Sergio Moraes/ Reuters
Sergio Moraes/ Reuters
Imagem Elena Landau
Colunista
Elena Landau
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Sociedade é a dona do patrimônio gerado pela Petrobras, e não o político de plantão

Somando dividendos, impostos, participações e royalties, este ano, quase R$ 160 bilhões já foram entregues ao governo pela Petrobras; é o equivalente a quase seis anos do Bolsa Família

Elena Landau*, O Estado de S.Paulo

12 de novembro de 2021 | 04h00

Bolsonaro e Lira andam obcecados com o preço dos combustíveis. O presidente não passa uma semana sem demonstrar seu inconformismo. Claro, vai direto no bolso dos caminhoneiros, sua base de apoio. E está contribuindo para a elevação da inflação. Como se diz por aí: “É a economia, estúpido”. Entrar em campanha carregando inflação de dois dígitos não ajuda, não há auxílio fura-teto que resolva.

Em plena COP-26, o que me surpreende mesmo é a insistência em subsidiar o preço de combustível fóssil, enquanto o litro do etanol está mais caro do que gasolina premium.

Estranho que isso não cause preocupação ao diligente presidente da Câmara, que representa um estado cheio de usinas.

A toda hora surge uma ideia nova da cabeça dos dois. Vai da intervenção no ICMS – imposto estadual – até a privatização da Petrobras. Afinal, empresa estatal que eles não controlam não serve. E, como diz Guedes, um grande vendedor, daqui a 30 anos já não vale nada.

A Petrobras registrou um resultado extraordinário no 3.º trimestre. Só a União recebeu R$ 23,5 bilhões em dividendos, porque detém quase 37% da empresa. A alegria durou pouco. Em sua live no mesmo dia, Bolsonaro ameaçou, mais uma vez, intervir nos preços dos produtos da estatal e disse não fazer questão de receber tanto dinheiro.

Um ato falho, afinal, o dinheiro não é dele, nem dos caminhoneiros, é nosso. As ações caíram 7% em um único dia.

Bolsonaro lamenta os lucros extraordinários. Está errado. Somando dividendos, impostos, participações e royalties, este ano, quase R$ 160 bilhões já foram entregues ao governo. E tem o ano de 2022 pela frente, ainda mais promissor. É o equivalente a quase seis anos do Bolsa Família. É mais do que o gasto federal em 2021 com Saúde ou Educação ou Assistência. Essa é a função social da empresa, gerar lucros e recursos para os acionistas, sendo o maior deles o governo. E não subsidiar preços de combustíveis. A discussão relevante é o que fazer com esses recursos. E isso é definido no Orçamento. Não o secreto, claro.

Foram necessários cinco anos para a Petrobras se reerguer. A companhia quitou suas dívidas, está pronta para investir no seu principal negócio e esquecer as refinarias do passado. Vai produzir mais e gerar mais recursos para a sociedade, que é a dona desse patrimônio, e não o político de plantão.

A tentação populista, de segurar preços de derivados, não é só do presidente em exercício. Têm presidenciáveis, de olho nas eleições 2022, na mesma vibe. Já vimos esse filme, e o final não foi feliz. 

* ECONOMISTA E ADVOGADA 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.