Sob impacto da política

Terminamos 2016 com perspectivas melhores, mas muito longe do que desejamos

Mário Mesquita*, O Estado de S.Paulo

24 de dezembro de 2016 | 15h48

Este ano que termina foi marcado pela influência da política sobre a economia e os preços de ativos. O principal evento, em escala global, talvez tenha sido a eleição de Donald Trump à presidência dos EUA, com implicações potencialmente muito importantes para a política econômica daquele país. Mas tivemos surpresas políticas em outros lugares, como a vitória do Brexit, e consequente queda do primeiro ministro Cameron, no Reino Unido, a derrota (com resultados aparentemente revertidos) da proposta de paz em referendo na Colômbia, e a queda do governo Renzi, motivada por insucesso em outro referendo, na Itália. A política não foi menos importante por aqui, claro, com o impeachment da presidente Dilma Rousseff e o advento do governo Temer, que implicou profunda inflexão na estratégia de política econômica. As perspectivas para 2017 serão em boa parte condicionadas pelas escolhas políticas e de política econômica de 2016. Vamos a elas.

As eleições nos EUA significaram não apenas a vitória de Trump, mas também do partido Republicano no Congresso. O governo deve ser capaz de apresentar e começar a implementar um programa de estímulo fiscal. Ocorre que este vai impactar uma economia que já parece estar em pleno emprego e, consequentemente, tende a ensejar pressões inflacionárias que levarão o banco central, o Fed, a elevar as taxas de juros de forma mais intensa do que o mercado esperava. O crescimento da economia ficar pouco acima de 2%, acelerando em 2018, quando os efeitos do pacote fiscal serão mais fortes, com inflação de 1,9%.

Na Europa, a atividade econômica tem se mostrado resiliente, sendo beneficiada por política monetária expansionista e pela relativa competitividade do euro. Mas os riscos políticos são muitos. Teremos eleições gerais na Holanda no primeiro trimestre; eleições presidenciais na França no segundo trimestre (e talvez eleições gerais na Itália no mesmo período), eleições na Alemanha no outono e pleitos em países menores. A combinação de um calendário eleitoral carregado, com forças anti-União Europeia em alta e fragilidade bancária em alguns países (como na Itália) e fiscal em outros (como em Portugal e na Grécia) tende a ser negativa para a moeda comum, que deve romper a paridade com o dólar. A incerteza política deve, na visão dos economistas do Itaú, levar a uma desaceleração do crescimento, para 1,3%, com inflação de 1,5%, ainda abaixo da meta perseguida pelo BCE.

A economia chinesa termina o ano em ritmo forte e deve manter expansão acima de 6% em 2017. O investimento privado deve ser beneficiado pela elevação dos lucros corporativos e a política econômica seguirá focada em manter a atividade robusta, tendo em vista o 19.° Congresso do Partido Comunista, previsto para o fim do ano, sem descuidar da prevenção de riscos de excessos em certos mercados, inclusive imobiliários. Um fator de tensão é a elevação de taxas de juros globais, que pode acelerar as saídas de capital e a pressão sobre a moeda e as reservas.

A América Latina está vivendo o efeito Trump. O impacto mais severo recai sobre o México, cujos ativos encontram-se depreciados, em meio à incerteza sobre o futuro das relações comerciais com os EUA. A atividade econômica tem desapontado na região e diversas moedas depreciaram depois da eleição americana, mas esperamos uma recuperação em 2017, com exceção da economia mexicana. Isso deve resultar de um comportamento mais favorável dos preços de matérias-primas e algum efeito de processos de distensão monetária (suplementados, no caso argentino, por uma política fiscal expansionista).

O Brasil começou em 2016 a tentar o que pode vir a ser uma radical (e bem-vinda) mudança na combinação de políticas econômicas, trocando a lassidão fiscal e aperto monetário pelo ajuste, ainda que gradual, das contas públicas, e a expansão monetária. Nesse ambiente, em que pese a decepção com o ritmo da atividade no terceiro trimestre, projetamos uma modesta retomada para 2017, crescimento do PIB de 1,5%, sendo que 0,9% correspondem a ajuste de estoques – ou seja, fatores como consumo, investimento, gastos do governo e setor externo vão gerar crescimento de apenas 0,6% no produto. Do lado da oferta, cabe registrar certa estabilização na atividade de serviços, pequeno crescimento da indústria e aumento na produção agrícola.

Existem riscos, majoritariamente negativos, para as projeções. Quanto ao ambiente externo, contamos com um governo Trump mais voltado para a expansão fiscal e desregulação doméstica do que para uma política comercial e externa agressiva. No lado doméstico, a retomada é condicionada à aprovação de uma versão da proposta de reforma de Previdência que viabilize o cumprimento do teto de crescimento dos gastos públicos a médio prazo. Sem isso, além do impacto negativo sobre a confiança, o real tenderia à depreciação, as pressões inflacionárias provavelmente seriam recrudescidas e as perspectivas para cortes de juros abortadas. A crise financeira estadual é outro fator de risco a ser monitorado.

Terminamos 2016 com perspectivas melhores do que aquelas do final de 2015, graças aos esforços da nova equipe econômica, mas muito longe do que desejamos e do que o País merece.

*Economista-chefe do Itaú Unibanco

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.