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Sobrevivência pessoal

As políticas de Bolsonaro são ainda piores que as de Trump: ele até já negou o coronavírus

Albert Fishlow, O Estado de S. Paulo

17 de maio de 2020 | 05h00

Todos os lugares do globo foram atingidos pelo coronavírus. Com o número de mortes chegando a mais de 300 mil e os casos positivos a mais de 4,5 milhões, as pessoas estão cada vez mais abatidas. De um lado, a ciência real toma consciência da complexidade do vírus e os seus efeitos abrangentes sobre jovens e adultos. E levará tempo para uma vacina eficaz ser testada e produzida de modo adequado.

Por outro lado, as pessoas começam a se cansar da falta de acesso ao seu trabalho e lazer. E há um impacto notável e possivelmente permanente sobre os pobres. Eles são os únicos que necessitam trabalhar e não podem viver separados de outras pessoas e não têm condições de educar seus filhos. Os ricos aproveitam e usam as reuniões pelo Zoom, têm acesso a todo tipo de entretenimento, da ópera ao cinema e à política pública.

Ao mesmo tempo, o desemprego disparou e a renda nacional dos países despencou. O comércio internacional encolheu e o G-20 não pode depender da OMC em busca de uma política e uma estratégia coerentes.

Inversamente, a política parece estar se dirigindo, como ocorreu durante a Grande Depressão, no sentido de um aumento de tarifas e cotas, dando menor atenção a um bem maior. Os países se tornam cada vez mais nacionalistas, populistas, autocráticos e sensíveis à torrente de notícias falsas na internet.

Estratégias alternativas vêm sendo adotadas por alguns países, uma vez que a pressão para uma abertura exige ação governamental. Em muitos casos a pressão surge depois de meses de um fechamento praticamente total e uma circulação muito limitada das pessoas. E quase todos eles continuaram a realizar testes generalizados como parte fundamental do processo de abertura.

No caso de outros países, como EUA e Brasil, a política pública tem sido diferente. Decisões para abrir o comércio em geral têm sido dominadas com vista às próximas eleições, a se realizarem em questão de meses, e a necessidade de ênfase na produção econômica, mais do que qualquer preocupação ética pelas vidas que vêm sendo perdidas.

A campanha de Trump para sua reeleição não ajuda diante da sua preferência pelos comícios e sua capacidade peculiar de adulterar toda e qualquer opinião contrária à dele. Ele descartou as afirmações do Dr. Anthony Fauci, que tem tido um papel crucial na promoção de uma visão mais racional do problema, e inversamente, declarou vitória imediata contra o coronavírus.

Agora, Estados e municípios americanos precisam controlar o vírus sem mais ajuda federal. E eles necessitam de pequenos subsídios para fazer frente a circunstâncias inesperadas. Hoje, operar enormes déficits requer compensações. Se são unidades da federação governadas por democratas, nada mais será feito. Se republicanos estiverem envolvidos nesses governos, a situação de alguma maneira será ajustada.

As políticas de Bolsonaro são ainda piores. Já no início ele negou a existência do coronavírus. O Brasil, infelizmente, continua a sofrer. Na última contagem, os números oficiais eram de 218 mil casos com 14,8 mil mortes. Esses dados não são confiáveis. No Reino Unido a proporção é duas vezes maior. Mas mostram que o Brasil vem se equiparando aos EUA em número de mortes, um dado espantoso.

Com a renúncia do ministro da Justiça, Sergio Moro, as críticas ao governo aumentaram. Provas parciais de vídeos de conversas sugerem que a imunidade dos filhos de Bolsonaro teve mais a ver com a saída do ministro do que outra coisa. E especialmente desagradável é o total desinteresse do presidente pelos números de mortos em meio a uma escassez total de equipamentos de saúde.

O que vemos nesses casos é uma maior preocupação com a sobrevivência pessoal do que um foco nas políticas nacional e econômica. Nos EUA, pelo menos, a próxima eleição demonstrará se uma estratégia de longo prazo mais racional vai emergir, concentrada num maior acesso à assistência médica, impostos mais altos para os mais ricos e um foco aumentado na educação. No Brasil, a derrota de candidatos de direita nas prefeituras para políticos ávidos para reconstruir um Brasil próspero e democrático a partir do centro servirá como primeiro sinal de uma recuperação e de um avanço mais rápido. /TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

ECONOMISTA E CIENTISTA POLÍTICO, PROFESSOR EMÉRITO NAS UNIVERSIDADES DE COLUMBIA E DA CALIFÓRNIA EM BERKELEY. ESCREVE MENSALMENTE 

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