JF Diório/Estadão
Sede do Nubank, em São Paulo JF Diório/Estadão

Conheça as startups brasileiras que estão ganhando o mundo

Nova leva de empresas já nasce com o DNA internacional, caso da gaúcha Rocket Chat e da curitibana Pipefy; unicórnios como Nubank e Gympass ultrapassam fronteiras para aumentar ritmo de expansão

Renée Pereira, O Estado de S.Paulo

05 de setembro de 2019 | 09h00

Criada em Porto Alegre, a plataforma de comunicação Rocket Chat precisou de menos de um dia para atrair 30 mil pessoas no mundo todo. A empresa, que nasceu de olho no mercado interno, descobriu que a demanda estava no exterior e, em quatro anos de existência, tem seus produtos comercializados em 150 países. A curitibana Pipefy, uma plataforma de gestão de processos, ganhou seus primeiros clientes internacionais nos primeiros dias de criação e hoje tem sua marca em 156 nações.

O caminho seguido pelas duas empresas faz parte da estratégia de uma nova leva de startups que já nasce com o DNA global. Elas são desenhadas e estruturadas para explorar o mercado mundial, seja a partir do primeiro dia de fundação ou de uma forma gradual, com o amadurecimento da empresa. Essas companhias representam, na avaliação de especialistas, uma nova cultura do empreendedorismo brasileiro, que durante anos apostou apenas no mercado doméstico.

Rocket Chat: 'No dia seguinte já tinha 30 mil pessoas olhando o site'

Pipefy: A provocação que virou negócio global

A mudança se deve, em especial,  ao apoio financeiro de grandes fundos de investimentos, que elegeram o Brasil como o principal mercado na América Latina. “Antes era muito difícil conseguir dinheiro para esse modelo de negócios. Ninguém investia. Hoje, o cenário é diferente”, diz o sócio da gestora Redpoint eventures, Romero Rodrigues, fundador do Buscapé. 

Gympass: 'A internacionalização era um caminho natural'

O movimento está apenas no início e deve continuar em ascensão, sobretudo com o surgimento de no Brsail de novos "unicórnios"  – empresas que alcançam a marca de US$ 1 bilhão em valor de mercado. A cada empresa que entra para esse grupo de companhias bilionárias, mais dinheiro chega para o universo de startups, que já conta com sete unicórnios – Nubank, Movile, Stone, 99, PagSeguro, Gympass e Loggy. É um ciclo virtuoso que ajuda na expansão das empresas.

Resultados Digitais: 'Desde o início estava claro que havia oportunidades não só no Brasil'

Um exemplo é a Gympass, que recebeu aporte de US$ 300 milhões em junho e usará parte dos recursos na expansão internacional. Criada em 2012, a plataforma de assinatura de acesso a academias já está em 14 países e quer acelerar sua presença global. “Decidimos iniciar a internacionalização quando vimos que os clientes brasileiros já estavam satisfeitos”, diz o vice-presidente da empresa, Juliano Ballarotti.

Nubank: 'Podíamos ficar só no Brasil, mas temos ambições'

Mudança de cultura sobre negócios globais

Na avaliação de especialistas, o País demorou para entrar nesse movimento de internacionalização por causa do tamanho de seu mercado. “Ao contrário de Israel, Argentina e Colômbia, o Brasil tem um mercado interno muito forte e grande; então, é natural que os empreendedores foquem suas atenções aqui e deixem o ambiente internacional de lado”, afirma Michael Nicklas, sócio da empres de investimentos Valor Capital.

Mas, de uns tempos para cá, destaca Nicklas, essa visão tem mudado rapidamente. “Há uma impressão de que, se não correr, alguém pode pegar a ideia e dominar o mercado”, resume o executivo, cuja gestora – criada pelo ex-embaixador dos Estados Unidos no Brasil Clifford Sobel – já investiu em 30 startups no País. 

Foi com esse pensamento que o banco digital Nubank anunciou, em maio, a abertura de uma subsidiária no México e, em junho, comunicou sua chegada à Argentina a partir do ano que vem. “Poderíamos ficar só no Brasil, mas temos grandes ambições”, diz o fundador da empresa, David Velez. 

Ele afirma que a internacionalização do banco seguiu alguns cuidados. Primeiro, ela deveria ocorrer no momento certo, quando a operação estivesse sólida, gerando caixa e numa curva firme de crescimento. No México, diz ele, a oportunidade é maior que no Brasil, uma vez que a penetração de cartão de crédito é de apenas 10% e a desbancarização, de 70%.

“Vemos uma postura bem diferente daquela do passado, e um dos motivos é que o ecossistema das startups está muito bem desenhado”, diz Romero Rodrigues.  Para ele, não existe uma receita de bolo. Mas a internacionalização depende muito do modelo de negócios. Como a Pipefy e a Rocket Chat, a solução desenvolvida pela catarinense Resultados Digitais tem tido forte demanda no mercado global.

A empresa criou uma plataforma de marketing digital voltada para pequenas e médias empresas e já conquistou 13 mil clientes em 20 países diferentes. A demanda levou a empresa a abrir escritórios em Bogotá (Colômbia), Cidade do México e São Francisco (EUA). “Queremos capturar a oportunidade de ser o primeiro a chegar em algum mercado, mas não queremos confundir pressa com velocidade”, diz a vice-presidente da empresa, Juliana Tubino.

A chefe de startups e ecossistema do Cubo, centro de inovação do Itaú, Renata Zanuto, concorda com Juliana: “A internacionalização é um movimento natural das empresas, uma nova tendência, mas, para dominar um mercado, é preciso dominar direito para não ficar no meio do caminho”.

Tudo o que sabemos sobre:
startupNubankRocket ChatPipefy

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

'No dia seguinte já tinha 30 mil pessoas olhando o site'

Plataforma de código aberto, uma espécie de WhatsApp interno de empresas, Rocket Chat está presente em 150 países

Renée Pereira, O Estado de S.Paulo

05 de setembro de 2019 | 09h00

Quando o empreendedor Gabriel Engel decidiu criar uma plataforma de comunicação, a ideia era atender as inquietações dos clientes de sua empresa no Brasil. Mas, antes mesmo do lançamento oficial, a plataforma já era sucesso no mercado internacional. Assim que o produto ficou pronto, em 2015, eles colocaram um link num fórum de discussão e, no dia seguinte, já havia 30 mil pessoas olhando o site da Rocket Chat – uma plataforma de código aberto que permite ao usuário personalizar a página conforme suas necessidades.

Com sede em Porto Alegre, a empresa tem clientes em 150 países e conta com colaboradores em sete deles. Os maiores mercados são Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra e França. Hoje o Brasil é apenas o 16º mercado da Rocket Chat, que funciona como uma espécie de WhatsApp interno das empresas. “Fizemos o produto de olho nos clientes brasileiros, mas a demanda era externa”, afirma Engel.

Num primeiro momento a plataforma tinha apenas uma versão gratuita. Era necessário investir em designer e desenvolvimento para iniciar a comercialização do produto. Foi aí que o empreendedor decidiu aceitar um aporte de US$ 5 milhões do fundo de investimentos americano New Enterprise Associates (NEA) e há um ano começou a cobrar pelos serviços. 

Atualmente tem 350 grandes empresas pagantes, como Intel, Samsung, Audi, Mercedes e Caixa Econômica Federal. Essas companhias pagam licença para usar um produto mais elaborado. O mercado a ser explorado está apenas no início, afirma Engel. 

Recentemente, a Rocket Chat recebeu outro aporte: desta vez de US$ 3 milhões dos fundos brasileiros Monashees, DGF e ONEVC. “Crescemos muito no exterior e ficamos meio órfãos do Brasil. Então decidimos abrir para capital nacional.”

Tudo o que sabemos sobre:
startupRocket Chat

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

A provocação que virou negócio global

Pipefy foi desenhada para ser global desde o primeiro dia de criação e hoje tem clientes em 156 países

Renée Pereira, O Estado de S.Paulo

05 de setembro de 2019 | 09h00

A decisão de criar uma empresa global surgiu de uma provocação feita por um executivo israelense durante um jantar em Telaviv (Israel), no começo de 2014. “Ele me perguntou qual era a empresa brasileira líder global em seu segmento e eu não soube responder”, lembra o curitibano Alessio Alionço, fundador da Pipefy – uma plataforma de gestão de processos que ajuda a reduzir as ineficiências das empresas no dia-a-dia.

Alionço conta que saiu do jantar com outra forma de pensar sobre os negócios. “Para ele, os brasileiros focam no País achando que é um mercado grande e seguro, mas enquanto isso o mundo anda muito mais rápido e a competição não respeita mais fronteiras”, diz o empreendedor. 

“A partir daquela noite ficou claro para mim que meu próximo negócio seria global desde o primeiro dia de funcionamento.” De volta ao Brasil, decidiu se empenhar na criação de um produto que pudesse mudar a ideia do executivo israelense. Alionço tinha vendido sua primeira empresa em 2012 e, desde então, buscava um novo desafio.

Foi aí que começou a desenhar a Pipefy, hoje presente em 156 países. “Lembrava das dificuldades enfrentadas na minha empresa, com a burocracia e a demora para fazer qualquer mudança; aquilo era muito frustrante”, diz o empreendedor. A Pipefy nasceu como uma ferramenta para “empoderar” o gestor e permitir que ele faça suas próprias configurações de acordo com seu negócio, diz Alionço. 

Com uma equipe de três pessoas, incluindo Alionço, a plataforma ficou pronta em abril de 2015, depois de quase um ano de desenvolvimento. Hoje a empresa, que já recebeu US$ 65 milhões de aportes de fundos de investimentos, tem 60 mil usuários, sendo 1.700 pagantes. “Metade do nosso faturamento é do Brasil e a outra metade do exterior. Atualmente, estamos 100% focado no mercado americano”, diz Alionço, cuja empresa tem sede em Curitiba e unidades em São Francisco, na Califórnia, e Austin, no Texas.

Tudo o que sabemos sobre:
startupPipefy

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

'A internacionalização era um caminho natural'

Gympass, plataforma de acesso a academias, estreou no mercado externo em 2015, no México

Renée Pereira, O Estado de S.Paulo

05 de setembro de 2019 | 09h00

A Gympass, plataforma de assinatura de acesso a academias, começou seu programa de internacionalização em 2015, três anos depois de sua criação. “Decidimos explorar o mercado externo quando vimos que nossos clientes brasileiros estavam satisfeitos”, diz o vice-presidente da companhia, Juliano Ballarotti. “Mas nosso produto, como tem aplicação global, era natural fazermos esse movimento.”

A escalada da empresa no mercado internacional foi rápida. Em 2015, a empresa estreou no México. No ano seguinte, já havia entrado na Espanha, França, Itália e alguns países do oeste europeu. Tudo isso foi a preparação para a empresa chegar aos Estados Unidos, mercado considerado mais exigente. A estreia no mercado americano ocorreu em 2017 junto com outros países da América Latina, como Chile e Argentina.

Hoje a empresa está presente em 14 países, com 48.200 academias – sendo 21.500 no Brasil e 26 mil, no exterior. Outros mercados estão sendo analisados pela empresa, que em junho deste ano se tornou um novo unicórnio brasileiro (empresa que alcança US$ 1 bilhão em valor de mercado). A Ásia está no radar da companhia, pelo tamanho da população, diz Ballarotti.

“Nesse processo, fomos nos preparando e agora sabemos como entrar em novos países. Cada vez conseguimos treinar melhor nossos executivos para passar a cultura da Gympass”, completa o executivo. Ele destaca, entretanto, que é preciso entender que em todos os mercado em que a empresa está ainda há muito o que fazer. 

Segundo Ballarotti, no Brasil, apenas 5% da população faz atividade física monitorada. Em outros países, completa o executivo, esse porcentual está entre 10% e 15%. “No Brasil, ainda há muito o que conquistar.”

Tudo o que sabemos sobre:
startupacademia de ginásticaGympass

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

'Desde o início estava claro que havia oportunidades não só no Brasil'

Para vice-presidente da Resultados Digitais, Juliana Tubino, empresa tem crescido exponencialmente nos últimos anos

Renée Pereira, O Estado de S.Paulo

05 de setembro de 2019 | 09h00

O processo de internacionalização da Resultados Digitais, plataforma de marketing voltada para pequenas e médias empresas, começou no ano passado e já representa 5% do faturamento da empresa. Criada em 2011, a startup nasceu das dificuldades que o sócio Eric Santos teve para promover uma outra empresa que no passado devido aos altos custos e ineficiências do marketing tradicional.

“Desde o início estava claro que havia uma oportunidade de negócios não só no Brasil como em outros países”, destaca a vice-presidente da empresa, Juliana Tubino. Candidata a ser o novo unicórnio brasileiro, a empresa tem crescido exponencialmente nos últimos anos e atraído a atenção dos fundos de venture capital. 

Em meados do mês passado, a Resultados Digitais recebeu um aporte de R$ 200 milhões, liderado pelo fundo Riverwood Capital e acompanhada pelos demais investidores da empresa TPG Growth, Redpoint eventures, Astella, DGF e Endeavor Catalyst. Boa parte do dinheiro será usada para acelerar o processo de internacionalização da empresa, que tem o objetivo de ser a plataforma líder de crescimento para médias e pequenas empresas em mercado emergentes.

Em 2018, a empresa iniciou sua expansão geográfica e, além de abrir escritórios em Joinville (SC) e São Paulo, também estabeleceu as primeiras bases na Colômbia e no México, países-chave para a expansão regional. Com sede em Florianópolis (SC), a startup também tem escritórios em São Francisco (EUA). No total, são 13 mil clientes em 20 países.

Segundo Juliana, Portugal e Espanha também estão no radar da empresa para os próximos anos. “Nosso objetivo é conseguir elevar de 5% para 20% a participação do mercado internacional no faturamento da empresa até o ano que vem.”

Tudo o que sabemos sobre:
startupResultados Digitaismarketing

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

'Podíamos ficar só no Brasil, mas temos ambições'

David Velez, fundador do Nubank, diz que depois de México, Argentina deve receber o banco digital

Renée Pereira, O Estado de S.Paulo

05 de setembro de 2019 | 09h00

“Desde o começo queria internacionalizar a empresa, mas tinha de ser no momento certo”, afirma o presidente do Nubank, David Velez, que anunciou em maio deste ano seu processo de expansão no exterior. O país escolhido pelo banco digital para inaugurar a estratégia foi o México, com o lançamento de um cartão de crédito internacional, sem anuidade.

Segundo Velez, a decisão de ampliar os negócios no exterior foi tomada no fim do ano passado e, além do México,  incluiu a Argentina. “Embora fosse uma vontade nossa, tínhamos em mente que a internacionalização ocorreria apenas quando a operação estivesse sólida no Brasil, gerando caixa e com uma curva de crescimento forte”, diz ele.

A escolha do México para lançar o programa de internacionalização se deve ao tamanho do mercado potencial do país, que pode ser maior que o do Brasil. Velez afirma que a penetração de cartão de crédito no mercado mexicano é de 10%, ante 40% no mercado brasileiro. “Além disso, a desbancarização é de 70% lá e, aqui, de 40%.”

O fundador do Nubank afirma que a instituição poderia não se internacionalizar e continuar só explorando o mercado brasileiro, que ainda tem muito para crescer. “Mas temos grandes ambições.” Ele afirma, no entanto, que a expansão será gradativa. Depois do México, a Argentina será o próximo destino do banco digital. A expectativa é que a instituição aterrisse no país vizinho no começo do ano que vem, diz Velez.

Tudo o que sabemos sobre:
startupNubankbanco digital

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.