SERGIO CASTRO | ESTADÃO CONTEÚDO
Imóveis do Residencial Planalto Verde, em São Carlos, foram entregues cheios de falhas SERGIO CASTRO | ESTADÃO CONTEÚDO

Sonho da casa própria não resistiu à chuva

Imóveis de conjunto do Minha Casa em São Carlos têm rachaduras e infiltrações

Renée Pereira, Enviada especial, O Estado de S.Paulo

27 de agosto de 2016 | 20h00

SÃO CARLOS (SP) - De longe, os painéis solares instalados nas centenas de casas do Residencial Planalto Verde, na periferia de São Carlos (SP), passam uma imagem de construção moderna, com consciência ambiental e de qualidade. De perto, porém, o cenário é bem diferente. Nas residências, há rachaduras no teto, trincas nas paredes e umidade por todo canto. O sistema de aquecimento solar vaza água toda vez que é acionado e o sifão da pia da cozinha vive pingando. Há risco até de desabamento no futuro.

Ao contrário do que se pode imaginar, essas casas são novas. Foram entregues pela presidente afastada Dilma Rousseff em outubro do ano passado e fazem parte do programa habitacional Minha Casa Minha Vida. O residencial tem 806 unidades e custou R$ 60 milhões. São dois quartos, sala, cozinha e banheiro distribuídos em 42,98 metros quadrados – espaço suficiente para quem conquistou a primeira casa própria.

Mas o sonho dos moradores durou até a primeira chuva. Com um sistema de drenagem inadequado, algumas casas foram inundadas. A água subia pelo ralo ou descia pela parede por causa de defeitos na calha. Os problemas foram parar no Ministério Público Federal, que fez um laudo e entrou na Justiça contra a Caixa, que financiou o projeto, e a construtora Marimbondo, responsável pela obra.

O bairro em São Carlos, no entanto, não está sozinho nesse caos de problemas. Brasil afora há inúmeras obras do Minha Casa sendo questionadas pela má qualidade das construções – ou por desleixo na execução dos projetos. No total, o País tem mais de 700 ações judiciais envolvendo o programa, que subsidia 90% do valor do imóvel para quem recebe até R$ 1,8 mil. Os questionamentos, feitos pelo Ministério Público, vão de corrupção nos contratos, invasões das unidades aos chamados vícios de construção – jargão usado para se referir à má qualidade das obras.

Em unidades já entregues, o Ministério Público relata problemas absurdos. Casas foram entregues sem portas, sem fiação, sem piso e sem reboque. “Há unidades sem a mínima condição de habitação”, afirma o procurador da República, Edilson Vitorelli, coordenador do Grupo de Trabalho de Habitação de Interesse Social. Ele conta que o Ministério Público tem verificado um número considerável de vícios construtivos no Minha Casa.

Baixa qualidade. Desde o início do programa, em 2009, já foram entregues mais de 2,6 milhões de unidades para a população que recebe até R$ 6,5 mil por mês. “Mas o que verificamos até agora é que a preocupação com a qualidade ficou abaixo do necessário. A meta sempre foi quantitativa”, diz Vitorelli. Entre os casos mais graves verificados até agora, diz ele, estão casas construídas em Governador Valadares (MG). Logo após a inauguração, algumas unidades foram condenadas pela Defesa Civil por risco de desabamento. De 96 residências, 14 tiveram de ser desocupadas.

Outros casos demonstram o desleixo com o programa. Em Blumenau (SC), o Ministério Público entrou na Justiça por causa de falhas no sistema de gás do Residencial Bella Casa, que poderia provocar incêndio. No Piauí, unidades foram construídas fora das dimensões prometidas contratualmente. “A política pública foi feita ao contrário. Cada construtora fazia seu projeto, muitos com problemas, e oferecia ao governo”, diz Vitorelli.

Em nota, a Caixa diz que a ação do Residencial Planalto Verde, em São Carlos, refere-se a problemas ocorridos após a entrega da obra e que foram sanados pela construtora na época. “O empreendimento não tem problema estrutural e não representa risco às famílias ou de desabamento.” A construtora não se pronunciou.

Segundo a Caixa, o programa já beneficiou mais de 39 mil pessoas com a entrega de 9.766 imóveis em São Carlos. Além do Residencial Planalto Verde, outras duas construções do Minha Casa estão sendo questionadas pelo Ministério Público Federal na cidade.

 

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'Fiquei com medo de perder a casa, de tão feio que foi'

Todos os eletrodomésticos e móveis novos ficaram na água que invadiu o imóvel onde Daniela começava uma nova vida com a filha

Renée Pereira, O Estado de S.Paulo

27 de agosto de 2016 | 20h00

Daniela Cristina dos Santos, de 33 anos, ficou tão contente ao ser sorteada no Programa Minha Casa Minha Vida que não esperou o dia seguinte. Mudou na mesma hora para o Residencial Planalto Verde. Comprou geladeira nova, armários para cozinha e guarda-roupa para mobiliar sua primeira casa. Ao lado da filha pequena, começava uma nova vida. Até uma tempestade inundar sua casa, danificar eletrodomésticos e móveis novos. “Fiquei com medo de perder a casa de tão feio que foi.”

A moradora estava na cozinha com a filha quando ouviu um barulho forte. Em segundos, a água começou a subiu pelos ralos e inundou toda a casa”, afirma Daniela, que de tanto susto teve uma paralisia no lado esquerdo do rosto. Ela conta que a água ficou represada no fundo da casa por vários dias e ninguém apareceu para resolver o problema ou cobrir os prejuízos. “Só tenho geladeira hoje porque a vizinha me deu uma usada.”

Para conter os efeitos de novas chuvas, a moradora tirou do próprio bolso o dinheiro para fazer um muro de contenção no fundo da casa. Outros problemas, porém, continuam visíveis, como as rachaduras entre o teto e a parede, que foram rebocadas pela construtora, e as infiltrações por toda a casa.

Na avaliação do professor da Escola de Engenharia de São Carlos da USP José Elias Laier, responsável pelo laudo solicitado pelo Ministério Público, as fissuras e trincas verificadas em quase todas as casas do Residencial Planalto Verde vão continuar se abrindo, permitindo a umidade e deteriorando o imóvel. O problema, diz ele, é que faltou uma viga entre a laje e a parede.

O laudo do professor mostra ainda que há erosão na base das casas por causa da fragilidade da fundação feita pela construtora, além do desnível errado nos banheiros e falta de impermeabilização nas paredes. “Esses problemas devem ser reparados de imediato, caso contrário, a evolução desses defeitos pode, em um futuro não muito distante, inviabilizar a moradia, sem contar que a degradação pode pôr em risco a vida dos moradores”, conclui o laudo, obtido pelo Estado.

Luciana Garcia Lopes não pensa muito nos riscos que pode estar correndo. Mas diz que já conheceu quase todos os problemas listados no laudo da USP, como rachaduras no teto e paredes, mofo, infiltração no piso e vazamento do sistema de esgoto. “A gente acha que vai entrar numa casa nova e não ter dor de cabeça, mas é um engano”, diz ela.

Para Luciana, que tem problema renal e está na fila do transplante, o pior de todos os problemas até agora foi o esgoto, que começou a vazar por todos os lados e alcançou cômodos da casa. “Transbordou pelo vaso do banheiro, pelo ralo e pelas caixas de esgoto no quintal. Ninguém conseguia ficar dentro de casa por causa do cheiro forte.”

A construtora resolveu o problema, mas não explicou os motivos do vazamento. Da mesma forma, rebocou todos as rachaduras do teto e em volta da janela. “Mas não me conformo de ter uma casa nova com todos esses remendos. Queria pintar, mas dizem que é obrigação da construtora fazer o serviço.”

Luciana vive de um auxílio-doença equivalente a um salário mínimo. Paga por mês R$ 40,5 pela casa nova. O que sobra mal dá para as despesas diárias. Situação semelhante vive o casal Leticia Tereza da Silva e Claudinei Herzig da Silva, que paga pelo imóvel R$ 33 por mês. Na residência de 42,98 metros quadrados (m²), moram o casal e cinco filhos. Ali, as paredes estão cheias de mofo e descascadas por causa da umidade.

O sistema de aquecimento solar de água, por enquanto, é apenas um enfeite no banheiro. As poucas vezes que tentaram usar, tiveram uma desagradável surpresa. Ao ligar o chuveiro, a água se infiltra pela parede e começa a inundar o quarto das crianças. “Algumas vezes todos tiveram de dormir na sala porque não parava de descer água pela parede.” Por causa do vazamento, a família usa o chuveiro elétrico e gasta mais de R$ 130 por mês. “É uma decepção. A gente nunca tem uma casa nossa, e agora que tem está cheia de problemas”, diz Claudinei Silva.

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