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Sob nova administração

Nelson Barbosa será recebido com reservas pelos empresários e pelos analistas econômicos, por sua política desenvolvimentista nem sempre assentada em fundamentos consistentes

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

18 Dezembro 2015 | 20h08

O ministro Nelson Barbosa, que substitui Joaquim Levy no Ministério da Fazenda, foi aplaudido nesta sexta-feira e seguirá sendo aplaudido pelo miolo do PT, cujos quadros técnicos ajuda a compor.

Mas foi e será recebido com reservas pelos empresários e pelos analistas econômicos, por sua forte identificação com uma política desenvolvimentista nem sempre assentada em fundamentos consistentes.

Ele já vinha costeando o alambrado - como dizia Brizola - desde 2013, quando deixou a Secretaria Executiva do Ministério da Fazenda. Na linha de frente da equipe econômica ele previra então a tempestade que se aproximava. Decidiu cacifar-se para ser pinçado para cima no tempo devido. 

Não escondeu sua decepção quando, em novembro de 2014, foi nomeado para o Planejamento e não para a Fazenda. E mais ainda se decepcionou quando teve de compor dobradinha com Joaquim Levy e sua política econômica concentrada em receitas ortodoxas. Os 12 meses de convivência foram marcados por sucessivas divergências, muitas das quais extravasaram das quatro paredes em que foram explicitadas. As duas últimas foram a definição da meta fiscal para o Orçamento de 2016, que Barbosa queria “mais flexível” e mais próxima de zero; e a proposta de adiamento do reajuste do salário mínimo em 2016, que Barbosa rejeitou.

Ele foi o cara escalado pelo governo juntamente com o advogado-geral da União, Luís Inácio Adams, para justificar o uso e o abuso das pedaladas fiscais. Assumirá suas funções com essa marca na testa, num momento de grave fragilidade fiscal da atual política econômica, a despeito de suas declarações iniciais em defesa do ajuste, das reformas estruturais e do controle da dívida.

Joaquim Levy enfrentou cerrada oposição do PT e do próprio presidente Lula, que em outubro avisara que o ministro tinha perdido seu “prazo de validade”. Batalhou como pôde, foi vencido e desprestigiado inúmeras vezes pela presidente Dilma e outras tantas reafirmado no cargo, mais por conveniência do que por convicção.

Não foram apenas os entusiastas da economia populista dos primeiros quatro anos do governo Dilma que cavaram o buraco sob os pés de Levy. Grande número de empresários refugou o remédio amargo com que tratou a economia. Assim agindo, reforçaram a impressão equivocada de que o mergulho na recessão foi produzido pelas escolhas de Levy, e não pelos erros de política econômica do quatriênio anterior. O presidente da Fiesp, Paulo Skaf, por exemplo, trabalhou abertamente por sua deposição.

Enfim, Levy é vítima das contradições do governo Dilma que quer, mas não quer. Repete que quer uma administração responsável das contas públicas, mas não assume as consequências desse querer, porque na verdade não quer.

Levy mostrou surpreendente dose de estoicismo ao longo do processo em que teve de engolir um sapo atrás do outro, dos barbudos e dos não barbudos. Saiu nesta sexta denunciando a falta de disposição do Estado para o esforço fiscal e nisso não pode ser contestado.

Como o País está imerso em resultados desastrosos e fontes inusitadas de incerteza, Barbosa assume com carga extra de dificuldades no objetivo de restabelecer a confiança, num quadro geral contaminado pelas indefinições levantadas pelo processo do impeachment.

CONFIRA:

O Índice de Atividade Econômica do Banco Central mostrou em outubro um recuo de 0,63% (com os ajustes sazonais) em relação a setembro. É a oitava queda consecutiva, o que mostra o enfraquecimento da economia sem nenhuma perspectiva de reação.

Tração negativa

Esse é um quadro que impõe mau começo para 2016, na medida em que exerce tração negativa para a atividade econômica. Qualquer atleta sabe que quanto maior o impulso maior é o salto. Mas, se chegar à linha de salto andando para trás, seu desempenho não pode ser bom

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