Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

Sociedade precisa discutir se quer dar incentivos e quais setores vão receber, diz fundador da XP

Para Guilherme Benchimol, a saída da Ford do País 'faz parte de um processo de as empresas fecharem'

André Ítalo Rocha, O Estado de S.Paulo

13 de janeiro de 2021 | 13h09

Um dia depois de o presidente Jair Bolsonaro afirmar que a Ford deixou o Brasil porque não foi atendida quanto a pedidos de subsídios fiscais, o fundador e CEO da XP, Guilherme Benchimol, declarou que o movimento da montadora norte-americana "faz parte de um processo de as empresas fecharem" e disse que a sociedade brasileira precisa discutir se quer oferecer incentivos a setores da economia e a quais deles.

"Em 2020, tivemos uma expansão de 5% a 10% de CNPJs, construindo 5% a 10% mais empresas. Então, faz parte do processo algumas empresas fecharem. Claro que a pandemia foi muito grave e muitas empresas foram afetadas em cheio. Mas, no caso da Ford, até onde me aprofundei, tem questão de subsídio, de que a sociedade sempre reclamou e o governo não quis renovar. E, até onde entendi, essa decisão já havia sido tomada há dois anos", disse o executivo nesta quarta-feira, 13, em live promovida pelo jornal Valor Econômico. 

Para Benchimol, é preciso entender o "saldo" das operações de abertura e fechamento de companhias. "Será que estamos construindo mais empresas do que destruindo? E será que a destruição que está acontecendo é coerente? É importante que sociedade discuta se ela quer oferecer subsídios às empresas e quais setores vão receber o subsídio", disse.

Na segunda-feira, 11, a Ford, que já tinha encerrado, em 2019, a produção de caminhões em São Bernardo do Campo, no ABC paulista, anunciou que vai fechar neste ano as demais fábricas no País: Camaçari, onde produz os modelos EcoSport e Ka; Taubaté (SP), que produz motores; e Horizonte (CE), onde são montados os jipes da marca Troller.

Sobre o que espera para as empresas em 2021, o executivo disse que é difícil imaginar um setor que não vá crescer em um ambiente de juro básico a 2% ao ano. Contudo, destacou que as companhias de tecnologia devem se beneficiar mais. "As pessoas estão mais conectadas, passando mais tempo em casa, aprenderam a trabalhar em casa, até quem não estava habituado."

Melhora na governança com participação menor do Itaú

Benchimol disse que uma menor participação do Itaú como acionista da companhia, ou uma saída completa, não afeta negativamente a empresa. Para ele, a XP vai conseguir até melhorar a governança a partir da saída do banco.

"A gente acabou construindo algumas questões de governança e, o Itaú não sendo mais nosso sócio, isso deixa a companhia muito melhor, porque havia certo conflito de interesses. A XP vai melhorar muito a governança e vai ficar mais apta a continuar crescendo e transformando o mercado financeiro", afirmou.

Ao falar da participação do Itaú como acionista da XP, Benchimol chegou a fazer uma comparação com a maior rivalidade do futebol paulista. "Seria como se o Palmeiras fosse sócio do Corinthians e o Corinthians não fosse sócio do Palmeiras. Fica complicado. É melhor que as empresas sejam independentes e façam uma competição leal, no campo, sem nada que impeça uma competição no mais alto nível."

O maior banco da América Latina se tornou sócio da corretora há três anos, ao comprar 49,9% do negócio em uma operação vista à época como um movimento de proteção contra a emergência de plataformas de investimentos digitais e com estratégia ousada de captação de clientes. O negócio virou um dos investimentos mais rentáveis da história do Itaú.

No fim de junho deste ano, porém, o Itaú levou ao ar uma campanha publicitária que provocou uma forte reação das corretoras, batendo de frente no “coração” e em um dos pilares do negócio da XP: os agentes autônomos. Questionou a remuneração desses profissionais, feita por meio do comissionamento, o que traria o incentivo de que esse agente indique ao seu cliente um produto com a melhor remuneração para ele, e não necessariamente para o cliente. 

Em novembro, o conselho de administração do Itaú Unibanco aprovou a segregação de seu investimento na XP em uma nova empresa, a Newco, que vai ficar com a participação de 41,05% do banco no capital da XP.

Banco da XP

Para  Benchimol, o fato de a empresa passar a oferecer também serviços bancários, como conta corrente e cartão de crédito, vai permitir que a companhia dobre de tamanho sem trazer novos clientes.

"Temos 3 milhões de clientes ativos que investem e acabam tendo uma relação com um banco onde eles têm conta concorrente. Ao oferecer facilidades que apenas um banco oferece, como conta corrente e cartão de crédito, isso permite que a gente mais que dobre a companhia sem trazer clientes", disse.

Segundo o executivo, o banco da XP já funciona e estará "completamente apto" em alguns meses. "Vamos oferecer uma experiência completa, com taxas mais competitivas de mercado, acessando tudo o que há de melhor no sistema, um banco sem tarifas, uma experiência incrível, um cartão de crédito fora de série, com o menor juro do Brasil, voltado ao investidor inicialmente", afirmou.

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