Paulo Whitaker/Reuters
Paulo Whitaker/Reuters

Sob influência das eleições, papéis de estatais turbinam alta da Bolsa

Apesar de representarem 20% do Ibovespa, estatais foram responsáveis por 62% da alta do índice nos últimos 30 dias

Anna Carolina Papp e Gabriel Roca, O Estado de S.Paulo

22 Outubro 2018 | 06h00

A recente evolução do quadro eleitoral deu um novo fôlego à Bolsa: no último mês, ela subiu mais de 7%. Essa valorização foi puxada por ações de empresas estatais – o que o mercado nomeou de “kit eleição”. Mesmo representando 20% da carteira do Ibovespa – termômetro do mercado acionário no País –, essas ações foram responsáveis por 62% da alta do índice no período. 

Caso se confirme um novo governo com agenda reformista, que contemple privatizações, esses papéis podem continuar subindo por mais algum tempo. Especialistas, no entanto, aconselham esse tipo de investimento só para o longo prazo, pois ainda há espaço para muita volatilidade.

O “kit eleição” ganhou esse nome porque as estatais sofrem mais diretamente a influência das decisões do governo do que empresas privadas. A liderança de Jair Bolsonaro (PSL) na corrida presidencial, que se consolidou como o candidato favorito do mercado pela pauta econômica mais liberal que a de seu oponente Fernando Haddad (PT), alavancou essas ações. 

Segundo cálculos do professor da Fundação Instituto de Administração Marcos Piellusch, nos últimos 30 dias, as estatais tiveram alta média de 28% na Bolsa, enquanto as companhias privadas avançaram 6%. Ações da Cemig, Eletrobrás (PNB), Banco do Brasil, Petrobrás (PN), por exemplo, subiram, respectivamente, 47%, 39%, 34,5% e 29,7%. 

“Esse tipo de papel, que apanhou muito nos últimos anos, agora deu uma respirada, sobretudo com o cenário caminhando para um governo com menos interferência nas estatais”, observa Gabriel Francisco, analista da XP Investimentos

Especialistas do mercado financeiro concordam que a recente valorização dessas empresas tem relação, em maior ou menor grau, com a possibilidade de elas virem a ser privatizadas na próxima gestão. Porém, eles ressalvam que o processo de venda de ativos públicos é burocrático e demanda muitas etapas – portanto, as ações podem sofrer com grandes variações no preço durante o percurso.

Gangorra. A volatilidade, aliás, já tem sido observada durante a própria campanha eleitoral – o que pode funcionar como um alerta para o investidor mais afoito com a perspectiva de ganhos no curto prazo. Exemplo disso é a Eletrobrás. No dia 8, após o primeiro turno, os papéis preferenciais da empresa subiram 18%, já que o plano econômico de Bolsonaro, capitaneado pelo economista Paulo Guedes, prevê uma ampla agenda de privatizações.

No dia 10, após declarações de Bolsonaro de que não privatizaria a companhia, apenas suas distribuidoras, as ações caíram quase 10%. No dia 17, em reação à rejeição do projeto de lei que destrava a venda das distribuidoras da estatal no Senado, as ações recuaram mais de 5%. Já na sexta-feira, “contagiado” pelo leilão da Cesp, o papel subiu quase 6,0%. 

“Bolsa nunca deve ser um investimento para curto prazo”, diz Karel Luketic, diretor da área de análise da XP. Ele pontua que essas ações podem continuar a oferecer bons ganhos, mas o investidor deve mirar no longo prazo. “O otimismo está grande, mas ainda há eventos para acontecer e os preços podem oscilar bastante.”

O estrategista da Guide Investimentos, Luis Gustavo Pereira, ressalta, por exemplo, que há enormes dificuldades para se implementar a agenda de privatizações que o mercado espera. “Em um governo liberal, pelo menos começa a ter o embate de ideias.” Além disso, de acordo com o professor da FEA-USP Rodrigo De Losso, há mais confiança por parte do mercado na capacidade de gestão dessas empresas caso um governo liberal seja eleito. 

Investimento. Apesar da guinada recente, analistas acreditam que, para quem possui perfil de risco adequado à renda variável, ainda há espaço para entrar na Bolsa. “Vemos uma recuperação da economia, ainda que lenta, e melhora nos índices de confiança. É o momento para estar comprado”, diz Pereira, da Guide. Como exemplos de riscos a serem monitorados pelos investidores, ele aponta o cenário externo, com aumento das taxas de juros nos EUA, e a definição da equipe econômica do próximo governo.

Já De Losso, da FEA-USP, observa que, apesar de haver potencial para valorização, há um ruído de comunicação na equipe econômica do candidato do PSL em relação a muitos assuntos. “Se não houvesse essa contradição entre Bolsonaro e Paulo Guedes, eu diria que é um ótimo momento para investir em ativos mais arriscados.”

Se há espaço para a Bolsa, analistas também veem perspectivas positivas para o “kit eleição”. Francisco, da XP, que acompanha a Petrobrás, diz que, caso a política de preços seja mantida – ainda que mensal, e não diária –, a estatal, cujas ações já subiram mais de 60% no último ano, pode seguir em alta. O papel preferencial, hoje em quase R$ 26, pode chegar a R$ 33 em 12 meses, projeta a corretora.

Apesar do entusiasmo com o mercado acionário, é preciso ter cautela, diz De Losso, da FEA-USP. Ele, que desenvolve pesquisas em economia comportamental, acredita que o investidor comum deve preferir fundos com gestão profissional, já que pessoas físicas tendem, segundo estudos, a perder dinheiro na Bolsa.

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