Imagem Fábio Alves
Colunista
Fábio Alves
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Soluço ou freio na economia?

Com números de agosto, alguns analistas revisaram para baixo resultado do PIB

Fábio Alves *, O Estado de S.Paulo

25 Outubro 2017 | 05h00

Vários indicadores de atividade econômica ficaram muito aquém do esperado pelo mercado financeiro em agosto – último dado disponível –, jogando um balde de água fria a quem já projetava uma recuperação mais veloz da economia brasileira.

E até que os resultados para o mês de setembro sejam divulgados a partir da semana que vem, a seguinte dúvida ainda vai parar no ar: a decepção de agosto foi apenas um soluço ou a retomada da economia ainda corre risco?

Só para lembrar os resultados de agosto em comparação com julho: a produção industrial recuou 0,8%, as vendas do varejo caíram 0,50%, o volume de serviços prestados encolheu 1,0% e o IBC-Br, a prévia do Produto Interno Bruto (PIB) apurado pelo Banco Central, caiu 0,38%.

Diante desses números de agosto, houve até analistas que revisaram para baixo o desempenho do PIB do terceiro trimestre deste ano. Se os dados de atividade voltarem a decepcionar para o mês de setembro, a rodada de corte de projeções do PIB deve ser bem mais ampla, afetando a estimativa de 2017.

“Os indicadores recentes corroboram nossa visão de que é necessária cautela nas expectativas de crescimento”, escreveu o economista-chefe do banco Safra, Carlos Kawall, em relatório a clientes. “Inegavelmente, a situação da economia no segundo e terceiro trimestres deste ano está mais favorável do que nos trimestres anteriores, mas o ritmo de tal recuperação ainda é bastante lento”, acrescentou Kawall, que estima uma retração de 0,1% do PIB no terceiro trimestre, mas um crescimento de 0,6% da economia para 2017 como um todo.

Na mais recente pesquisa Focus, do Banco Central, a mediana das estimativas aponta para um crescimento de 0,73% do PIB neste ano e de 2,50% em 2018.

Para o economista e sócio da GO Associados, Gesner de Oliveira, mesmo com os números negativos, o desempenho da atividade econômica de agosto não deve ser uma tendência até o fim do ano. “O que se espera é que o quadro tenha sido mais favorável em setembro e a retomada do crescimento em 2017 não seja comprometida”, escreveu Gesner em relatório a clientes. Ele lembrou que vários indicadores setoriais antecedentes sugerem que no mês passado a economia voltou a crescer, como a produção e venda de veículos e a de aço.

E qual deve ser o motor da recuperação da economia daqui em diante? “O consumo estimulado pelo crédito”, responde um experiente economista paulista. “As famílias estão menos endividadas, o custo do crédito está menor e a inadimplência tende a cair, dando mais conforto para o sistema bancário emprestar mais.”

Obviamente, é preciso haver mais confiança das famílias de que o mercado de trabalho vai melhorar. Em setembro, por exemplo, foram criadas 34.392 vagas de trabalho formais. Foi o sexto mês consecutivo de aumento no número de vagas com carteiras assinada, mas o resultado ficou muito abaixo do estimado pelos analistas, que era de uma criação de 57,5 mil postos.

E, nesse contexto, a redução da taxa de juros pelo Banco Central ainda é necessária para ajudar a economia atravessar um período de volatilidade e instabilidade da retomada, quando os indicadores de atividade podem surpreender para baixo em alguns meses. Até o momento, a projeção dos analistas é de que a taxa Selic caia para 7,0% no fim deste ano e permaneça nesse nível até o fim de 2018.

Todavia, a sensação é de que a recuperação de curto prazo, de caráter cíclico, está já contratada. A de médio e longo prazos, não. Para tanto, é fundamental a aprovação de reformas estruturais, como a da Previdência, para permitir o controle do déficit das contas públicas e, por tabela, melhorar a confiança de empresários e investidores em relação a um ambiente de estabilidade macroeconômica no futuro.

No meio do caminho, tem a eleição presidencial de 2018. O banco Votorantim, por exemplo, estima uma expansão de 3,2% do PIB em 2018. Embora mais otimista do que o mercado, o Votorantim diz que essa projeção incorpora as incertezas com o cenário político no ano que vem, além de piora nas condições de liquidez internacional. Sem essas incertezas, o crescimento pode ser ainda maior. Então, é bater na madeira.

* COLUNISTA DO BROADCAST

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.