Sobram vagas em 67% das empresas

Pesquisa com maiores companhias do País mostra falta de mão de obra qualificada em setores como o automobilístico, siderurgia e outros

Renée Pereira, de O Estado de S. Paulo,

23 de maio de 2010 | 22h53

A escassez de mão de obra especializada virou um tormento no dia a dia das grandes empresas. Depois de atingir a construção civil e a indústria naval, agora a falta de profissionais se espalha por setores como o automobilístico, ferroviário, moveleiro, siderurgia e metalurgia, transportes e serviços, aponta levantamento feito pela Fundação Dom Cabral com as 76 maiores companhias do País.

O trabalho mostra que 67% das empresas pesquisadas têm enfrentado dificuldade na contratação de funcionários, apesar dos 8 milhões de desempregados no Brasil. "Somos o país das disparidades: há dinheiro para investir, mas a mão de obra especializada está cada vez mais escassa", observa o professor Paulo Resende, responsável pelo levantamento.

Na avaliação dele, essa questão pode se transformar num gargalo perigoso - a exemplo das carências da infraestrutura - para o crescimento sustentável do País, acima de 5% ao ano na próxima década. Ele conta que encontrou casos de companhias que estão importando mão de obra de outras nações da América Latina. "No setor de petróleo, trazem profissionais da Venezuela; no Agronegócio, de Argentina, Uruguai e Paraguai."

A alternativa também tem sido estudada pela indústria de móveis, afirma o presidente do Sindicato da Indústria do Mobiliário e Marcenaria do Estado do Paraná (Simov), Aurélio Sant’Anna. Há dez anos, qualquer pessoa poderia trabalhar em uma das nossas empresas. Hoje ele precisa saber ler manuais sofisticados e lidar mais com a eletrônica."

O empresário afirma que, em sua empresa, não consegue cumprir a meta de contratar apenas funcionários com ensino médio. Ele conta que tem demorado quase dois meses para preencher uma vaga e, mesmo assim, com profissional aquém do perfil desejado. "Hoje o jovem não está interessado em ser moveleiro. Temos uma boa encrenca para resolver pela frente. Por isso, há uma possibilidade de contratar pessoas da Argentina e do Uruguai."

Qualificação. A reclamação de Sant’Anna é compartilhada por empresas de outros setores. Segundo o levantamento da Dom Cabral, hoje a principal carência das grandes companhias é encontrar pessoas qualificadas para os cargos de operação. Os setores mais afetados são o automobilístico, de papel e celulose e serviços.

O presidente da Associação Brasileira das Empresas de Software (Abes), Gerson Schmitt, destaca que um dos principais efeitos da falta de mão de obra no setor tem sido a elevação dos salários a ponto de empurrar serviços para fora do País. "A situação está tão delicada que empresas indianas pegam trabalho no Brasil para ser desenvolvido no exterior."

Outro problema, diz o executivo, é a alta rotatividade do mercado. Além de garantir um salário elevado para os profissionais, as empresas têm de oferecer benefícios atrativos para garantir a retenção, afirma Schmitt, que representa 780 empresas no País.

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