Sozinho, setor de serviços não dá impulso ao crescimento do PIB

Há muitos segmentos do PIB de serviços que dependem da expansão da indústria, dizem economistas

O Estado de S.Paulo

22 de julho de 2012 | 03h10

Apesar de o setor de serviços responder por cerca de dois terços (67%) do Produto Interno Bruto (PIB), sozinho não tem capacidade para dar o arranque no crescimento e fazer com que a economia como um todo volte a se expandir entre 3,5% e 4,0%, concordam os economistas.

"Há muitos segmentos dentro do PIB de serviços que têm a sua evolução atrelada ao comportamento da indústria. Dificilmente quando a indústria vai mal, como ocorre hoje, esses segmentos do PIB de serviços conseguem se descolar dela", diz o economista-chefe da LCA Consultores, Bráulio Borges.

Entre os segmentos do setor de serviços atrelados à indústria, ele aponta o comércio, o segmento de transportes e a intermediação financeira (crédito). "Por mais que o comércio consiga se descolar, se abastecendo com produtos importados, quando as condições de crédito estão ruins ou a confiança abalada, isso acaba afetando a indústria e o comércio", exemplifica Borges.

Para uma análise mais refinada do impacto do potencial do setor de serviços no PIB como um todo, o economista agrupou aqueles serviços dependentes da renda e que conseguem ter uma dinâmica própria, relativamente independente do comportamento da indústria. São eles os serviços de informação, os prestados a famílias e empresas, como cabeleireiros e pedreiros, e aluguel. O economista concluiu que esses serviços "independentes" representam apenas 22% do PIB. "Esses serviços não têm a capacidade de alavancar o crescimento porque não estamos falando mais de 70% do PIB, mas de 20%", ressalta.

Além desses serviços relacionados com a renda responderem por uma fatia menor do PIB do que se imagina, ele observa que, em menor proporção comparado ao PIB como um todo, eles também estão desacelerando desde o 3.º trimestre do ano passado, quando o crescimento desse segmento em relação a igual período de 2010 foi de 1,9%, depois de ter aumentado 3,1% no 2.º trimestre de 2011. No último trimestre do ano passado e no 1.º deste ano, os aumentos em bases anuais foram decrescentes, de 1,4% e 1,2%, respectivamente.

Na análise do economista, a perda de fôlego desses serviços atrelados à renda ocorreu por causa da acentuada elevação de preços ocorrida no passado. "As pessoas ajustaram a demanda."

"Quem dá a dinâmica do PIB é a indústria. Quem tende a jogar o PIB para cima é a indústria, e não os serviços", frisa o economista do Itaú Unibanco, Caio Megale. Ele observa que a capacidade de os serviços acelerarem o crescimento da economia é menor comparada à da indústria porque o desempenho desse setor é alimentado por fatores mais estáveis, como ganhos salariais e a mobilidade social.

Vento contrário. "O Brasil tende a caminhar para uma organização econômica que agregue valor por meio dos serviços. Esse foi o caminho trilhado por economias desenvolvidas da Europa e os Estados Unidos", afirma o sócio da RC Consultores, Fabio Silveira. Mas ele ressalta que esse processo aqui está ocorrendo de forma muito rápida, queimando etapas de enriquecimento e redistribuição de renda. "O processo de industrialização não foi concluído aqui. A transição de uma sociedade industrial para uma de serviços deve ser longa."

Um dos impactos desse movimento fugaz é que o setor de serviços hoje no País é formado por segmentos de menor qualificação, isto é, serviços menos sofisticados. "Isso não é bom. Basta um vento contra para abalar a dinâmica do crescimento."/ M.C.

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