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Soluço na confiança?

É crucial saber se a confiança de empresários e consumidores seguirá caindo, ou se o recuo desses índices em março foi apenas um soluço

Fábio Alves*, O Estado de S.Paulo

03 de abril de 2019 | 04h00

Os índices de confiança apresentaram recuo significativo em março, refletindo uma frustração com os indicadores de atividade econômica ao longo do primeiro trimestre e também uma preocupação com a recente turbulência no cenário político, o que afetou o andamento da proposta de reforma da Previdência no Congresso.

A questão crucial é saber se a confiança de empresários e consumidores seguirá caindo, o que pode prejudicar mais o desempenho da economia nos próximos meses, ou se o recuo desses índices em março foi apenas um soluço.

Com a melhora no clima político em Brasília nos últimos dias, com acenos de paz entre o presidente Jair Bolsonaro e as principais lideranças políticas, em particular Rodrigo Maia, que comanda a Câmara dos Deputados, cresceu a esperança de que a tramitação da reforma da Previdência ganhe novo ímpeto e comece a avançar.

Segundo a Fundação Getulio Vargas (FGV), a confiança empresarial caiu para 94,0 pontos em março, menor nível desde outubro de 2018. Já o índice da confiança dos consumidores, divulgado na semana passada, registrou queda de 5,1 pontos, para 91 pontos, também o menor patamar desde outubro de 2018. O componente que mede a avaliação dos consumidores sobre a situação atual recuou 1,5 ponto, mas o que reflete as expectativas para os próximos meses tombou 7,6 pontos.

Também apresentaram queda em março os índices de confiança da indústria (-1,8 ponto), da construção (-2,5 pontos), do comércio (-3,2 pontos) e de serviços (3,5 pontos). Ou seja, houve uma queda generalizada da confiança dos agentes econômicos nos quase 100 primeiros dias do governo Jair Bolsonaro.

“É interessante notar que, embora tenha havido uma pequena correção na maior parte dos indicadores de condições correntes no mês passado, a maior parte dos ajustes aconteceu nos índices de expectativas”, comenta o economista-sênior do Haitong Banco de Investimento, Flávio Serrano. “Provavelmente essa queda mais acentuada aconteceu por conta do maior ruído político e da piora do sentimento em relação à aprovação da reforma da Previdência.”

De fato, até a última semana de março, o fluxo do noticiário político, em particular sobre o andamento da reforma da Previdência, estava bem mais negativo. Esse projeto ficou parado na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara. Apenas na quinta-feira passada, dia 28, é que foi escolhido o relator da reforma na CCJ, o delegado Marcelo Freitas (PSL-MG). Por falta de um relator e pelo clima hostil entre os parlamentares, o ministro da Economia, Paulo Guedes, adiou a ida à Comissão para debater o projeto, o que deve finalmente acontecer amanhã.

Aliás, após a trégua selada entre Bolsonaro e Maia, cujo tiroteio verbal ao longo de março deixou os investidores nervosos, Guedes assumiu a articulação política da reforma da Previdência no Congresso. Já ontem o ministro encontrou-se com parlamentares do PSD, DEM, PRB e PSL, o partido do presidente Bolsonaro, para falar do tema.

À medida que a tramitação da reforma ganhe fôlego na Câmara, o bom humor dos investidores poderá contaminar o sentimento de empresários e consumidores. A votação do projeto na CCJ deve acontecer no dia 17 de abril, passando a próxima etapa para a Comissão Especial.

No cenário mais otimista, se a articulação política do governo ganhar tração e finalmente angariar o apoio necessário para a reforma da Previdência, a votação do projeto poderá acontecer na Câmara ainda no primeiro semestre.

Poderá a melhora na confiança de empresários e consumidores conter a onda de revisões para baixo nas estimativas de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de 2019, que já se encontram abaixo de 2,0%?

“Não está muito claro na literatura econômica se pesquisas de confiança são bons indicadores para o desempenho futuro do PIB”, explica Flávio Serrano, do Haitong. “Entretanto, elas têm uma grande vantagem de nos trazer informações sobre o comportamento da atividade mais rapidamente que as pesquisas de produção ou de faturamento, por exemplo.”

É possível que uma melhora nos índices de confiança tenha, sim, um papel mais relevante para o desempenho da economia no segundo semestre deste ano, em particular o componente que mede as expectativas, mas isso depende de um fator preponderante: a aprovação da reforma da Previdência. Já a avaliação da situação atual vai demorar a evoluir, especialmente quando mais de 13 milhões de brasileiros ainda estão desempregados.

*COLUNISTA DO BROADCAST

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