Sobre alimentos, jornalistas e escritores

Problemas sanitários persistem, expondo falhas nos controles, como exemplificam os episódios da carne fraca no Brasil em 2017, do leite na China em 2008 e na Europa em 2018

Decio Zylbersztajn *, O Estado de S.Paulo

14 Março 2018 | 05h00

Upton Sinclair tinha 26 anos quando cobriu a situação dos frigoríficos da região de Chicago para o jornal Appeal to Reason. No ano de 1904, a indústria de carnes ganhava escala e as denúncias sobre as condições degradantes de trabalho se repetiam. O jornalista visitou indústrias, conversou com trabalhadores e obteve detalhes sobre o processamento da carne. Ao mirar um alvo, atingiu outro, ao revelar as condições de higiene que prevaleciam na indústria. A iniciativa resultou no livro The Jungle, um best-seller que gerou o debate conhecido como o escândalo das salsichas.

Sinclair retratou o efeito do crescimento da indústria de alimentos. Antes consumidos próximos aos locais de produção, os alimentos passaram a ser industrializados em larga escala, o que resultou na redução dos custos, ampliação dos mercados e distanciamento entre o consumo e a produção. A industrialização foi benéfica por ampliar os produtos à disposição dos consumidores, mas gerou a necessidade da adoção de padrões de segurança do alimento, certificações independentes e mecanismos de rastreabilidade. Problemas sanitários persistem, expondo falhas nos controles, como exemplificam os episódios da carne fraca no Brasil em 2017, do leite na China em 2008 e na Europa em 2018, indicando a necessidade do aprimoramento na coordenação das cadeias produtivas.

Os consumidores reagiram com o movimento do consumo local que prioriza produtos regionais na cesta de alimentos. A indústria de alimentos, de modo geral, adotou medidas de controle e os governos criaram mecanismos de inspeção sanitária. Sabendo que as medidas adotadas podem falhar, cabe questionar como a indústria vem reagindo quando ocorrem desconformidades. Negar fatos não parece ser a estratégia adequada, pois os consumidores devem ser informados sobre eventuais contaminações que podem ocorrer ao longo da cadeia produtiva. Os consumidores têm o direito à informação sobre os riscos inerentes aos alimentos.

Espera-se a adoção de sistemas efetivos de fiscalização por parte dos governos e de estratégias privadas realistas. Boas práticas e boas intenções caminham juntas, entretanto exigem o monitoramento das empresas que operam fora dos padrões. O mercado de alimentos não prescinde de controles compatíveis com a sua importância. Empresas responsáveis adotam medidas de prevenção e definem planos de contingência, uma estratégia que visa a proteger a sua reputação, ganhar a confiança do público e aderir às regras de conformidade ditadas por lei.

Upton Sinclair ofereceu um exemplo do papel transformador da literatura. O debate causado pelo livro The Jungle levou o presidente republicano Theodore Roosevelt a convidar o socialista Sinclair para um encontro na Casa Branca. Era um tempo em que a direita e a esquerda conversavam. O encontro motivou a adoção de legislação específica, o Pure Food and Drug Act e o Meat Inspection Act, e levou à criação da Food and Drug Administration, agência cujo objetivo é monitorar a sanidade dos alimentos.

O sucesso na carreira do escritor permitiu-lhe utilizar os direitos editoriais em projetos sociais. Fundou uma cooperativa em New Jersey, na Califórnia criou o escritório do movimento pelas liberdades civis e uma associação pelo fim da pobreza durante o período da depressão. Foi candidato derrotado pelo Partido Democrata ao governo da Califórnia com significativa votação. Recebeu o Prêmio Pulitzer em 1943, um ano depois de publicar O Dente do Dragão criticando o nazismo na Alemanha. Sinclair faleceu em 1968 com 90 anos, tendo escrito mais de 90 livros, peças de teatro e trabalhos jornalísticos.

*PROFESSOR TITULAR DA USP E ESCRITOR

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