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Coluna Fernanda Camargo: É necessário abrir mão do retorno para fazer investimentos de impacto?

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Sobre juros negativos

Nos últimos dez anos, o mundo vem caminhando em direção a taxas de juros negativas. Em 2020, este processo se consolidou, porque os bancos centrais zeraram as taxas de juros e compraram grandes volumes de ativos de risco para evitar que a pandemia se transformasse em uma crise financeira e depressão econômica. As taxas de juros negativas vieram para ficar e elas vêm gradualmente chegando ao Brasil, o que transformará o nosso mercado financeiro. 

Paulo Leme*, O Estado de S.Paulo

05 de julho de 2020 | 05h00

Mesmo antes da crise financeira de 2008, fenômenos demográficos e econômicos já vinham reduzindo as taxas de juros. Durante este período, a oferta da poupança financeira global aumentou devido à longevidade da população nas economias avançadas e à alta taxa de poupança da China. Ao mesmo tempo, a falta de reformas reduziu a produtividade dos investimentos, levando àquilo que economistas chamam de grande estagnação secular. Estes fatores geraram um excesso de oferta de poupança e a queda da taxa real de juros a zero. 

Desde 2012, países europeus (Dinamarca e Suíça), o Japão e o Banco Central Europeu adotaram uma política de taxa de juros negativa (em inglês, NIRP). A NIRP vem quebrando paradigmas em finanças e gerando dois grandes problemas para o sistema financeiro. Hoje, o volume de instrumentos de renda fixa com rentabilidade negativa equivale a 20% do PIB global. A NIRP forçou o investidor a aceitar mais risco em troca de menos retorno financeiro. Isto força o investidor a compensar a perda de retorno aumentando a sua exposição aos riscos de crédito, renda variável, alavancagem e menor liquidez da carteira. Fundos de pensão e companhias de seguro enfrentam dificuldades para cumprir suas metas atuariais. É cada vez mais difícil para um gestor montar uma carteira que, ao mesmo tempo, equilibre risco e retorno e permita que o cliente atinja as suas metas financeiras com um grau tolerável de risco.

A onda de juros baixos chegou ao Brasil. Desde outubro de 2016, o Copom reduziu a taxa Selic em 12 pontos porcentuais, para 2,25% em junho de 2020. Na ata da reunião de junho, o Copom disse que, dada a recessão, ainda vê algum espaço para cortar a Selic. É provável que até setembro a Selic caia a 1,75%. Seguindo a mesma tendência mundial, a inflação (IPCA) deve fechar o ano em 1,50%, zerando a taxa real de juros no Brasil. 

Além de transferir renda dos poupadores para os devedores (incluindo o governo), a taxa de juros em zero levará a seis grandes mudanças no mercado de capitais. Primeiro, o investidor brasileiro terá de aumentar a sua exposição à renda variável, risco de crédito e produtos estruturados mais ilíquidos. Segundo, isto aumentará a concorrência no sistema financeiro, dado que o mundo de taxa zero exigirá uma redução das taxas de administração bancárias e de gestão de ativos, abrindo ao investidor uma plataforma mais ampla de produtos financeiros.

Terceiro, o investidor terá de aumentar seus investimentos em ativos estrangeiros. Quarto, as empresas brasileiras aumentarão a parcela da sua dívida de longo prazo em reais, reduzindo sua dívida externa e exposição cambial. Quinto, quando o custo da dívida cai em relação ao custo do capital próprio (equity), as empresas aumentam a sua alavancagem. 

Sexto, a taxa zero manterá a pressão para que o real continue a se desvalorizar, porque a entrada líquida de capitais continuará a cair: os investidores estrangeiros de renda fixa não retornarão ao país; os investidores brasileiros levarão capital para o exterior; e as empresas brasileiras diminuirão a taxa de rolagem de sua dívida externa. Esta saída líquida de capitais pode chegar a US$ 60 bilhões por ano.

A desvalorização do real não é inevitável. Por um lado, a nossa política de comércio exterior deveria ser direcionada para abocanhar uma parcela do comércio internacional que hoje pertence a China. Por outro lado, o governo tem de gerar bons resultados de política econômica, recolocando a dívida pública em uma trajetória descendente e retomando o programa de privatizações. Além disso, temos de implementar reformas capazes de aumentar a produtividade e nossas baixíssimas taxas de poupança e de investimentos para poder voltar a crescer.

Neste mundo de taxas de juros negativas e muita liquidez, os investidores estrangeiros estão à procura de investimentos que ofereçam maiores retornos e de um país anfitrião que ofereça estabilidade política e estado de direito. O governo deveria ter um plano para atrair volumes expressivos de capital de portfólio para a bolsa, mercado privado de renda fixa e investimentos diretos em empresas e infraestrutura. Ou seja, o governo tem de transformar desafios em oportunidades, maior concorrência e mais resultados.

*PROFESSOR VISITANTE DE FINANÇAS NA UNIVERSIDADE DE MIAMI 

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