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Gabriela Bilo/Estadão
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Sob pressão, indústria da carne não consegue garantir proteção à floresta

País concentra 46% dos abates de bovinos na Amazônia Legal, mas até gigantes como JBS e Marfrig admitem que ainda não monitoram fornecedores indiretos; empresas correm contra o tempo e investem para cadastrar propriedades da cadeia até 2025

Fernando Scheller, O Estado de S.Paulo

06 de junho de 2021 | 14h00

A dependência do setor de carnes da região da Amazônia Legal é grande: dos 22,2 milhões de cabeças de gado abatidos no ano passado no País em frigoríficos com inspeção federal, de acordo com o Ministério da Agricultura, 10,2 milhões (46%) tiveram origem nessa área. Apesar de existir correlação direta entre a Amazônia e o setor, as grandes produtoras de carnes no País admitem que, ao menos por enquanto, não conseguem garantir que sua produção não contribua indiretamente para a destruição da floresta.

A pressão de organismos internacionais sobre o Brasil por causa do aumento da velocidade da destruição da Amazônia é cada vez maior. Os dados mostram, porém, que o problema só cresce. Em maio, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), a destruição da floresta teve alta de 40% em relação ao mesmo período de 2020, um recorde para o mês. Com dados como esse – que se repetem há alguns anos –, a indústria da carne sabe que está na berlinda.

Prova disso foi uma ação conjunta dos três maiores bancos privados do País – Itaú, Bradesco e Santander – voltada ao desenvolvimento sustentável da Amazônia. Segundo executivos do próprio setor, há pressão dos distribuidores de alimentos (como redes de supermercados) e de alguns importadores para que a carne produzida no País tenha “selo verde”.

‘Ponto cego’

As três principais produtoras de carne bovina do País – JBS, Marfrig e Minerva – correm contra o tempo para garantir a origem de todos os seus produtos. Mas, por ora, admitem que isso ainda não é possível. Embora todas tenham criado sofisticados programas de monitoramento via satélite para vigiar cada um de seus fornecedores diretos, todas esbarram no mesmo “ponto cego”: as fazendas de novilhos e de engorda pelas quais o gado passa antes de chegar às suas parceiras diretas.

Nesse momento, JBS e Marfrig têm uma meta ambiciosa: garantir que, até 2025, todo o histórico do gado possa ser monitorado. “O desafio que a gente tem é a identificação dos fornecedores indiretos”, diz Paulo Pianez, diretor de sustentabilidade da Marfrig. Ele aponta falta de políticas públicas sobre o tema: “Ao contrário de Austrália e Uruguai, não implantamos a identificação de origem desde o nascimento. E tudo o que é voluntário tem adesão baixa. Foi uma oportunidade perdida.”

Pianez diz que, hoje, o “ponto cego” da Marfrig ainda é de quase 40% do rebanho processado nas fábricas. Para conseguir garantir que o boi abatido pela empresa jamais tenha pisado em uma área com ilegalidades, a empresa criou um sistema de cadastro de fornecedores indiretos, nos quais as informações passam por uma série de validações de órgãos ambientais. Caso haja “não conformidade”, a propriedade pode ser orientada e financiada pela própria Marfrig para se adequar à legislação.

O mesmo ocorre na JBS. A empresa tem 100 mil fornecedores em seu sistema, dos quais de 25 mil a 30 mil são ativos, segundo o diretor de sustentabilidade, Márcio Nappo. Dentro desse universo de propriedades, 11 mil são bloqueados atualmente por pendências ambientais. Para garantir o gado desde a origem,  a JBS trabalha em um cadastro dos fornecedores de fornecedores com tecnologia Blockchain. Além disso, montou 13 escritórios em que os pecuaristas podem prestar informações e ser orientados a sanar pendências – a JBS vai financiar essa adequação à legislação nos próximos anos. 

Na Minerva, que recentemente concluiu o cadastramento de seus 8 mil fornecedores diretos de gado, o próximo passo é implantar o sistema em fazendas de outros países da América do Sul. Segundo Fernando Queiroz, presidente da Minerva Foods, essa é uma exigência cada vez maior dos clientes, tanto no Brasil quanto no exterior. Ele lembra que a empresa já tem uma linha de carnes em que o consumidor pode rastrear o histórico dos bois por meio de um QR-Code.

Controle limitado

As ações de gigantes não são, porém, capazes de garantir o controle a todo o mercado. Isso porque o setor de bovinos funciona no sistema “spot”. Ou seja: uma fazenda vende hoje para um frigorífico e amanhã, para outro. “A verdade é que são esses grandes frigoríficos que não querem correr o risco (de ter sua produção ligada à destruição da floresta). Já os pequenos frigoríficos vão continuar trabalhando com produtos de áreas com problemas”, diz José Carlos Hausknecht, diretor da MB Agro, consultoria especializada em agronegócio.

Procurada pelo Estadão diversas vezes, a Associação Brasileira da Indústria de Carnes (Abiec) não se pronunciou. O Ministério da Agricultura informou, por e-mail, que tem atribuições sobre a implementação do Código Florestal nos imóveis rurais. “No tocante às infrações ambientais, a legislação pertinente é a Lei de Crimes Ambientais que traz diretrizes para combater a ilegalidade”, disse. A pasta informou ainda a concessão de créditos especiais a produtores que “adotam tecnologias sustentáveis aliadas ao aumento de produtividade”.

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