Spielberg, Lucas e Ford buscam um tesouro arriscado

Eles só ganharão se o novo ?Indiana Jones? arrecadar mais de US$ 400 milhões

Claudia Eller, Los Angeles Times, O Estadao de S.Paulo

22 de abril de 2008 | 00h00

A série Indiana Jones é conhecida por seus finais emocionantes e inesperados. Mas o verdadeiro final inesperado na longamente esperada seqüência é quando - e talvez, se - os famosos cineastas e o famoso astro farão dinheiro. Isso porque antes que o produtor executivo George Lucas, o diretor Steven Spielberg e o protagonista Harrison Ford ponham a mão em algum dinheiro, a Paramount Pictures precisará arrecadar US$ 400 milhões em receita para recuperar todos os custos e fazer um dinheiro de bom tamanho para distribuir Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal. Parece ser uma bobagem, considerando a norma de Hollywood, onde filmes e astros de primeira grandeza tradicionalmente ganham imensas quantias antecipadas e conseguem uma boa parcela das vendas dos ingressos antes que o estúdio recupere seu investimento. O acordo atípico entre o estúdio e o trio ilustra as novas realidades econômicas da indústria cinematográfica. No momento em que os custos de produção e marketing continuam a subir, o público freqüentador de cinema está estagnado e há um declínio na venda de DVDs, os estúdios estão procurando formas de se protegerem de colossais perdas com um único filme. "Se os artistas acreditam no filme, eles assumem um risco um pouco maior para obterem não uma significativa compensação antecipada, mas uma parcela maior do lucro final", explica o analista Harold Vogel. "Isso faz sentido para os estúdios, que estão com dinheiro curto". Com a economia da indústria cinematográfica se tornando menos lucrativa nos últimos anos, os estúdios vão preferir que os artistas arquem com mais riscos. Uma maneira é conseguir que astros, diretores, roteiristas e produtores caros concordem em adiar seus pagamentos costumeiros e renunciem ao seu quinhão do dinheiro da bilheteria desde o primeiro ingresso vendido. Por exemplo, a Walt Disney Studios fez um arranjo desse tipo com o produtor Jerry Bruckheimer e o astro Johnny Depp nos filmes de Piratas do Caribe, e Bruckheimer e o ator Nicolas Cage na recente seqüencia de A Lenda do Tesouro Perdido. Nesses dois sucessos, todos ganharam dinheiro. No entanto, a maioria dos filmes não são grandes sucessos, motivo pelo qual os estúdios gostam de contratos onde há empate. Isso também pode impedir que eles percam tudo. A Sony Pictures teria perdido muito mais com O Amor Não Tira Férias se a roteirista e diretora Nancy Meyers e os astros Cameron Diaz e Jude Law não tivessem concordado em abrir mão da sua parcela usual. A comédia romântica custou mais de US$ 100 milhões e arrecadou apenas US$ 63 milhões nas bilheterias americanas e sua venda de DVDs foi fraca. O Reino da Caveira de Cristal, cujo lançamento mundial será em 22 de maio, é o primeiro filme de Indiana Jones em 19 anos. O quarto filme chega depois de anos de desenvolvimento e várias versões do script. A maioria das franquias cinematográficas, incluindo Harry Potter, Piratas do Caribe e Homem-Aranha, são de propriedade de estúdios. Mas os direitos autorais de Indiana Jones pertencem a George Lucas, que criou a história na década de 1970. Lucas, que também criou Guerra nas Estrelas, é um dos poucos cineastas contemporâneos que controlam suas propriedades cinematográficas. Quando se tornou evidente que o filme ia custar mais do que o esperado, Lucas, Spielberg e Ford concordaram em compensar isso renunciando a seus pagamentos antecipados. O trio e os executivos da Paramount se recusaram a ser entrevistados. No entanto, pessoas familiarizadas com o acordo que está por trás da Caveira de Cristal falaram. Segundo essas pessoas, a Paramount gastou US$ 185 milhões para fazer o filme e gastará no mínimo US$ 150 milhões para comercializá-lo no mundo inteiro. O estúdio ganhará uma taxa de distribuição de 12,5% sobre a receita do lançamento do filme em toda a mídia, incluindo salas de cinema, DVD e televisão. Caveira de Cristal terá que gerar lucros de cerca de US$ 400 milhões para a Paramount para que o estúdio recupere a quantia investida e ganhe sua taxa de distribuição. Somente então Lucas, Spielberg e Ford e participantes com lucros menores, como o roteirista David Koepp, começam a arrecadar sua parte. Daí em diante, a Paramount ficará com 12,5 cents de cada dólar, enquanto Lucas e sua empresa ficarão com 87,5 cents. Na eventualidade de um fracasso de bilheteria, esse acordo deixará os cineastas e os artistas de mãos vazias. A Paramount perderá parte do seu investimento, mas não tanto quando perderia com o acordo convencional com talentos de primeira categoria. Embora a franquia Indiana Jones seja considerada uma das apostas mais certeiras de Hollywood - os primeiros três filmes arrecadaram US$ 1,2 bilhão no mundo inteiro - não há garantia de que a atual geração comparecerá aos montes para ver um herói de 65 anos com chapéu de feltro, espanando a poeira da jaqueta de couro e estalando seu chicote.

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