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'Star Wars': como uma força ajuda o BC americano

Novo filme da série não é o de maior sucesso na história do cinema pois, corrigido pela inflação, arrecadou menos da metade do que o original de 1977; entenda como uma ilusão ajuda a manter a economia aquecida

Binyamin Appelbaum, The New York Times

13 de janeiro de 2016 | 18h24

Este artigo fala de 'Star Wars: O despertar da Força'... e do Federal Reserve. Esperem! Continuem lendo. Uns truquezinhos baratos podem ser divertidos. Até domingo último, 10, o filme havia ganho mais dinheiro do público americano do que qualquer outro na história dos Estados Unidos. Em menos de um mês, sua bilheteria totalizou US$ 812 milhões em território americano.

Trata-se de um recorde. E também de um importante exemplo de ilusão monetária, ou seja, da tendência humana a levar mais a sério os preços nominais do que o valor real. O novo Star Wars não é o filme de maior sucesso da história americana. Corrigido pela inflação, arrecadou cerca da metade do que o original em 1977, segundo o Box Office Mojo. Menos, inclusive, do que o US$ 1,74 bilhão corrigido pela inflação arrecadado pelo verdadeiro campeão, E o vento levou. (Em outras palavras, o dinheiro ganho por "E o vento levou" em 1939 comprava cerca de duas vezes mais mercadorias do que o dinheiro arrecada pelo novo filme de Star Wars.

Entretanto, o recorde nominal impressiona as pessoas por ser mais interessante e importante do que os outros, depois de descontada a inflação. Quando tuitei uma mensagem falando da classificação real no início desta semana, várias pessoas comentaram que eu era um pedante desmancha-prazeres. A Disney, que lançou o filme, está comemorando; a mídia não se cansa de alardear a notícia; e isto provavelmente atrairá um público inclusive maior para Star Wars, porque, afinal, todo mundo adora um vencedor.

A ênfase nos recordes de bilheteria faz com que Hollywood possa mostrar a indústria cinematográfica como um setor em crescimento. Todo grande sucesso é maior do que o anterior, em todos os anos há um recorde no verão. A realidade é que a indústria cinematográfica vendeu cerca de 80 milhões de ingressos numa semana média em 1930, ou 65 ingressos para cada 100 americanos. Em 2015, os cinemas venderam cerca de 23 milhões de ingressos por semana, ou 7 para cada 100 americanos.

Esta ênfase nos recordes nominais faz sucesso porque as pessoas preferem fazer de conta de que o valor do dinheiro se mantém constante. A pesquisa sugere que nós sequer percebemos que quem faz isto somos nós mesmos.

Num estudo de 1997, dois terços dos entrevistados achavam que um trabalhador que recebia um aumento salarial de 5% num período em que inflação era 4% se consideraria mais feliz do que o trabalhador que recebia um aumento de 2% num período de inflação zero.

Ocorre que a ilusão é mais do que um sentimento. O mesmo estudo pediu aos entrevistados que imaginassem que tanto sua renda quanto os preços haviam subido 25% no seis meses anteriores. Cerca de 38% dos entrevistados disseram que seria menos provável que comprassem uma poltrona de couro, que agora custa US$ 500 e não US$ 400, enquanto 43% disseram que seria mais provável que vendessem a mesa, que agora valia US$ 500 e não US$ 400. A inflação não mudou o valor real da poltrona e da mesa, mas mudou as decisões das pessoas.

(Alguns economistas recusam-se a acreditar que as pessoas se deixam enganar pela inflação, ou pelo menos que elas erram numa escala suficiente para afetar os padrões econômicos. Estes economistas preferem acreditar que as pessoas se comportam de maneira racional, convicção que, ironicamente, também é irracional.)

 

E agora vem a parte que vocês esperavam: A ilusão monetária não ajuda somente Hollywood. Ajuda também o Federal Reserve (Fed, o banco central americano).

As pessoas não gostam da inflação. Elas costumam considerá-la uma espécie de roubo. E a confusão causada pela inflação parece mais uma desvantagem. Mas o Fed concluiu que um pouco de inflação é uma coisa positiva. Ela visa a manter os preços subindo cerca de 2% ao ano, e, neste momento, as autoridades do Fed estão realmente preocupadas porque a inflação é insuficiente. Os preços subiram bem menos de 2% em cada um dos últimos três anos.

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A ilusão monetária não ajuda somente Hollywood; ajuda também nas decisões do banco central americano
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Em parte, o Fed quer uma certa inflação simplesmente para evitar a deflação. Em geral, os economistas concordam que um declínio geral dos preços, ou deflação, é mais prejudicial do que um aumento geral, ou inflação. Os consumidores adiam as compras, à espera de preços melhores. O crescimento estagna, os preços caem ainda mais, e pode ser muito difícil romper o ciclo resultante. O Japão tentou durante vinte anos.

As medições padrão da inflação também tendem a superestimá-la, portanto evitar a deflação na realidade exige que ela se mantenha acima de zero. Uma das razões desta tendência pode ser a melhoria tecnológica. O primeiro iPhone foi posto à venda em 2007 por US$ 599, mas logo em seguida o preço caiu significativamente. O iPhone mais recente foi vendido a um preço mais elevado, mas o aumento do preço ignora a enorme melhoria da qualidade. A memória do iPhone mais moderno é duas vezes maior do que a do original; a câmera é melhor; a tela tem maior nitidez; ele tem mais sensores; e há uma infinidade de aplicativos que o tornam uma ferramenta multiuso.

A inflação também aumenta a capacidade do Fed de estimular a economia reduzindo os custos dos empréstimos. Digamos que o juro a curto prazo seja 5% e a inflação esteja em 2% quando a economia despenca no abismo. Se o Fed cortar os juros a zero, enquanto a inflação permanece em 2%, o custo dos empréstimos cairá para 2% negativos, aumentando o impacto do estímulo.

Mas além de tudo isto, acontece que a confusão causada pela inflação - a ilusão monetária - também tem alguns efeitos importantes. Durante as crises econômicas, as empresas costumam relutar em reduzir os salários, adiando o ajuste econômico necessário, porque os trabalhadores odeiam os cortes. A inflação ajuda o remédio a descer. Manter os salários nominais sem alterá-los, ou elevando os salários de maneira mais lenta do que o ritmo da inflação, é uma medida mais aceitável do que a redução gradativa do valor dos salários.

A ilusão monetária ajuda também a reduzir a carga da dívida. Instituições sensatas deveriam indexar os contratos à inflação. Os homens, preocupados com o valor nominal, em geral não fazem isto, e portanto as instituições sofrem porque a inflação corrói as receitas prometidas. Digamos que uma pessoa ganha US$ 50 mil ao ano e faz um empréstimo hipotecário de US$ 300 mil. Os pagamentos implicariam 34% da renda antes do pagamento dos impostos. Agora, digamos que a inflação aumenta os salários 2% ao ano. Depois de dez anos, o mesmo pagamento mensal levaria apenas 28% da renda mensal daquela pessoa. Do mesmo modo, a inflação pode aliviar o ônus da dívida nacional.

Durante os períodos bons, a ilusão monetária ajuda a alimentar o que John Maynard Keynes chamou de "espírito animal". Melhorar as estatísticas econômicas, cria uma aparência de maior prosperidade, e estimula as pessoas a tomarem mais empréstimos, a gastarem mais e arriscarem mais.

Sua mensagem é simples: Entre no nosso jogo, você deve. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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