Wesley Santos/Estadao
Wesley Santos/Estadao

Soja barata dos EUA atrai compradores chineses

Embarques chamaram a atenção de operadores que querem ficar longe do mercado americano por causa do risco de bloqueios à soja do país

Reuters

22 Setembro 2018 | 04h00

XIAN E PEQUIM - Pelo menos duas cargas de soja dos Estados Unidos estão a caminho da China, com alguns compradores dispostos a correr o risco diante dos preços baixos da oleaginosa no país, mesmo em meio a preocupações de que Pequim possa adotar novas medidas para conter importações dos EUA pelas crescentes tensões comerciais com Washington.

O transporte da soja dos EUA para a China praticamente parou desde que Pequim impôs pesadas tarifas sobre US$ 50 bilhões em importações americanas, incluindo soja, em retaliação a um movimento similar de Washington. Ainda assim, o navio graneleiro Ultra Panther era esperado para chegar ontem ao sul da China, enquanto o Elsa S atracará no Porto de Qingdao, na Província de Shandong, no dia 26 deste mês, segundo dados de navegação do Thomson Reuters Eikon.

Os compradores da soja, que é usada para fabricação de ração animal e óleo de cozinha, não são conhecidos, e as cargas podem ter sido encomendadas antes da introdução das tarifas. Mas os embarques chamaram a atenção de operadores que querem ficar longe do mercado americano por causa do risco de maiores bloqueios à soja dos país.

“Quem quer que esteja comprando essas cargas é realmente grande. Nós não ousaríamos comprar dos EUA agora”, disse um operador de uma empresa estatal.

Alguns operadores temem que as alfândegas chinesas possam ser mais lentas na liberação de compras dos EUA, ao intensificar inspeções, como aconteceu com carne de porco e frutas mais cedo neste ano.

A soja ganhou um lugar central na prolongada disputa comercial entre as duas maiores economias globais, com Pequim mirando produtores em Estados como Iowa, que votou por Donald Trump na eleição de 2016.

A oleaginosa, muito cultivada em Iowa e Nebraska, foi o maior produto agrícola de exportação dos EUA para a China no ano passado, com US$ 12,8 bilhões em valor. “Quem tem a coragem de importar soja americana? O risco político é alto demais”, disse um importador. “Nunca nos atreveríamos a ser os primeiros”, adicionou.

O incentivo, no entanto, é grande, uma vez que os preços de exportação FOB (Free On Board, quando o exportador é responsável pela mercadoria até ela estar dentro do navio, para transporte) do Golfo dos EUA caíram 30% desde abril, para mínimas na década de cerca de US$ 316 por tonelada, enquanto os preços de exportações do Brasil subiram com a busca dos chineses por outras fontes de suprimento.

Brasil. Mesmo com a tarifa adicional de 25%, a soja dos EUA ainda está mais barata que a oferta do Brasil, e a diferença entre os dois produtores em outubro cresceu para um recorde nesta semana.

Ainda assim, a maior parte dos compradores chineses aumentou os negócios com a soja do Brasil nos últimos meses, com medo de uma oferta mais apertada no quarto trimestre, quando a soja dos EUA domina o mercado com a chegada da colheita de outono.

“O preço de importação da soja brasileira saltou para cerca de 3.500 yuans por tonelada depois dos impostos, o que está em torno dos mesmos níveis que a soja dos EUA”, disse Tian Hao, analista sênior da First Futures. “Mas os processadores não estão trazendo soja dos EUA, pois não ousam fazê-lo, a menos que o governo dê uma aprovação explícita. É uma questão política”, disse Tian.

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