Sotaque alemão na internet brasileira

Protagonistas das startups de internet em Berlim elegem o Brasil como o mercado prioritário para investimentos fora da Europa

FERNANDO SCHELLER , ENVIADO ESPECIAL / BERLIM, O Estado de S.Paulo

31 Outubro 2011 | 03h05

É difícil encontrar uma mesa vazia no Café St. Oberholz, em Berlim. Localizado próximo a lojas de grife e à cena descolada do centro da capital alemã, o St. Oberholz é uma espécie de berço para empresas nascentes: atrai empreendedores que têm uma ideia na cabeça e pouco (ou nenhum) dinheiro na mão com um cardápio de lanches a preços atrativos, internet sem fio gratuita e muitas tomadas para que os "sem escritório" possam ligar o computador e permanecer horas enviando e-mails e realizando reuniões de trabalho.

Foi neste cenário que nasceu, há quatro anos, a Rocket Internet, principal expoente do mercado alemão de internet atualmente. Uma espécie de fábrica de startups, o empreendimento financiado pelos irmãos Samwer tem hoje um portfólio de mais de 1 bilhão. O cofundador e diretor geral da Rocket Internet, Christian Weiss, conta que o grupo - que hoje contabiliza 30 empresas e é um dos dez maiores empregadores de Berlim, com 5 mil funcionários - agora pensa em voos maiores: a ordem é que todos os novos projetos tenham escopo mundial.

Neste cenário, o Brasil surge como mercado prioritário. O escritório paulista é uma das maiores filiais internacionais da Rocket Internet, com 25 profissionais. O principal projeto no País atualmente é a Dafiti, loja virtual de calçados que aproveita o conhecimento da companhia no setor - o Rocket Internet é dono do maior site de venda de sapatos da Alemanha, a Zalando. "Eu diria que hoje o Brasil é o nosso novo mercado preferido, até porque é mais fácil trabalhar lá do que na China", diz Weiss.

Apesar de a concorrência estar mais estruturada, a verdade é que a Rocket Internet cresceu tanto porque durante anos navegou sozinha no mercado alemão, apostando fortemente nos "copycats": a reprodução de modelos de negócios consagrados internacionalmente, principalmente nos Estados Unidos. "É muito mais fácil atrair dinheiro para modelos testados, que já se provaram lucrativos em outros locais, do que para algo totalmente novo. Daí a opção pelas cópias", explica Michael Kalkowski, diretor criativo da Game Duell, empresa de videogames fundada em 2003.

O sucesso da Rocket Internet está mais baseado na administração dos negócios do que no ineditismo das ideias. Seguindo essa estratégia, a incubadora percorreu caminhos conhecidos há pelo menos uma década: montou sites de relacionamento, de compras coletivas, de moda, de oportunidades imobiliárias e de pagamento online. Seu maior investimento individual atualmente é o Wimdu, um "similar" do megassucesso americano de aluguel de apartamentos por temporada, o Airbnb.

Mão de ferro. Fontes do setor de internet em Berlim concordam que boa parte do êxito dos investimentos da Rocket Internet pode ser creditada à "mão de ferro" dos Samwer. Os irmãos Marc, Oliver e Alexander conseguiram montar uma estrutura que concentra as necessidades administrativas, financeiras e de marketing de diferentes negócios, cortando custos. "Eles são muito eficientes. Mas trabalhar para a Rocket Internet é como entrar em um moedor de carne", afirma um empresário do ramo de internet da capital alemã que pediu anonimato.

Os irmãos Samwer estiveram envolvidos em todos os grandes negócios de internet da Alemanha nos últimos anos. Apostando no setor há mais de uma década, eles já colheram mais de 1 bilhão em frutos: o Alando, clone do eBay, foi vendido por 48 milhões, enquanto o site de toques para celular Jamba rendeu 228 milhões a Marc, Oliver e Alexander. O maior negócio envolveu o CityDeal, site alemão de compras coletivas que foi incorporado pelo Groupon por cerca de 750 milhões.

Após o acordo com o gigante americano de compras coletivas, os irmãos tornaram-se sócios do Groupon e assumiram a expansão internacional do site - incluindo a operação brasileira. Por causa da estrutura administrativa azeitada e da extensa rede de contatos dos Samwer, que capta profissionais com rapidez, a Rocket Internet consegue agir rapidamente. No caso do Groupon Brasil, a ordem dos irmãos para a equipe foi montar a estrutura brasileira o mais rápido possível, para conter a rápida expansão do Peixe Urbano.

Toda a operação local do Groupon foi executada em duas semanas. Uma das figuras envolvidas no desenho da estratégia para o Brasil foi Philipp Bock, da Allpago, startup especializada em facilitar a entrada de companhias alemãs no mercado brasileiro. Bock, que morou no País por mais de dez anos, foi chamado para cortar caminho na burocracia brasileira: abriu contas em banco, resolveu problemas de cartório e fez o papel de diretor interino da Groupon Brasil. "Normalmente trabalho com prazos de quatro a seis semanas, mas os Samwer são mais exigentes", ressalta.

Imagem. O foco nos resultados rápidos, no entanto, acabou por dar aos irmãos Samwer a fama de "vilões da internet". As empresas da Rocket Internet não têm o ambiente descontraído associado aos negócios do ramo, e a pressão por resultados é mais acentuada do que na concorrência. Isso se reflete na rotatividade de funcionários. "Em uma das empresas, o diretor de marketing foi substituído sete vezes em um ano. Como tem muita gente querendo trabalhar na área de internet em Berlim, eles não têm problema para substituir quem não mostra serviço imediatamente", diz um executivo do setor.

As críticas que começaram a pipocar na imprensa também incomodaram os empresários. Antes felizes em conversar com jornalistas, Marc, Oliver e Alexander tornaram-se reclusos. Há duas semanas, Oliver se negou a responder perguntas de um jornalista do blog de tecnologia TechCrunch mesmo tendo concordado anteriormente em conceder entrevista. Dentro da Rocket Internet, há descontentamento em relação ao espaço conquistado pelos concorrentes Springstar e Team Europe na mídia - incubadoras que baseiam seu marketing em um estilo mais "amigável" de gestão.

Uma das preocupações atuais da Rocket Internet é remodelar a própria imagem. "Acho que a diferença é que nós nos concentramos no negócio, enquanto nossos concorrentes apostaram em marketing", admite Christian Weiss. "Começamos quando a indústria praticamente não existia na Alemanha e temos um grande portfólio. Está na hora de trabalhar a nossa imagem."

"Somos responsáveis por tudo. Definimos o negócio, contratamos os profissionais e pensamos como será o financiamento."

Não foi só a Rocket Internet que acordou para o mercado brasileiro. Duas de suas principais concorrentes já estão atentas para oportunidades no País: a Springstar tem participação no ClickOn e no Brands Club, enquanto a Team Europe, que atualmente tem 15 empresas no portfólio, vai abrir sua primeira operação em território nacional até o fim deste ano.

O Delivery Hero, que concentra menus de restaurantes em um só website, será o primeiro a puxar a fila. "Cadastramos apenas empreendimentos que têm sua própria estrutura de delivery. Não vamos fazer a logística", explica Lukasz Gadowski (foto), sócio da Team Europe. "Ganhamos cobrando uma comissão pelo serviço."

Para expandir o Delivery Hero, já disponível na Austrália, no México e na Rússia, Gadowski busca profissionais para uma equipe que deverá ter entre 20 e 30 pessoas. "Estamos procurando gerentes, vendedores e profissionais de contabilidade", explica. Antes de fazer as contratações, o empreendedor ainda precisa decidir se abrirá a filial no Rio ou em São Paulo. / F.S.

LUKASZ GADOWSKI,

sócio da Team Europe

Des-pa-chan-te. É assim, sílaba por sílaba e com dificuldade, que Christian Weiss, diretor geral da Rocket Internet, pronuncia a palavra que os empreendedores alemães do setor de internet costumam usar para resumir a burocracia brasileira. É justamente na redução dessas dificuldades que se baseia o negócio da Allpago, empresa que se vende no mercado alemão como uma "facilitadora" de negócios no Brasil.

Por uma comissão, a companhia ajuda negócios alemães de internet a montar uma estrutura legal, coletar dinheiro e pagar impostos de acordo com as leis nacionais. Se necessário, a Allpago até gerencia os negócios interinamente. O conhecimento sobre o mercado brasileiro de Phillipp Bock, sócio do empreendimento, foi adquirido desde a infância - ele morou no Brasil dos 7 aos 14 anos de idade e mais tarde trabalhou no País. "Nem todo mundo sabe que metade dos cartões de crédito brasileiros pode ser usada somente em território nacional. É preciso ter o boleto bancário para não perder vendas."

Um dos negócios que Bock ajudou a fundar no Brasil foi a MT Performance. Enquanto os donos da empresa não conseguem o visto de trabalho, ele faz o papel de gerente geral da companhia. A empresa aposta todas as fichas no mercado brasileiro, com a meta de direcionar tráfego para os sites de comércio eletrônico do País. Os fundadores da companhia, Benedikt Franke e Philip Huffmann, já têm mais de 200 domínios na internet brasileira - e criam conteúdos específicos para cada um deles.

A MT compra domínios genéricos - "calçados", "sapatos", "noivas" e "cachecol", por exemplo -, que são transformados em sites. Os produtos dos clientes da empresa, entre eles as lojas de sapatos online Dafiti e Passarela, são associados a conteúdos. Assim, os clientes veem as mercadorias mesmo quando não estão na web para fazer compras.

A equipe da companhia, que tem atualmente 65 pessoas, sendo 20 brasileiros, trabalha toda em Berlim. Esse pessoal edita o conteúdo de moda escrito por blogueiros associados. Para ganhar mais acessos, a ordem é aumentar o número de websites da MT para 700 domínios brasileiros em 2012. A empresa também montará um pequeno escritório no Brasil no ano que vem. / F.S.

Há um ditado em inglês que diz que "a necessidade é a mãe da invenção". É uma frase que resume a motivação por trás do surgimento da indústria de startups do setor de internet na capital alemã. Há pouco mais de uma década, quando esse mercado começou a se movimentar, a maioria dos empresários optou por Berlim por causa do baixo custo de vida.

Operar na capital alemã é pelo menos 50% mais barato do que em cidades com indústria forte, como Hamburgo e Munique. Nos últimos anos, a cena de internet ganhou importância na cidade porque, apesar de os órgãos governamentais federais terem sido transferidos para Berlim, as opções de emprego e renda na capital seguem restritas em relação a outras cidades alemãs.

Segundo empresários do setor, isso faz de Berlim uma opção "mais em conta" também em relação ao Brasil. Segundo Benedikt Franke, sócio da MT Performance, que baseia todo o seu negócio no mercado brasileiro, operar na capital alemã sai mais barato do que em São Paulo. "Pago salários mais baixos. E o aluguel também custa menos." / F.S.

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