Charles Platiau/Reuters
Charles Platiau/Reuters

Société Générale sabia de fraude, afirma jornal

Depoimento de policial aponta que direção do banco tinha conhecimento das atividades de Jérôme Kerviel, responsável por um rombo de 4,82 bi

ANDREI NETTO , CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

19 Maio 2015 | 02h04

Sete anos após o escândalo do Société Générale, que envolveu a perda de 4,82 bilhões por parte do banco e revelou a amplitude do descontrole no sistema financeiro internacional em 2008, o caso teve ontem uma revelação explosiva. Em reportagem do site de investigação francês 'Mediapart', uma oficial da brigada de crimes financeiros da polícia da França revelou que o banco sabia das atividades do operador Jérôme Kerviel, condenado pela Justiça como único responsável pelas movimentações financeiras fraudulentas na instituição.

Kerviel foi condenado pela Justiça da França a cinco anos de prisão, dos quais três em regime fechado, por crimes de abuso de confiança, falsidade ideológica e manipulações informáticas ilegais. Até 2014, ele também havia sido condenado a reembolsar os 4,82 bilhões ao banco Société Générale, o que na prática o sentenciava à pobreza. Essa pena, porém, foi revista pelo Tribunal de Cassação, que considerou a condenação desproporcional. Kerviel cumpre pena em liberdade, com tornozeleira eletrônica, desde setembro de 2014.

Em todos os anos de julgamento, o operador sempre afirmou que agia com a aprovação de seus superiores, e que a direção do Société Générale sabia do risco de perdas vertiginosas, como as que acabaram acontecendo. O banco, porém, sempre negou essa versão, afirmando que fora vítima de Kerviel, único responsável pelo prejuízo bilionário.

Mas, segundo a investigadora chefe Nathalie Le Roy, que prestou depoimento em 9 de abril em uma investigação sob o comando do juiz de instrução Roger Le Loire, as atividades de Kerviel eram mesmo do conhecimento de seus superiores. O trader trabalhava em uma unidade denominada Direção de Riscos Operacionais e suas atividades eram conhecidas da direção desde abril de 2007, quando a Direção de Riscos Operacionais foi advertida sobre as atividades suspeitas do trader.

Caveira. O testemunho de Nathalie se baseia na audição de um ex-membro da mesma direção do Société Générale que afirmou ser impossível Kerviel agir sem o conhecimento de sua hierarquia. A atividade não apenas seria do conhecimento, como em abril de 2007, nove meses antes da eclosão do escândalo, a diretora adjunta de Riscos Operacionais, Claire Dumas, teria recebido um e-mail interno, ilustrado por uma caveira, na qual as atividades de Kerviel eram descritas em detalhes.

"Em diferentes depoimentos e em diferentes documentos que tive em mãos, tive o sentimento, e depois a certeza, de que a hierarquia de Jérôme Kerviel não poderia ignorar as posições assumidas por ele", afirmou Nathalie ao juiz de instrução, conforme extratos do depoimento publicados pelo site. "Nunca me manifestei para não interferir no curso da Justiça, mas confesso que minha convocação hoje me alivia. Há muito tempo me questiono sobre isso", afirmou a policial.

Na época em que liderou a investigação, Nathalie Le Roy afirma ter solicitado os e-mails dos investigados, mas o banco teria ignorado o pedido, o que levou a policial a sentir-se "instrumentalizada" pela instituição.

As novas revelações devem agora fazer o caso ser reaberto. Com base nas informações da investigadora, um novo processo civil deve ser aberto em janeiro de 2016 - oito anos após a descoberta do escândalo - com o objetivo de apurar as responsabilidades compartilhadas pela perda. Até aqui, o único mea culpa público da direção foi reconhecer erros nos sistemas de seus controles de riscos.

Pela apuração da Justiça, Kerviel teria perdido os 4,82 bilhões no momento em que manipulava sozinho cerca de 50 bilhões em ativos - ou 1,7 vez o total de fundos próprios da instituição.

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