Soluções para a crise são conhecidas, mas falta confiança

FMI defende ação coletiva para restaurar a confiança e a estabilidade do mercado, mas omite questões primordiais

WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

25 de setembro de 2011 | 03h02

Podem confiar, os governos farão o combinado para combater a crise: foi esta a grande mensagem da diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Christine Lagarde, ao apresentar, ontem, o comunicado oficial do órgão político mais importante da instituição, o Comitê Monetário e Financeiro, formado por 24 ministros com poder para falar em nome dos 187 membros da organização.

Foi esse também o recado inicial e mais importante do presidente do comitê, Tharman Shanmugaratnam, ministro de Finanças de Cingapura, na entrevista de divulgação do documento. Ele mencionou a falta de confiança na execução das políticas e afirmou, enfaticamente, a disposição dos ministros.

O comunicado começa com palavras fortes: "Concordamos hoje em agir decisivamente para enfrentar os perigos à frente da economia global - riscos das dividas soberanas, fragilidade do sistema financeiro, enfraquecimento da economia e alto desemprego. As circunstâncias variam, mas nossas economias e sistemas financeiros são firmemente interligados. Temos, portanto, de agir coletivamente para restaurar a confiança e a estabilidade financeira e para retomar o crescimento global".

O argumento foi retomado pelo presidente do comitê: não haverá descolamento, nenhum país ficará imune à crise se a situação piorar e, por isso, não há alternativa à ação coletiva.

O texto é um resumo das principais ações já recomendadas pelo FMI, pelos governos da Europa e dos EUA e por autoridades de muitos países em desenvolvimento. É quase um manual dos pontos de consenso. É preciso ajustar as contas públicas. Se houver espaço, será bom alongar o ajuste e adotar medidas de estímulo para reativar a economia. Os europeus devem resolver o problema da Grécia e implementar a decisão de tornar mais flexível o fundo de estabilidade financeira. É indispensável capitalizar os bancos. É urgente aliviar as famílias americanas endividadas e empobrecidas pelo estouro da bolha imobiliária. A China deve reestruturar sua economia e deixar o yuan flutuar.

No meio dessa ladainha, há omissões estratégicas. O comunicado menciona a implementação da reforma da Linha Europeia de Estabilização Financeira (EFSF, na sigla em inglês) sem citar um detalhe importante: a remodelação do fundo, com aumento de recursos e ampliação de atribuições, depende de aprovação política em 17 países da zona do euro. E, até agora, só cinco parlamentos a aprovaram.

Além disso, os negociadores do FMI e do Banco Central Europeu têm de concluir até setembro a revisão da política implementada pelo governo grego. Se o resultado for negativo, não será liberada a 6ª parcela do pacote de ajuda. E é duvidosa a aprovação de parte do pacote proposto pelo presidente Barack Obama ao Congresso americano. Qualquer desses detalhes, isoladamente, basta para assustar os mercados. / R.K.

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