Montagem/Fotos: Reuters
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Sob pressão, até quando?

O que pode acontecer no Brasil caso outra agência de risco decida rebaixar a nota do País?

Amilton Pinheiro, Especial para O Estado de S. Paulo

27 de outubro de 2015 | 09h30

Recentemente, a Standard & Poor´s rebaixou o Brasil, o que levou o País a perder o grau de investimento. Mas o que poderá ocorrer com a economia nacional caso outra agência decida seguir o mesmo caminho? Além da Standard & Poor´s, outras duas organizações organizam, e divulgam, levantamentos semelhantes: a Fitch e a Moody´s.

A Fitch já comunicou ao mercado que em no máximo 18 meses, caso o governo não reverta os indicadores econômicos e melhore as relações com o Congresso, para aprovar medidas de ajuste fiscal, o Brasil pode perder o selo de bom pagador e entrar no rol de países com grau especulativo. 

“A Fitch colocou expectativa negativa, não havendo melhoras nesses dois aspectos, político e fiscal, terão que dar um downgrade”, explica Nicola Tingas, economista-chefe da Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento (CREFI). A nota do País atualmente é BBB -, segundo nomenclatura da Fitch. 

Uma parte dos analistas acredita que, mesmo com a falta de rumo da economia e a paralisação política, o País não corre o risco de perder grau de investimento de mais outra agência ainda neste ano  - em agosto, a Moody`s rebaixou a nota do Brasil para o último nível de grau de investimento, Baa3, de acordo com sua nomenclatura.

PERIGO

Quando o País perde o selo de bom pagador de duas agências, a maioria dos fundos de pensão dos Estados Unidos e Europa não pode mais investir naquele país - essa proibição vem de seus estatutos, como se fosse um gatilho automárico. “O cenário pós-rebaixamento será extremamente oneroso para a economia brasileira nos próximos meses, pois o universo de investimento, seja de portfólio ou produtivo, vai ficar complicado e mais caro. Se olharmos para fora, a coisa fica ainda mais feia”, entende Marco Aurélio Barbosa, especialista em ações da ACM Capital Markets.

Os impasses políticos (perspectiva de impeachment, indecisões sobre a aprovação ou não da CPMF, etc) imobilizaram o governo, dizem os analistas. Os recados das agências (todas as três soltaram notas negativas sobre o Brasil em 2015) foram dados e ou o País muda, ou novos rebaixamentos são dados como certos. Mas para Roberto Pandovani, economista-chefe do Banco Votorantin, mesmo que o Brasil não consiga sair da "camisa de força" da crise política e também econômica nos próximos meses, resta ainda uma pequena esperança. 

“Se olharmos a dinâmica fiscal no Brasil, que de alguma forma está contaminada pela dinâmica política, então, faz sentido que a gente venha a perder o grau de investimento de uma segunda agência de classificação de risco. A única possibilidade para se manter o selo dessas duas agências (Fitch e Moody`s) nos próximos meses é supor, mesmo com todos os problemas, que a economia brasileira continue relativamente melhor que os demais mercados que já perderam o grau de investimento”.

DETERIORAÇÃO DOS INDICADORES ECONÔMICOS

O ambiente político, de fato, é preocupante, porque há diversas medidas que precisam de aprovação do Legislativo para que exista - principalmente na visão do mercado - uma perspectiva melhor em termos de equilíbrio fiscal. Além das contas do governo, essas indefinições contaminam outros indicadores da economia, alerta, Alex Agostini, economista-chefe da Austin Rating. “Se você olhar o relatório Focus (divulgado semanalmente pelo Banco Central), que é uma base praticamente isenta, no mês de julho a estimativa de inflação para 2015 estava em 9,02% ao ano e, para 2016, em 5,4%; enquanto a queda do PIB para esse ano era estimada em 1,76% e para o próximo um pequeno crescimento de 0,2%. Agora, se pegarmos os dados atualizados, a estimativa para a inflação subiu para 9,85% ao ano e para 2016 elevou-se para 6,22%; se olharmos para o PIB, a queda acentuou-se muito, indo para menos 3,02% em 2015 e, para 2016, no lugar de um pequeno crescimento, se estima queda de 1,43%. Então, os indicadores se deterioram ao longo desses três meses, principalmente as expectativas de crescimento e inflação. Esse ambiente macroeconômico vem se contaminando, não só a questão da produção, venda e consumo, como também a confiança dos agentes econômicos”.

INVESTIMENTOS EM RISCO

Exatamente neste período que as três agências de rating, de alguma forma, reviram suas notas - todas para baixo. Isso coloca o governo numa situação limite, entende Carlos Eduardo de Freitas, presidente do Conselho Regional de Economia do Distrito Federal. “A perspectiva é que tenhamos uma segunda agência de rating tirando o grau de investimento do País. A minha impressão é que isso não deve demorar muito. Nunca é demais lembrar que tendo duas agências abaixo do grau de investimento, o efeito da Standard & Poor`s se multiplica, ficando muito difícil trazer investimentos para o Brasil. Aliás, já não estão vindo, como vinham antes.”

CENÁRIO INTERNACIONAL DESFAVORÁVEL

Além dos problemas internos, o País não pode esquecer que o cenário internacional não será fácil no primeiro trimestre do próximo ano, sinaliza, Nicola Tingas, economista-chefe da ACREFI. “Eu chamo a atenção para o cenário internacional. Trabalho com a hipótese, que outros analistas internacionais estão trabalhando também, que será lenta e gradual subida dos juros americanos. Isso impacta negativamente no preço do dólar, no fluxo de capitais e nos juros das economias. Essa possibilidade afetará os (países) emergentes”. Para Tingas, além dessas questões, as estatísticas que o Fundo Monetário Internacional (FMI) irá divulgar no primeiro trimestre de 2016 podem explicitar a desaceleração da economia da China, o que torna a vida das nações em desenvolvimento ainda muito mais difícil.

Os analistas são unânimes num ponto: o País tem pouco tempo para conseguir indicar os caminhos concretos para reorganizar sua agenda fiscal e imprimir a governabilidade do Executivo junto ao Congresso. Será uma agenda interna difícil para os próximos meses e que pode agravar-se consideravelmente caso as mudanças externas sejam desfavoráveis para o Brasil, como prevêem alguns especialistas. E as agências de classificação de risco estão só aguardando, de olho nos próximos passos do Brasil.

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