Sonho da casa própria com móveis novos fica para depois

Sonho da casa própria com móveis novos fica para depois

Moradores do "Minha Casa" dizem não ter condições financeiras para comprar mobília

Murilo Rodrigues Alves, O Estado de S. Paulo

03 Outubro 2015 | 22h00

“Estava aguardando. Agora, acabou a esperança”, afirma o vigia Genival da Silva Lima Júnior, de 38 anos. Ele se mudou com a esposa e três filhos para um empreendimento do Minha Casa Minha Vida, em Riacho Fundo, cidade-satélite de Brasília, há quatro meses. Junto com a chave do apartamento, veio a promessa de que em breve teria o cartão do Minha Casa Melhor para poder financiar os móveis do novo lar.

“Lembro que na campanha ela sempre falava que nunca ia acabar com esse programa. Mas isso é uma coisa que se fala da boca pra fora, né?”, diz, em referência à promessa da presidente Dilma Rousseff na campanha à reeleição no ano passado. 

Genival não conseguiu mobiliar o apartamento como gostaria. Diz que não tem condição para financiar os móveis que ainda faltam sem ter o acesso às condições favoráveis do programa. Ele ganha R$ 905 por mês e a mulher trabalha como diarista.

O apartamento em que vivem conta com dois quartos, sala, cozinha e banheiro. Os três filhos ainda dormem em colchões no chão. A roupa suja é lavada na casa da sogra ou na mão. A sala ainda espera sofá e mesa. Nas janelas, papelão é usado como cortina. “Com essa crise no País, já nem tenho mais esperança”, diz.

Para a balconista Jaqueline dos Santos, de 27 anos, a injustiça foi beneficiar apenas uma parte dos mutuários do Minha Casa Minha Vida com a linha de crédito especial. Ela, que vive com o marido e duas filhas, ainda esperava o cartão para comprar geladeira, fogão e guarda-roupa. “Não tenho condições de comprar esses móveis agora. Com o programa, poderia parcelar várias vezes e ter desconto. Agora, nem sonhando consigo comprar tudo na loja”, afirma. 

Foi o que fez a vendedora autônoma Noeli da Conceição, de 47 anos. Ela se mudou no início deste ano e até hoje paga o sofá, o armário e a mesa. “Nem se me dessem agora eu queria. Deus que me livre de mais dívida”, afirmou. Já Elis Regina Santana, de 35 anos, optou por trocar o piso do apartamento assim que mudou e ainda confiava na retomada do programa para “comprar quase tudo”. Ela vive no apartamento de dois quartos com o marido e seis filhos entre seis e 14 anos.

Em Marechal Cândido Rondon, no interior do Paraná, o servente de pedreiro Edilson Luiz Ferreiro, de 38 anos, resumiu, por telefone, a reação dos beneficiários ao fim do programa. “Com ele, o sonho ficaria completo.” Ele recebeu na sexta-feira as chaves da casa nova pelas mãos do ministro do Trabalho, Manoel Dias, e também ficou desapontado por não receber o cartão do Minha Casa Melhor. “Vou ter de esperar as coisas melhorarem para comprar os móveis. Pelo menos já tenho um teto pra morar.” 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.