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Coluna Fernanda Camargo: É necessário abrir mão do retorno para fazer investimentos de impacto?

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Solstício

Começamos a colher os frutos de uma recuperação tardia, tímida, mas muito bem-vinda

Ana Carla Abrão, O Estado de S.Paulo

24 de dezembro de 2019 | 04h00

Natal é nascimento, é vida. Embora seja um dia santo cristão, o Natal é comemorado também por muitos não cristãos. A data, fixada no início do século 4, corresponde ao solstício de inverno no Hemisfério Norte, dia em que o sol atinge a maior distância em relação à linha do equador e que, desde muito antes, marca a celebração de diversas culturas e religiões que comemoravam ali a vitória da luz sobre a escuridão.

Chegamos hoje ao Natal ou, para quem preferir, ao solstício de 2019. Neste fim de ano, o Brasil mostra, finalmente, sinais de que está se reerguendo. Resultado de perseverança numa agenda dura de ajustes, começamos a colher os frutos de uma recuperação tardia, tímida, mas muito bem-vinda. O processo de ajuste não começou ontem. Teve seu início em 2015, com o então ministro Joaquim Levy, que iniciou a reversão de rota. Realinhamento de tarifas públicas represadas e distorcidas, resgate dos conceitos tão maltratados de responsabilidade fiscal, interrupção dos empréstimos generosos a entes subnacionais quebrados e retomada de alguma racionalidade econômica após anos de descontrole. Por falta de convicção do então governo Dilma, essa agenda não durou sequer um ano. Mas, como deveria ser, foi retomada em meados de 2016, pós-impeachment, por uma competente equipe econômica formada no governo Temer. As eleições de 2018 garantiram a manutenção da nova rota, agora sob a liderança do ministro Paulo Guedes, apesar de pressões em contrário e a despeito de tantas vozes mais (não só à esquerda) pedindo a volta de estímulos fiscais.

Pois cá estamos agora, com os primeiros sinais de recuperação ganhando força. Apesar de ainda tímidos, os primeiros números positivos começam a surgir. A economia reage, os níveis de desemprego cedem, investimento e consumo começam a voltar. Novos postos de trabalho estão sendo criados e, pelos últimos números do Caged, o mercado de trabalho recupera a esperança após anos de desalento. O ano deve terminar com um crescimento do PIB acima do 1% até há pouco esperado, isso graças a um segundo semestre com maior tração. Vislumbra-se um 2020 melhor, com crescimento superior ao dobro disso.

Não menos importante, chegamos ao fim deste ano com inflação controlada e a taxa Selic na sua mínima histórica. Juros nesse patamar têm impactos relevantes, pois reduzem a segunda maior despesa pública, os serviços da dívida. Inaugura-se um ciclo virtuoso que pouco conhecíamos: juros baixos ajudam na gestão fiscal que, por sua vez, ajuda a termos juros baixos. O mercado de crédito também reagiu. Agora não mais turbinado pelo BNDES, mas por uma indústria financeira privada que está inovando, ampliando a oferta de produtos e serviços e atendendo melhor o consumidor bancário num ambiente cada vez mais competitivo e aberto. Há também avanços nos indicadores de confiança, o risco país está em queda e a classificação do Brasil pelas agências de rating começa a passar por revisões.

Às conquistas iniciadas em anos anteriores se juntaram, neste governo, a reforma da Previdência e um esboço de liberdade econômica. Há ainda toda uma agenda à frente, quiçá liderada por uma reforma administrativa estrutural e acompanhada por privatizações e concessões que precisam ir além dos notáveis avanços na área de infraestrutura. Há também uma reforma tributária a acontecer. Em toda essa agenda, e ao longo destes últimos anos, há que se reconhecer o papel de um Parlamento reformista que, apesar das pautas corporativistas aqui e ali, no geral não tem se furtado a abraçar a agenda necessária. Destaca-se aqui a liderança do presidente da Câmara, deputado Rodrigo Maia.

Mas há notas dissonantes. A primeira delas vem do próprio presidente, que poderia causar menos ruído e ser um pouco mais convicto das pautas que podem ajudar o Brasil – e que vão muito além (e na direção contrária) da agenda retrógrada de costumes e/ou corporativista. Adicionalmente, há a nota ainda mais fora do tom que vem da pasta da Educação. Sem projeto e sem diretriz, condena-se nosso País à pobreza – hoje e no futuro.

Enfim, os livros (certos) de economia funcionam. O Brasil começa, finalmente, a esboçar sinais de recuperação. Passamos quatro anos sucumbidos, piorando nossos índices de pobreza e de concentração de renda e deixando à míngua a nossa população.

Mas hoje é Natal e, como no solstício de inverno, que renovemos nossas esperanças de que finalmente tenhamos vivido nossa noite mais longa – ao menos na economia – e que a partir daqui a claridade nos ilumine cada dia mais para que continuemos a perseverar na construção de um país melhor e mais justo.

Deixo aqui meus votos de um abençoado Natal a todos os leitores. Que celebremos, cristãos e não cristãos, as bênçãos do nascimento de Cristo e/ou o solstício (de inverno ou de verão). 

*ECONOMISTA E SÓCIA DA CONSULTORIA OLIVER WYMAN. O ARTIGO REFLETE EXCLUSIVAMENTE A OPINIÃO DA COLUNISTA

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