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Socorro de Portugal é 10 vezes o do Brasil

Pacote de 78 bilhões representa 47% do PIB português; ajuda ofertada ao Brasil em 1998 era equivalente a 4,7% das riquezas nacionais

Andrei Netto, O Estado de S.Paulo

22 de maio de 2011 | 00h00

Maio de 2011 já faz parte da história de Portugal. Neste mês, ao receber um pacote de auxílio de ? 78 bilhões oriundos da União Europeia e do Fundo Monetário Internacional (FMI), o país entrou para o rol das nações que tiveram de apelar ao socorro estrangeiro para evitar a bancarrota, como Grécia e Irlanda já haviam feito em 2010, e como países como o Brasil faziam com frequência no passado.

Dentre as cifras da negociação com Lisboa, uma chama a atenção: o socorro à economia portuguesa representa 47% do Produto Interno Bruto (PIB) do país - ou 10 vezes mais do que o último pacote de auxílio do FMI assinado pelo Brasil, em 1998.

O Estado procurou analistas para entender por que os pacotes concedidos à Europa neste momento são tão mais volumosos do que os atribuídos a países emergentes da América Latina e da Ásia nos anos 1990. A resposta: a crise das dívidas soberanas por que passam os países da zona euro é ainda mais grave.

O mesmo diagnóstico foi feito por diferentes economistas ouvidos pela reportagem: amparados por graus de investimento atribuídos pelas agências de avaliação de risco, os países periféricos da zona euro, como Grécia, Portugal e Irlanda, levaram ao extremo o laxismo fiscal, elevando suas dívidas a patamares jamais vistos nos países emergentes dos anos 1990.

Daí a explicação: os planos de socorro em curso, empreendido pelos Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FEEF), com cerca de 66% dos recursos, e pelo FMI, com os demais 34%, estão entre os mais caros da história. Se a natureza das crises dos países emergentes dos anos 1990 e dos europeus nos 2010 é diferente, uma constatação pode ser feita: o socorro nunca foi tão elevado quanto o fornecido a Grécia, Irlanda e Portugal.

No Brasil de 1998, os US$ 40 bilhões de auxílio fornecidos pelo FMI ao governo de Fernando Henrique Cardoso representaram 4,7% do PIB, que à época era de US$ 843,8 bilhões. Na Grécia, o socorro de ? 110 bilhões acordado pelo FEEF e pelo FMI representa 47,2% do PIB. Em Portugal, os ? 78 bilhões equivalem a 47,4% PIB. O recorde fica com a Irlanda: os ? 85 bilhões da ajuda respondem por 52,9% do PIB, segundo os números do Banco Mundial. "Os programas atuais de socorro são muito maiores do que costumavam ser até os anos 90. E eles necessariamente devem ser mais largos, porque o problema da relação dívida-PIB é muito maior", explicou ao Estado Guntram Wolff, economista do think tank Instituto Bruegel, de Bruxelas.

Mal concebidos. Para Xavier Timbeau, analista do Centro de Pesquisa Econômica (OFCE), de Paris, os países europeus contaram tempo demais com o suporte da UE e com graus de investimento que lhes garantiam endividamento a juros baixos no mercado financeiro. Com a eclosão da crise das dívidas e o fim da credibilidade fiscal desses países, o ágio explodiu, e ultrapassa com facilidade os 10%. Em determinados prazos de vencimento, pode chegar a 15%. "As taxas de juros se tornaram elevadas demais, tornando o risco de default iminente. Não havia outra solução senão intervir", diz o economista francês. "Os planos de socorro na Europa foram feitos na urgência e mal concebidos", critica.

O tamanho dos planos de socorro com participação do FMI também levanta dúvidas sobre um eventual "privilégio" concedido aos países da UE, se comparado aos países latino-americanos e asiáticos. Para a maior parte dos economistas ouvidos pela reportagem, essa teoria não faz sentido, já que receber empréstimos mais volumosos não representam exatamente um "benefício", mas sim um buraco mais profundo do qual sair.

"Se os planos foram maiores, parte da explicação está no fato de que o FMI não é o único interventor, nem mesmo o mais importante. Além disso, o FMI dispõe desde o G-20 de Londres, em 2009, de mais recursos do que nos anos 90, um reflexo da ambição que Dominique Strauss-Kahn, ex-diretor-gerente, conseguiu imprimir ao Fundo", diz Nicolas Verón, um dos mais influentes economistas da Europa na atualidade. "Mas qual teria sido a postura do FMI se seu diretor não fosse europeu? Essa é uma questão legítima."

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