Soros só vai gerir dinheiro da família

Para fugir de regras de transparência, investidor vai deixar de administrar dinheiro de terceiros

, O Estado de S.Paulo

27 de julho de 2011 | 00h00

Após quatro décadas de carreira, George Soros declarou ontem que ficará apenas com a gestão de seus recursos e de sua família.

O megainvestidor octogenário vai retornar US$ 1 bilhão para investidores estrangeiros, provavelmente no fim do ano, e transformará o Soros Fund Management numa empresa de família.

Essa soma, porém, representa uma pequena parte dos US$ 25 bilhões que ele administra. Keith Anderson, principal executivo de Soros desde 2008, deixará a empresa.

Desde que lançou seu fundo, o Quantum, há quase 40 anos, Soros - um imigrante húngaro radicado nos EUA - criou uma das mais invejadas carteiras de investimentos do mundo, propiciando retornos de 20% ao ano. Mas as condições muito voláteis do mercado afetaram o fundo, que perdeu 6% no primeiro semestre de 2011 e ganhou somente 2,5% no ano passado.

Numa carta aos investidores, os dois filhos de Soros, que são vice-presidentes do fundo, citaram a nova e iminente regulamentação do setor como a razão para a decisão.

Com base no novo Dodd-Franck Act, os fundos de hedge serão obrigados a se registrar nos órgãos fiscalizadores do setor financeiro e a fornecer informações exatas sobre como seus portfólios lucram. A fiscalização para investimentos de família será mais indulgente.

A decisão de Soros de devolver o dinheiro aos investidores parece espetacular, mas é simbólica. A empresa, com seus 100 funcionários, não deverá ter o seu porte reduzido, e Soros vai continuar trabalhando com gestão de fundos como sempre.

Desde que Soros reorganizou o fundo Quantum, em 2000, depois de ter contabilizado grandes prejuízos, a empresa já vinha operando de fato como escritório familiar, contando com as diversas possibilidades de ser dispensada de um registro.

"Uma consequência infeliz dessas novas circunstâncias é que não poderemos mais administrar ativos de outras pessoas além de clientes da família, como foi estabelecido pela nova regulamentação", afirmaram Jonathan e Robert Soros, filhos do megainvestidor.

George Soros se insere numa lista crescente de gestores de fundos que recentemente reformularam suas empresas tendo em vista as novas regras. Stanley Druckenmiler - por muito tempo adjunto de Soros e que ajudou a planejar a aposta vencedora da empresa contra a libra esterlina em 1992 - retornou o dinheiro para os investidores. Outros grandes do setor como Chris Shumway, Julian Robertson e Carl Icahn fizeram o mesmo.

Para alguns estrangeiros, a tendência é dar o sinal de alarme. "Se os grandes gestores de fundos estão baixando as portas por causa de regras excessivamente onerosas, então isso acabará prejudicando nossos investidores institucionais", disse Jim Liew, professor de finanças na Stern School of Business, da Universidade de Nova York.

"Nesse ambiente, na verdade, o que precisamos é de uma maior atividade dos fundos de hedge: contratar pessoas, levantar capital, investir e, finalmente, estimular nossa economia", acrescentou.

O apoio de Soros a causas liberais está na mira dos conservadores e pode ter contribuído para sua decisão de administrar apenas seus recursos. "Efetivamente, distribuo metade da minha renda à medida que ganho e a outra metade será distribuída na minha morte", disse Soros à agência Reuters no ano passado.

Para os estrangeiros, parece que Soros deseja lucrar mais e neste momento pode ser mais fácil atuar sozinho. "Talvez você necessite apostar contra o dólar ou fazer outras coisas não patrióticas agora - e essas apostas poderão ser mais fáceis sem parceiros telefonando para reclamar", disse Charles Gradante, cofundador do Grupo Hennessee, que não tem recursos administrados por Soros. / REUTERS, TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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