Sob nova direção, Maksoud tenta reviver glamour

Sob nova direção, Maksoud tenta reviver glamour

Neto do fundador abre bares, restaurantes e busca profissionalizar a gestão, mas ainda há risco de família perder o hotel em ação judicial

Fernando Scheller, O Estado de S. Paulo

15 Agosto 2015 | 20h52

Quando o empresário Henry Maksoud decidiu abrir um hotel de luxo nos Jardins, no fim dos anos 70, sabia que o terreno ideal era o ocupado pela Abadia de Santa Maria, que abrigava uma comunidade de monjas. Toda vez que ia ao local negociar, levava um bebê de colo – a criança era o atual presidente do hotel, Henry Maksoud Neto, hoje com 40 anos. 

 Depois de virar símbolo de sofisticação em São Paulo nos anos 80 e 90, o hotel entrou em decadência na década passada. Desde que assumiu o comando do Maksoud, depois da morte do fundador, em 2014, Henry Neto tem tentado reerguer o hotel. Ao contrário do avô, que não economizou na construção, ele precisa “virar o jogo” quase sem dinheiro para gastar. “Eu consigo fazer a manutenção, mas não posso reformar o hotel inteiro. Só a minha conta de luz é R$ 300 mil.”

Uma das primeiras medidas que Henry Neto tomou após assumir a operação foi firmar um contrato comercial com a rede Accor, que passou a oferecer o Maksoud para sites e agências de viagem. Ele admite que a decisão jamais passaria pelo crivo do avô. O acordo, porém, já representa 15% do total de reservas do Maksoud, que faturou R$ 50 milhões em 2014.

Outra medida foi o aproveitamento de espaços que há anos estavam ociosos. Uma área sob o heliponto, que jamais tinha sido terminada, agora abriga uma casa noturna, a PanAm. O restaurante do lobby, em breve, passará por reformulação, assinada por um antigo chef do Clos. Um espaço no estacionamento, no térreo, vai virar o Planta, que funcionará como floricultura e café, durante o dia, e servirá drinques e comida vegetariana, à noite.

Para trazer o paulistano jovem ao hotel, Maksoud Neto buscou o mais improvável dos parceiros. Empresário da noite e dono de casas como Lions, Riviera e Yatch, Facundo Guerra está concentrando boa parte de seus novos empreendimentos ali. “Eu nunca tinha entrado no Maksoud, tinha resistência. Mas, quando vi aquela arquitetura bruta do interior do edifício, vi que podia fazer alguma coisa”, diz. 

Proprietário do PanAm e do futuro Planta, ele também dá consultoria gratuita a Henry Neto na reformulação de outros espaços. A primeira experiência foi a reformulação do bar do lobby do hotel, que foi rebatizado de Frank, em referência ao lendário show do cantor Frank Sinatra, em 1981, que o Maksoud promoveu para um seleto grupo de convidados. 

Com a mudança da carta de drinques e o investimento de R$ 50 mil em uma reforma, o local foi transformado em um dos pontos mais disputados da noite paulistana atual. “No Maksoud, dá para fazer muito com pouco”, diz Guerra. “Para construir um bar legal do zero, é preciso gastar R$ 1,5 milhão.” 

O empresário está desenvolvendo um projeto ousado para o subsolo do Maksoud Plaza: fechou contrato com a MK2, rede francesa de cinema, para abrir ali o Cinema Paradiso, uma mistura de cinema e cabaré. “O investimento na casa será meu”, diz o empresário. Em troca, ele terá a vantagem de um aluguel muito mais camarada do que pagaria fora do hotel.

Perigos. Todos os envolvidos no esforço do ressurgimento do Maksoud na cena paulistana sabem, no entanto, que tudo pode ser em vão. Isso porque ainda há o risco de o hotel ser tomado dos atuais donos. O empreendimento foi arrematado, em leilão judicial realizado em 2011, pelos empresários Fernando e Jussara Simões. Os compradores pedem que a aquisição judicial seja sacramentada – o caso chegou à última instância, o Tribunal Superior do Trabalho, em abril (leia mais abaixo).

“O Henry foi muito transparente comigo sobre esse assunto”, diz Guerra. “E eu sei que, se o hotel mudar de dono, o proprietário terá de cumprir os contratos que eu tenho.” Segundo fontes do setor hoteleiro, a profissionalização do Maksoud será útil mesmo em outras mãos. O Estado apurou que as redes Sofitel e Marriott têm interesse em estampar sua marca na fachada do empreendimento.

Além da ação no TST, Henry Neto enfrenta uma briga familiar. O pai e o tio tentam anular o testamento do fundador do Maksoud, que beneficiou o neto. Um advogado próximo ao assunto, no entanto, afirmou à reportagem que há poucas chances de que isso venha a ocorrer.

Caso o Maksoud continue com a família, o atual administrador quer distanciar seu estilo de gestão do que era adotado na “era de ouro” do hotel. Membros da família viveram de graça no Maksoud por anos e não era incomum alguém trazer dez amigos para jantar nos restaurantes sem precisar pagar a conta. Esses tempos podem ter sido bons, mas Henry Neto não quer que eles voltem. “Quero o maior profissionalismo possível, quero ser equivalente a uma multinacional.”

Futuro. A dúvida que paira sobre a permanência ou não do Maksoud Plaza nas mãos do herdeiro do fundador do hotel pode ser resolvida já nos próximos meses. Os empresários Fernando Simões e Jussara Simões, da Júlio Simões Logística (JSL), arremataram, como pessoas físicas, o edifício do hotel em um leilão judicial realizado em 2011 com o objetivo de pagar dívidas trabalhistas da Hidroservice, antiga construtora de Henry Maksoud. 

O processo dos empresários para garantir que o resultado do leilão seja cumprido chegou ao Tribunal Superior do Trabalho (TST). A decisão do colegiado do tribunal poderá definir, afinal, se o hotel pertence aos donos originais ou aos compradores em leilão.

Há pouco mais de três anos, o Maksoud Plaza foi a leilão por R$ 140 milhões. Como o imóvel não atraiu interessados por este valor, o hotel acabou sendo comprado por R$ 70 milhões. O dinheiro seria usado para quitar um processo trabalhista, mas, depois do arremate, a família arranjou dinheiro para pagar a dívida com ex-funcionários. A discussão agora é se o leilão deverá permanecer válido apesar de a dívida que motivou sua realização ter sido quitada. 

Segundo o advogado Estêvão Mallet, da Mallet Advogados Associados, que representa os irmãos Simões, a decisão sobre o processo servirá para criar jurisprudência sobre os leilões trabalhistas no Brasil. “A decisão vai mostrar qual é a segurança jurídica dos leilões feitos na Justiça do Trabalho, se o direito do comprador está garantido ou não”, diz o advogado. Para Mallet, a compra de um bem em leilão judicial hoje é um investimento cercado de insegurança.

Enquanto a sentença não sai, os R$ 70 milhões que Jussara e Fernando Simões pagaram judicialmente estão rendendo juros da poupança, segundo o advogado. “Com um capital desses, acho que eles conseguiriam juros melhores”, diz.

Continuidade. Segundo o advogado, a intenção dos irmãos Simões é manter o hotel caso o TST decida pela manutenção do resultado do leilão. “A ideia é investir no imóvel, ampliar e fazer as reformas necessárias, para melhorar a atividade do local e gerar mais empregos e mais impostos”, diz o advogado dos empresários. 


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