Sobre acreditar em duendes

É um equívoco pensar que Paulo Guedes garantiria escolhas que o mundo financeiro acha acertadas

Luís Eduardo Assis, O Estado de S.Paulo

17 Setembro 2018 | 05h07

É apenas crueldade exigir que os mercados financeiros se debrucem sobre as complexas relações que definem as condições para o progresso de uma nação. Nesta seara não se trata de discutir propostas, senão de antecipar tendências e estar na ponta certa. O sonho de qualquer “trader” é estar vendido no dia em que o mundo acabar. Não é de sua natureza prescrever o que parece melhor. Ao fim e ao cabo, tudo se resume numa decisão de comprar ou vender. Não cabem filigranas, nuances ou modulações. “Quatro patas bom, duas patas ruim”, nas velhas palavras de George Orwell.

É neste contexto que se pode entender a recôndita paixão do mercado por Jair Bolsonaro. À medida que suas chances de vitória aumentam, exultam os operadores que acreditam que o mal maior pode ser evitado. O substrato desse otimismo é a crença de que um governo liberal terá condições de livrar o País da bagaça em que nos encontramos. A leitura do programa de governo do PSL, no entanto, é experiência desoladora. Pulemos, aqui, a dificuldade evidente do candidato de superar o atual nível de rejeição e conquistar a Presidência. O que se pode esperar de um governo Bolsonaro? O mercado se compraz em pensar que o economista Paulo Guedes, um liberal de quatro costados, garantiria escolhas que o mundo financeiro acha acertadas. Trata-se de um equívoco.

O texto é uma colagem de vários autores, com desigual domínio do raciocínio lógico e da língua portuguesa. Não faz sentido acreditar que o economista liberal será o pau da barraca que sustentará um eventual governo quando fica claro que ele não foi chamado sequer para dar coerência a um programa de governo meramente protocolar. O liberalismo, deixa-se logo claro, é uma espécie de elixir paregórico para todos os males, já que “reduz a inflação, baixa os juros, eleva a confiança e os investimentos, gera crescimento, emprego e oportunidades”. Faltou dizer que faz crescer cabelo e traz seu amor de volta.

Em que pese tamanha deferência, o programa preconiza que o Banco Central deva estar “alinhado” ao novo Ministério da Economia (como pensa o candidato), de quem, no entanto, será “formalmente independente” (como pensa seu economista). Se parece contraditório, é porque isso é só um jogo de palavras para conciliar posições diferentes. O prato principal, no entanto, é um avassalador programa de privatização, peça-chave para eliminar o déficit público já em 2019 e gerar um superávit primário em 2020.

É exercitar a própria ingenuidade criticar um programa de governo por suas propostas irrealistas. Exagerar, quando não mentir, faz parte das regras do jogo. Mas aqui o caso é outro. Trata-se de incapacidade de compreender não só o que deseja a sociedade brasileira, como também a verdadeira capacidade de mobilização de um governo que já nasceria minoritário. Pode-se argumentar que o papel dos economistas é prescrever soluções cujas condições práticas de implantação estariam a cargo dos políticos. Essa visão é, mais que ingênua, rudimentar. A chance de aprovação de medidas econômicas que ignoram a correlação de forças políticas é nula.

Uma privatização selvagem é, mais que um sonho, um desvario, até porque Bolsonaro joga na direita, mas muitas vezes chuta com a esquerda. Programas maximalistas não se coadunam com candidatos com escassa capacidade de entender as sutilezas da negociação política.

O enfrentamento da crise fiscal requer o domínio das minudências das contradições brasileiras, mas Bolsonaro tem votos justamente pelo seu primarismo radical. A força do candidato será a fraqueza do presidente e de seu economista. Um programa econômico absolutista está fadado ao fracasso.

*ECONOMISTA, FOI DIRETOR DE POLÍTICA MONETÁRIA DO BANCO CENTRAL DO BRASIL E PROFESSOR DA PUC-SP E DA FGV-SP. E-MAIL: LUISEDUARDOASSIS@GMAIL.COM

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