Hélvio Romero/Estadão
Fundador da Cyrela, Elie Horn se dedica a investimentos em inovação. Hélvio Romero/Estadão

Startups entram no radar da velha economia

Com a queda dos juros para o menor nível da história, empresários de setores tradicionais investem em inovação para diversificar patrimônio

Renée Pereira, O Estado de S. Paulo

07 de julho de 2019 | 05h00

Donos de negócios bem-sucedidos, empresários da chamada velha economia estão cada vez mais próximos do dinâmico mundo das startups. Hoje, nomes como Elie Horn (Cyrela), Horácio Lafer Piva (Klabin) e Guilherme Weege (Malwee) dedicam tempo e dinheiro para encontrar ideias inovadoras e disruptivas que possam melhorar a eficiência de suas empresas e, sobretudo, multiplicar suas fortunas.

Com a queda da taxa de juros ao menor patamar da história (6,5% ao ano), esses empresários têm sido obrigados a buscar alternativas para remunerar o dinheiro que estava aplicado em títulos públicos. Nesse caminho, encontraram nas startups – ou nos fundos de investimentos que aplicam em empresas iniciantes – uma opção interessante para colocar parte, ainda pequena, de seus patrimônios.

A modalidade de investimento caiu nas graças dos executivos depois que os primeiros unicórnios – empresas que batem a marca de US$ 1 bilhão em valor de mercado – começaram a surgir no Brasil, a exemplo de Nubank, Stone, Movile, 99, PagSeguro e Gympass. Até então, quase todo o dinheiro dos fundos que investem em startups no Brasil era captado no exterior. Ao mesmo tempo, famílias brasileiras acabavam buscando no mercado internacional startups e fundos para investirem. 

É o caso do empresário Elie Horn, fundador da Cyrela, uma das maiores incorporadoras do Brasil. Ele já doou 60% de sua fortuna para causas sociais e, há dois anos, investe em fundos no exterior. Com patrimônio pessoal estimado em US$ 1 bilhão pela revista Forbes, o executivo decidiu colocar dinheiro nos fundos brasileiros há seis meses. “Quando os juros caem, tudo melhora”, diz, justificando a aplicação no mercado nacional.

Aos 74 anos, o empresário deixa claro que a opção de investimento é uma necessidade nesse ambiente “nervoso e de grandes transformações”. “Se você não entra, fica de fora desse novo mundo. E eu sou curioso, detesto ficar alheio às coisas, gosto de novidades”, afirma o empresário, destacando que a Cyrela também investe em startups ligadas a negócios imobiliários, como a CashMe, de crédito.

“Esses investimentos vão crescer muito nos próximos anos, seja pela queda dos juros ou pelo que o mundo vem oferecendo em projetos instigantes”, afirma o empresário Horácio Lafer Piva, presidente do conselho da Klabin, que acaba de estrear nesse mercado. Em abril, ele e um grupo de executivos investiram US$ 5 milhões na Brain4care, criada pelo físico-químico brasileiro Sergio Mascarenhas. A empresa desenvolveu um dispositivo capaz de medir a pressão intracraniana de forma não invasiva.

“Tenho um foco patrimonial na empresa, de cujo grupo de controle participo, que é a Klabin. Olhava oportunidades sem maior interesse, até que a Brain4care me foi apresentada. Vi que o negócio mostrava um desenvolvimento disruptivo. Parecia um caminho natural”, diz Piva. Ele afirma que tem interesse nas áreas de educação, saúde, infraestrutura e agronegócio, mas desde que o componente social, de inovação e de tecnologia estejam presentes. 

Gestoras

De olho nesse mercado, as famílias Sirotsky, da RBS, e Szajman, do Grupo VR, criaram uma gestora para investir em startups. Pedro Sirotsky Melzer, cofundador e presidente da e.bricks Ventures, já havia tido experiência com esse mercado de fundos de venture capital nos Estados Unidos e tinha vontade de adotar o modelo no Brasil. 

O primeiro fundo, de R$ 100 milhões, foi captado em 2013, com as duas famílias e vários executivos brasileiros. Nessa primeira empreitada a gestora investiu em 16 empresas. O segundo fundo, de R$ 200 milhões, veio num momento em que as startups começavam a decolar – 13 empresas já foram escolhidas. “Houve um somatório de coisas ocorrendo: a taxa de juros caiu, a qualidade dos empreendedores aumentou e o fluxo de capital para esses ativos cresceu mais de dez vezes nos últimos oito anos”, diz Melzer. 

Mesma estratégia foi adotada pela família Bueno, ex-dona da Amil. Pedro Bueno, presidente da rede de laboratórios Dasa, criou a DNA Capital, que investe em empresas mais maduras e em estágio inicial, na área de saúde. O primeiro investidor foi o pai, Edson Bueno, que morreu em 2017 e deixou uma fortuna de cerca de R$ 8 bilhões. Até agora, seis startups receberam dinheiro do fundo.

Encontrou algum erro? Entre em contato

'A vontade é dizer sim para várias iniciativas', diz presidente da Malwee

Capitalizado com a venda de alguns negócios, presidente da Malwee investiu parte da fortuna da família em fundos de venture capital e em startups

Renée Pereira, O Estado de S. Paulo

07 de julho de 2019 | 05h00

Quando assumiu os negócios da família, em 2007, Guilherme Weege tinha 27 anos e três objetivos na cabeça: expandir a empresa, diversificar os negócios e sofisticar os investimentos. Doze anos depois e com o grupo Malwee – tradicional indústria de vestuário – prestes a comemorar 50 anos, ele continua ávido por novidades e por novos projetos, seja para melhorar o desempenho da companhia – criada pelo avô em Jaraguá do Sul (SC) – ou para manter a fortuna da família.

Nesse tempo, ele vendeu fatia de 50% na cervejaria Eisenbahn e criou uma empresa de geração de energia eólica que foi incorporada pelo grupo CPFL. Weege se tornou acionista da empresa, vendida em 2018 para a State Grid, numa das maiores transações do País. Capitalizado, o empresário saiu em busca de novas alternativas de investimento. Parte dos recursos – hoje gerido por um family office (estrutura que dá assessoria para famílias com alto patrimônio) – foi então destinada às startups.

Weege investiu no novo fundo de venture capital da RedPoint, de Anderson Thees, Manoel Lemos e Romero Rodrigues, fundador do Buscapé. Ele afirma ter aplicado cerca de 10% do valor captado pelo RedPoint no mercado. Os valores não são divulgados, mas calcula-se que o fundo captou mais de US$ 200 milhões. Além disso, aplicou diretamente em seis startups.

Entre as empresas que ele investiu estão a Ribon, plataforma que centraliza doações; a Infracommerce, startup de soluções para comércio eletrônico que tem 750 funcionários e é vista como um futuro unicórnio; e a Vuxx, rede de motoristas de carga em áreas urbanas. “Como executivo, a vontade é dizer sim para várias iniciativas. Mas, como investidor, é preciso avaliar melhor o modelo de negócio.”

Notícias relacionadas
    Tudo o que sabemos sobre:
    comércio eletrônicoinvestimento

    Encontrou algum erro? Entre em contato

    Fundos começam a captar recursos no Brasil

    Famílias endinheiradas têm sido alvos de fundos de capital de risco no País; tradicionalmente, eles buscavam recursos no exterior

    Reneé Pereira, O Estado de S. Paulo

    07 de julho de 2019 | 05h00

    Especializados em garimpar ideias que podem virar negócios bilionários, os fundos de venture capital sempre buscaram recursos no exterior para investir nas startups brasileiras. Mas esse movimento começa a mudar. Com a queda da taxa de juros, famílias endinheiradas têm buscado novas alternativas para remunerar suas fortunas, e os fundos estão nesse caminho.

     

    Embora alguns invistam diretamente nas empresas, a maioria prefere entrar num fundo e diluir os riscos. Com maior apetite ao risco, essas carteiras investem quantias entre R$ 100 mil e R$ 300 milhões em várias empresas ao mesmo tempo. Eles sabem que a maior parte delas vai ficar pelo meio do caminho, mas aquelas que “vingarem” vão compensar os fracassos. A venda da 99 para a chinesa Didi, por exemplo, rendeu a investidores retorno 60 vezes o montante aplicado. O valor do negócio foi de quase US$ 1 bilhão.

     

    “O que tem ocorrido nesse mercado é como jogar na Mega Sena quando o valor está alto. Quanto mais unicórnios aparecem, mais os investidores se interessam”, afirma o sócio e chefe do XP Private, Beny Podlubny. A taxa de juros mais baixa é o pontapé para esse movimento, mas o fator psicológico também conta. Ninguém quer ficar fora dessa onda que está no mundo inteiro. “O fato é que apesar da euforia esse mercado veio para ficar e tem muito para crescer no Brasil”, diz o executivo.

     

    Exemplo disso, está na proliferação dos fundos de venture capital. Só no ano passado, eles investiram US$ 1,3 bilhão no Brasil: volume 51% superior ao de 2017, segundo dados da Associação Latino-americana de Private Equity e Venture Capital (Lavca, na sigla em inglês). Nos Estados Unidos, Israel e China, esse mercado está muito mais avançado. 

     

    Nos últimos anos, o BTG, por exemplo, fez viagens de imersão para investidores conhecerem como funcionam esses investimentos no resto do mundo. “Era uma forma de trazer mais informação e dar conforto para os investidores atuarem nesses ativos”, afirma Luciano Juaçaba, diretor executivo do Wealth Management do BTG Pactual. Ele conta, no entanto, que além dos juros baixos, a nova geração de famílias tradicionais tem trazido “frescor” para a diversificação dos investimentos.

     

    “Outro aspecto importante é que tem surgido no Brasil uma classe de gestores bem qualificados”, completa ele. Na lista, estão monashees e Redpoint eVenture. Em ambos os casos, os gestores têm recebido grande demanda do investidor nacional. Esse apetite tem chamado a atenção de novos entrantes nesse segmento.

     

    A Crescera, ex-Bozano Investimentos, que fez a gestão de um fundo de venture capital do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), decidiu para explorar esse mercado e atender a demanda de seus clientes. O novo fundo deverá investir na chamada série B, que envolve empresas um pouco mais maduras. A expectativa é captar entre R$ 300 milhões e R$ 400 milhões, sendo cerca de 70% no Brasil e 30%, no exterior.

     

    “O setor está no despertar do venture capital no País. Durante muitos  anos foi mais vantajoso deixar o dinheiro rendendo na renda fixa”, diz Fernando Silva, sócio de venture capital da Crescera. Agora os Family office (que fazem a assessoria para famílias endinheiradas) estão tendo de assumir um pouco mais de risco e estão ávidos por novos serviços, completa. 

     

    Alexandre Pierantoni, diretor da consultoria Duff & Phelps no Brasil, confirma que tem visto muitas famílias, empresários e executivos em busca de investimentos de risco por causa da redução da taxa de juros. Nesse grupo também estão empresários que venderam seus negócios e estão atrás de novos desafios. “Todos querem achar o próximo unicórnio brasileiro”, diz ele. 

     

    Pedro Englert, presidente da StartSe, plataforma de apoio as startups, tem a mesma percepção. Tanto que ele próprio investe em startups. Começou aplicando em empresas de setores variados. “Fiquei quase no zero a zero. Agora, com os investimentos em empresas do setor financeiro, estou tendo mais sucesso”, diz ele, que tem 15% de sua carteira de investimentos alocada em startup. Ele afirma que, desde o ano passado, tem percebido uma entrada mais forte de dinheiro dos family office. “Eles estão vendo um mercado mais consistente e maduro.” 

     

     Mas o diretor da Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital (Abvcap), Humberto Matsuda, afirma que apenas os Family office mais sofisticados tem investido nesse setor. Ou seja, é gigantesco o potencial desse mercado no Brasil. Segundo ele, no mundo, o mercado de ativos alternativos, que inclui os fundos de venture capital, private equity e hedge fund (também conhecidos no Brasil como multimercados), deve crescer de US$ 8 trilhões para US$ 14 trilhões em 2023.

    Encontrou algum erro? Entre em contato

    O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.