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Soluços da economia mundial

A maior ameaça do momento à economia mundial é o aumento do risco de recessão de grandes proporções

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

06 de julho de 2019 | 20h00

Nada como uma ameaça para colocar em marcha a mobilização a fim de enfrentá-la.

A maior ameaça do momento à economia mundial é o aumento do risco de recessão de grandes proporções. Os sinais vão se acumulando e as advertências, também.

A então diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Christine Lagarde, emitiu alertas desse tipo às vésperas da última reunião de ministros de Finanças e presidentes de bancos centrais do Grupo dos 20 (G-20), realizada nos dias 8 e 9 de junho, renovados também na cúpula de chefes de Estado, que aconteceu no último fim de semana, na cidade de Osaka, no Japão. E o documento final dessa cúpula externou as mesmas preocupações. 

Outro sinal emitido pelo mercado financeiro dos Estados Unidos mostra previsões desalentadoras sobre o comportamento futuro da economia americana. Trata-se da queda acentuada da remuneração (yield) de longo prazo proporcionada pelos títulos do Tesouro americano (veja gráfico). A percepção geral é de que a atividade econômica estará tão fraca que sobrarão recursos. Por isso, o preço do dinheiro (os juros) a prazos mais longos embicou para baixo.

No diagnóstico recorrente dos analistas internacionais, esses prenúncios de desaceleração que podem confluir para uma recessão estão estreitamente ligados ao comportamento do presidente Donald Trump, que vai semeando incertezas na sua política comercial, especialmente com a China.

A questão não se resume apenas à queda do comércio mundial e dos investimentos, mas também à forte retração da demanda por commodities, que vem derrubando os preços das matérias-primas (veja gráfico abaixo).

Foi com base nesses diagnósticos quase unanimemente pessimistas que a reação veio a galope.

Os dois maiores bancos centrais, o Fed (Federal Reserve, dos Estados Unidos) e o Banco Central Europeu (BCE), já anunciaram que preparam sucessivas reduções de juros, cujo objetivo é ativar o crédito e empurrar as empresas a novos investimentos. Esses movimentos serão seguidos pelo Banco do Japão e pelo Banco da Inglaterra (bancos centrais).

Embora o mercado de trabalho dos Estados Unidos viva momento de quase pleno-emprego, o presidente Trump entendeu que a ameaça de recessão é real. Se a perda de tração do sistema produtivo dos Estados Unidos coincidir com a temporada eleitoral de 2020, como tudo indica, o projeto de sua recondução à Casa Branca pode se frustrar pelo seu efeito sobre a renda do eleitor. Foi também por isso que a guerra comercial dos Estados Unidos com a China foi abrandada ou entrou em compasso de espera.

Outro sinal foi transmitido pela União Europeia, que apressou o fechamento (em princípio) do acordo de livre comércio com o Mercosul. Embora esse não tivesse sido a principal motivação do passo, anunciado dia 21, a expectativa agora é de maior afluxo de investimentos tanto no Mercosul quanto na União Europeia.

Como fica o Brasil nessa? Em certa medida já começou a ser prejudicado com redução de receitas com exportações em consequência da queda dos preços das commodities, hoje cerca de 50% da pauta de exportações. Esse efeito poderá ser reduzido se for confirmada a redução dos juros pelos grandes bancos centrais e se mais recursos pousarem no Brasil.

Como o Banco Central do Brasil passará a reduzir os juros também em consequência do movimento dos grandes bancos centrais, a melhora das condições da economia poderá acontecer por aqui.

No entanto, até mesmo essa reação coordenada globalmente contra a recessão mundial poderá se perder se alguma contrariedade emperrar a aprovação das reformas.

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