#somostodoscaminhoneiros, porém...

O grito, apesar de forte, ficou perdido por ausência de lideranças da sociedade

Pedro de Camargo Neto *, O Estado de S.Paulo

31 Maio 2018 | 03h00

A mobilização dos caminhoneiros Brasil afora, e o amplo apoio que obteve de inúmeros setores da sociedade, espelha a insatisfação da sociedade com a nossa realidade. A combustão espontânea dos caminhoneiros é resultado da frustração de todos os dias arcarmos com preços que reduzem nossa qualidade de vida, quando não inviabilizam a atividade produtiva.

Os combustíveis e a composição de seus preços facilitam a compreensão do Brasil que criamos. O petróleo retirado das profundezas e refinado por uma empresa estatal, que antes de tudo dizem ser nossa, e foi alvo recente de escândalo, com os custos de distribuição pelo País afora, acrescido de tributos que somam mais de 50 por cento entre federais e estaduais inviabiliza muitas atividades.

É a realidade do Brasil. Sempre que necessário foram se criando ou ampliando alíquotas e impostos. Ajusta-se o orçamento transferindo recursos do setor privado para o público. A mobilização dos caminhoneiros claramente explicita que chegamos ao limite.

O governo deixou a mobilização crescer a ponto de criar um início de pânico. Foram capazes de já com a mobilização no País inteiro produzirem um acordo que foi ridicularizado no exato momento que foi anunciado. Três dias depois produziram outro acordo que atendeu teoricamente à reivindicação inicial dos caminhoneiros.

E a mobilização continuou. E os prejuízos também. O descontrole permitido pelo governo foi crescendo. Ao acompanhar as reações dos caminhoneiros, e seus apoiadores que também cresceram, vimos aparecer o discurso de pedido de intervenção militar. Apresentada como solução para todos os males, não ficava claro como seria realizada a tal inaceitável intervenção.

O desejo expresso pelo movimento que parou o Brasil, além do preço do diesel, esteve sempre atrelado à redução do gigantismo do Estado, sua ineficiência, seus privilégios, além da corrupção. Intervenção militar foi o que, na ausência de lideranças de uma sociedade infelizmente ainda muito desorganizada, usaram para expressar uma enorme insatisfação existente em toda a população do País.

O governo apresentou sua proposta de reduzir a carga de impostos no diesel. Isto é, reduzir a transferência de recursos do setor privado para o público. O que não apresentou foi como reduzir o tamanho do setor público, etapa essencial ou estaremos nos enganando mais uma vez.

Esse essencial debate sobre o tamanho do setor público não entrou na agenda. Não se trata somente da eficiência maior ou menor das empresas estatais. Será preciso enfrentar os valores que representam manter inúmeras corporações de funcionários públicos nas três esferas. Salários exorbitantes quando comparados com o setor privado, privilégios que ampliam os benefícios com nenhuma transparência, inclusive os previdenciários, além de uma questionável eficiência.

Certamente como proposta para equacionar a redução de impostos do diesel apresentarão o aumento de outros impostos. Foram incapazes de ouvir o grito que parou o Brasil. Não apresentarão nenhuma iniciativa para enfrentar o desperdício de recursos públicos. Continuarão ignorando os salários públicos muito superiores aos privados, mais do que isso, superiores ao que a legislação determina: que o maior salário seja o do presidente da República. Continuarão a aceitar que o escrito na lei seja sempre burlado por interpretações criativas que o Judiciário homologa, até porque também participa ativamente desses privilégios. Continuarão sem enfrentar a questão dos auxílios-moradia, das pensões à filha que não se casam oficialmente para receberem aposentadorias milionárias.

Infelizmente, o grito, apesar de forte, expressado com clareza por mais do que somente os caminhoneiros, por menos corrupção e privilégios, ficou perdido por ausência de lideranças da sociedade. O fato é que o setor público não cabe mais dentro do setor privado.

*EX-PRESIDENTE DA SOCIEDADE RURAL BRASILEIRA

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