tornou o “posto Ipiranga da economia”, na tentativa de sustentar a demanda por investimentos. Agora, “existe uma preocupação de estar onde deve”, racionalizando o uso dos subsídios. “Reduzir (o banco) diminui a necessidade de subsídio fiscal. O BNDES não gera dinheiro. Quando ele coloca juros baixos, quem arca com o custo é o contribuinte”, disse Castelar.

Mas, para Thiago Mitidieri, presidente da AFBNDES, associação dos funcionários do banco, falta planejamento estratégico aos governos. Com isso, o BNDES muda “a reboque” dos ciclos da economia e da política. Segundo ele, quando a economia crescia, o BNDES concedeu mais empréstimos a empresas. Em seguida, assumiu papel “anticíclico” na crise de 2008. Hoje, diminui na esteira da recessão. “É preciso ter projeto de País”, disse.

Resistências internas. As resistências internas às mudanças que Maria Silvia Bastos Marques vem fazendo no BNDES vão além da reorganização institucional. Para alguns funcionários insatisfeitos, há uma tentativa de capitalizar mudanças que vinham sendo feitas antes, após o ex-ministro da Fazenda Joaquim Levy, no segundo governo da ex-presidente Dilma Rousseff, determinar a redução do banco. Empregados ouvidos pelo Estado definiram alguns anúncios como “marqueteiros”.

Um exemplo seria a suspensão de 25 empréstimos, no valor de US$ 7 bilhões, para obras no exterior de empreiteiras envolvidas na Operação Lava Jato, feita em maio, antes da chegada da nova diretoria, mas informada apenas em outubro. 

O banco reconheceu que manteve decisão anterior, mas ressaltou que mudará o modelo daqui para a frente, levando em conta a “efetividade” das operações e não só o conteúdo nacional – uma “mudança de paradigma”. Na última terça-feira, o BNDES anunciou a retomada de um dos financiamentos, da Queiroz Galvão, em Honduras.

Outra medida antiga seria a divulgação de informações sobre as operações. O banco vem ampliando a quantidade de dados na internet pelo menos desde 2015. Em junho daquele ano, liberou dados sobre empréstimos no exterior, incluindo juros e garantias, após decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre o sigilo dessas operações. Na nova gestão, o BNDES mudou o desenho do site. O banco reconhece que parte das informações já estava disponível, mas diz que facilitou o acesso. No último dia 26, foram inseridos dados sobre participações acionárias.

Outra ação anunciada pelo BNDES que dá continuidade a medidas anteriores foi o refinanciamento de dívidas do Programa de Sustentação dos Investimentos (PSI). A gestão anterior já havia anunciado duas chamadas para refinanciamento. Em dezembro, a nova diretoria ampliou a renegociação para empresas inadimplentes, com foco em firmas menores, recebendo elogios da Abimaq, associação das indústrias de máquinas e equipamentos.

Controles. Empregados do BNDES também relataram mal-estar com ações em relação a controles internos. Isso teria ocorrido no caso dos empréstimos para empreiteiras no exterior e para a Usina São Fernando, do pecuarista José Carlos Bumlai – próximo ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ele foi condenado na Lava Jato. Após a Justiça mandar bloquear, em agosto, bens de técnicos do BNDES envolvidos na análise de empréstimos à São Fernando, a nova diretoria abriu uma investigação interna. Segundo apurou a reportagem, nos corredores do banco ficou uma impressão de que faltou empenho na defesa dos empregados. 

De acordo com a assessoria de imprensa do BNDES, uma norma já existente permite o ressarcimento de custos com advogados pelos empregados. Além disso, no caso São Fernando, “a auditoria interna concluiu que a operação foi contratada de acordo com as definições operacionais do banco, seguindo, de forma regular, todos os procedimentos”.

O BNDES disse que lida “naturalmente” com as resistências internas às mudanças que vêm sendo promovidas. “Eventuais manifestações de opinião divergente não significam quaisquer críticas. A Diretoria considera a comunicação interna uma prioridade”, diz a assessoria de imprensa, em nota.

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