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Fruto buriti vira óleo essencial vendido pela Amazônia Hub Divulgação/Idesam

Startups ‘verdes’ crescem com novos canais de vendas

Empresas que comercializam produtos feitos de forma sustentável com matéria-prima da floresta amazônica se aliam ao e-commerce

Cleide Silva, O Estado de S. Paulo

25 de abril de 2021 | 05h00

Startups que produzem e comercializam produtos feitos de forma sustentável com matérias-primas da floresta amazônica estão conseguindo manter os negócios na pandemia, mas tiveram de buscar novos canais de venda, em especial as grandes plataformas de e-commerce, e investir em campanhas de marketing.

O segmento também tem atraído novos consumidores que viram na compra de produtos uma forma de ajudar no desenvolvimento econômico da região amazônica sem ter de derrubar a floresta. A eclosão recente do “consumo mais consciente” surgiu após a repercussão das queimadas na Amazônia e da tragédia provocada em Manaus (AM) pela covid-19.

De 12 startups acompanhadas pela recém-criada AMAZ Aceleradora de Impacto, coordenada pelo Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (Idesam), cinco aumentaram o faturamento na pandemia, quatro ficaram estagnadas e três registraram queda. Desse grupo, cinco ampliaram o quadro de funcionários e oito lançaram novos produtos.

O faturamento conjunto do grupo cresceu 5%, para R$ 1,664 milhão nos três meses encerrados em fevereiro na comparação com os três meses anteriores, período em que o grupo começou a participar das vendas virtuais. Entre as empresas que tiveram desempenho melhor a partir do fim de 2020, o crescimento variou de 36% a 88%.

A AMAZ é uma evolução da Plataforma Parceiros pela Amazônia (PPA), criada para fomentar novos modelos de desenvolvimento sustentável na Amazônia. Os produtos desenvolvidos pelas startups utilizam produtos e serviços das comunidades de ribeirinhos, indígenas, quilombolas e agricultores familiares da região, sempre com manejo que mantém a floresta ou recupera áreas desmatadas.

Negociação coletiva

Após registrarem drástica queda nos negócios nos primeiros meses da pandemia, as empresas receberam assessoria e apoio financeiro do Idesam e da Climate Ventures sobre como atuar no e-commerce, seja com canal próprio de venda online ou por meio de grandes plataformas.

Também houve negociação coletiva com operadores logísticos para transportar os produtos e com centros logísticos em São Paulo para estocar e distribuir as compras online, principalmente para cidades do Sudeste e do Sul. Outra iniciativa foi uma campanha de marketing iniciada em setembro, com o mote “Amazônia em casa, floresta em pé”.

Mariano Cenamo, engenheiro florestal e coordenador da AMAZ, afirma que, diante da sensibilização em relação à Amazônia, foi identificado que muitas pessoas queriam ajudar. A ideia da campanha, que mobilizou artistas e influenciadores digitais como Bela Gil, era conectar os consumidores com os produtos da Amazônia.

“Muitas pessoas não se dispõem a entender como funciona o movimento de filantropia ou fazer doações, mas consumir todo mundo sabe; e poder utilizar seu poder de compra para ajudar é uma ação muito simples”, diz Cenamo. Ele acredita que quando o consumidor vê a possibilidade de adquirir um produto gostoso, bonito, de qualidade e ainda fazer o bem para a Amazônia, a tendência é de bons resultados e de o movimento crescer. Resultados preliminares do primeiro trimestre do ano mostram que os negócios seguem em alta.

Joanna Martins, sócia da Manioca, empresa de Belém (PA) que desenvolve e comercializa produtos da gastronomia típica do Pará, concorda que muitas pessoas passaram a se interessar pelos produtos da região porque entenderam que para manter a floresta em pé é preciso gerar o desenvolvimento econômico da região. “Através da compra, a pessoa está gerando emprego, renda e ajudando o meio ambiente”, diz ela.

Outro grupo de 12 startups, das quais três são acompanhadas pelo Idesam, se uniu e colocou seus produtos no Mercado Livre, maior plataforma de vendas on-line da América Latina. Embora já tivesse uma divisão para produtos sustentáveis, com mais de 5 mil empreendedores, a empresa criou um banner específico para as mercadorias da Amazônia.

Segundo Laura Motta, gerente de sustentabilidade do Mercado Livre, os produtos vendidos pelas startups - chocolates, café, artesanatos e alimentos diversos - beneficiam indiretamente cerca de 60 comunidades. “Desde maio de 2020 já foram vendidos mais de 6,5 mil itens”, diz.

Mais itens da bioeconomia

As empresas utilizam o centro de distribuição do Mercado Livre, que armazena e entrega os produtos, assim como oferece capacitação para que atuem com vendas digitais. A plataforma também aplica 30% de desconto no valor da comissão cobrada pelas vendas das startups da Amazônia.

“Apoiar esses empreendimentos na comercialização e na logística é apoiar um novo modelo de desenvolvimento da região, a geração de renda pelas comunidades, a conservação florestal; também ajuda a viabilizar esses modos de vida e as cadeias produtivas sustentáveis”, afirma Laura.

Na sexta-feira, 30, o Mercado Livre fará nova convocatória para outros negócios que queiram participar de um programa de capacitação para acelerar vendas de empreendimentos da biodiversidade. A ideia é ampliar a oferta de produtos da bioeconomia da Amazônia e incluir itens do Cerrado e da Mata Atlântica na categoria de sustentáveis.

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Venda de mel da Peabiru é feita online e vendas saltaram

Feito com mel de abelhas sem ferrão, o principal produto da Peabiru é vendido online por causa da pandemia

Cleide Silva, O Estado de S. Paulo

25 de abril de 2021 | 05h00

Até o início do ano passado, as vendas da Peabiru Produtos da Floresta, com sede em Belém (PA), eram feitas na loja própria da startup na capital paraense e alguns clientes que faziam encomendas pelo correio. Com a pandemia, a loja ficou fechada quase todo o ano passado e a empresa teve de acelerar o projeto de vendas pelo e-commerce, que estava nos planos futuros.

Hoje, 70% dos negócios do principal produto da Peabiru, o mel de abelhas sem ferrão, é feito online, principalmente pela plataforma do Mercado Livre. O mel é colhido por mais de 100 famílias de sete comunidades tradicionais (como agricultores familiares, quilombolas e ribeirinhos) do Pará e Amazonas.

Hermógenes de Sá, administrador da Peabiru, explica que as abelha sem ferrão (conhecidas como jataí, uruçu ou mandaçaia) são nativas da Amazônia e seu mel é mais aquoso e menos doce que o de abelhas com ferrão, comumente encontrado no mercado.

Segundo ele, o mel é coletado pelos produtores e levado a Belém, onde é desidratado, analisado por um laboratório e envasado em potes de 150 mg e 300 mg. A partir deste ano as embalagens ganharam uma tag de rastreabilidade, que indica a origem do produto.  

A maior parte do produto é enviada a um centro de distribuição em São Paulo.

No ano passado foram produzidos 500 quilos do mel e a previsão é ampliar o volume neste ano e tentar atingir os resultados de 2019, quando de 1,2 toneladas do produto. A empresa é o braço comercial do Instituto Peabiru, que trabalha com povos tradicionais da floresta apoiando projetos socioambientais.

“A Peabiru Produtos da Floresta foi criada em 2018 para estabelecer uma ponte entre os produtos de comunidades da Amazônia e o mercado consumidor”, explica Sá. Ele também é diretor executivo do Instituto, responsável pela assistência técnica e capacitação dos produtores do mel, que tem o Selo de Inspeção Federal (SIF).

Antes, o mel ficava praticamente na região, vendido a moradores e pequenos mercados pois era difícil para os produtores ampliar e escoar a produção.

O Instituto Peabiru ajudou os produtores na ampliação das bases matrizes, equivalentes a colmeias, mas feitas em madeira de longa durabilidade. “Para nós, pasto de abelhas é floresta em pé e pasto de gado é floresta derrubada”, diz Sá.

O braço de vendas passou a oferecer o mel pelo Mercado Livre em meados de 2020, o que ajudou a dar um salto importante nas vendas a partir deste ano, afirma Sá. Hoje o mel de abelha sem ferrão chega aos Estados de São Paulo, Bahia, Rio de Janeiro, Porto Alegre e no Distrito Federal, além de Amazonas e Pará.

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Amazônia Hub junta 17 startups sustentáveis do Brasil

Startup tem como principal objetivo divulgar os produtos amazônicos poucos conhecidos

Cleide Silva, O Estado de S. Paulo

25 de abril de 2021 | 05h00

Criada há menos de dois anos pelo administrador de empresas gaúcho Matheus Pedroso, de 29 anos, a Amazônia Hub tem como principal objetivo divulgar produtos da Amazônia que, segundo ele, são poucos conhecidos pelos próprios.

Também se propõe a ajudar nos gargalos enfrentados por produtores da região, como logística e acesso aos grandes mercados consumidores. Hoje o grupo busca um investidor para poder ampliar sua atuação.

A Amazônia Hub reúne, por enquanto, 17 startups de negócios de impacto, das quais 12 já vendem seus produtos em sua loja virtual. Todas as mercadorias são enviadas para São Paulo, e de lá passa por verificação, recebe código de barras e é distribuída.

A empresa também se encarrega do marketing, da integração e com outras plataformas de e-commerce. Atualmente a média mensal de vendas é R$ 15 mil e R$ 20 mil.

Todos os fornecedores da Amazônia Hub são da região e operam com matérias primas da biodiversidade. Com a pandemia que chegou cinco meses após a criação da empresa, os parceiros da Amazônia Hub tiveram de aprender a mexer com sistemas, utilizar redes sociais para vendas e até mesmo usar uma conta bancária. “A pandemia fez com que a transição para o digital fosse acelerada”, afirma Pedroso.

A plataforma oferece produtos de fabricantes do Amazonas, Mato Grosso e Pará, entre os quais chocolates, temperos, castanhas, mel, sucos desidratados, farinhas, geleias, café e cosméticos, todos desenvolvidos com matéria-prima natural.

Usinas para processar óleo

Outro trabalho desenvolvido em parceria com institutos locais é o treinamento e a instalação de usinas de processamento de óleos em comunidades que antes vendiam apenas a matéria-prima para beneficiamento, como andiroba e copaíba.

“Vimos que muitas associações tinham potencial para produção extrativista, mas só vendiam a matéria-prima em larga quantidade, sem muita qualidade, sem agregação de valor, e o preço que recebiam era baixíssimo”, diz Pedroso.

A Amazônia Hub recebe hoje óleos essenciais utilizados na produção de cosméticos, em tratamentos da pele, massagens e como incenso de quatro cooperativas que reúnem mais de mil ribeirinhos.

Estão à venda, por exemplo, óleo de andiroba (para cicatrização e anti-inflamatório), óleo de café (ajuda na produção de colágeno), óleo de breu (ansiolítico e aromaterápico) e óleo de copaíba (várias aplicações).

Na semana passada a Amazônia Hub entregou uma encomenda de vários produtos para uso próprio a um cliente da Virgínia (EUA). Também atende uma brasileira que mora na Flórida. Ela tem uma marca própria de cosméticos e usa os óleos em cremes e bronzeadores.

“Há um mercado promissor fora do Brasil para onde queremos expandir negócios, mas primeiro queremos  firmar nossa operação para os brasileiros e ter escala de vendas”, afirma Pedroso.

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Manioca lança novos produtos para recuperar queda no faturamento

Recuo nas vendas veio principalmente dos grandes restaurantes de São Paulo, que ficaram fechados em razão da pandemia

Cleide Silva, O Estado de S. Paulo

25 de abril de 2021 | 05h00

Novos produtos e foco em vendas por e-commerce estão ajudando a Manioca a recuperar parte da queda do faturamento registrado no ano passado, de 15% em relação aos R$ 900 mil faturados em 2019. O recuo veio principalmente das vendas para grandes restaurantes de São Paulo, que ficaram fechados por vários meses em razão da pandemia.

Para este ano as expectativas são melhores. A startup que desenvolve e produz especiarias como molhos, temperos, farinhas, geleias e granola usando produtos locais conseguiu captar R$ 1 milhão no Althelia Biodiversity Fund (ABF), fundo privado brasileiro gerido pela Althelia Funds. Com o aporte, poderá diversificar ainda mais as linhas de produtos, ampliar a produção e investir na distribuição por todo o País.

“Há duas semanas colocamos nossos produtos nos marketplaces da Amazon, Americanas.com, Submarino e Magalu”, informa Joanna Martins, fundadora e sócia da Manioca, com sede em Belém (PA). Antes, os produtos da marca começaram a ser distribuídos pelo Mercado Livre e, diante dos bons resultados, Joanna decidiu ampliar a oferta para outras plataformas digitais.

Nova linha de produtos

A matéria-prima usada pela startup é cultivada por 45 famílias ligadas a cooperativas e associações da região que são capacitadas pela empresa e seguem a regra do manejo sustentável.

A Manioca lançou inicialmente uma linha de produtos naturais (tucupi, farinhas e feijão-manteiguinha), uma de geleias de pimenta-de-cheiro, priprioca e taperebá e outra de temperos (molho de tucupi preto e tucupi temperado), além de doce de cupuaçu e licor de flor de jambu.

Neste ano a Manioca iniciou as vendas de granola feita com tapioca, castanha-do-pará, cumaru e cupuaçu e lançou a linha de sementes para temperos de cumaru (substitui a baunilha), castanhas do Pará e puxuri (substitui a noz moscada). Pelo menos mais duas novidades chegam até o meio do ano.

Também criou uma nova embalagem de 30 ml para seu carro-chefe, o tucupi, para uso como tempero. Antes o produto era vendido em garrafas de 1 litro principalmente para o preparo do tradicional prato local, o pato com tucupi. “O tucupi pode ser usado em pescados, carnes e aves, para marinadas ou no acabamento”, sugere Joanna.

Atualmente, 20% do faturamento da empresa vem das vendas online, pois houve recuperação do mercado próprio de varejo. Com a entrada em novas plataformas, Joanna calcula que essa participação deve chegar a 50% neste ano.

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Café Apuí criou um site próprio para ampliar negócio

Projeto é aumentar a área de plantio e o número de famílias envolvidas

Cleide Silva, O Estado de S. Paulo

25 de abril de 2021 | 05h00

Nos primeiros meses da pandemia, a Amazônia Agroflorestal, que distribui o Café Apuí nas versões orgânico e agroflorestal, registrou queda abrupta das vendas que tradicionalmente eram feitas para pontos de venda na região amazônica e em São Paulo.

Jonatas Machado, diretor comercial da empresa, conta que a decisão foi continuar comprando os grãos das 30 famílias produtoras para que não tivessem impacto na renda e acelerar a migração das vendas para o e-commerce, projeto antes previsto apenas para este ano.

Além da plataforma do Mercado Livre, onde já atuava e ganhou visibilidade, a Amazônia Agroflorestal criou seu próprio site de vendas online onde, além de vender o produto, pode contar sua história, como é produzido, por quem, mostrar fotos e manter uma newsletter.

A startup também fez parceria com um centro logístico na capital paulista para onde o produto é enviado e redistribuído para outros Estados do Sudeste, como o Rio de Janeiro.

O cultivo do Café Apuí, do tipo conilon, combina o plantio do grão com árvores típicas da região, como andiroba e açaí, que sombreiam o café e melhoram a produtividade. Além disso, ocupa áreas que estavam sendo destinadas à agropecuária predatória, que desmata e destrói o solo, e ainda restaura áreas degradadas.

Aumento de área para cultivo 

“Esperávamos queda nas vendas em 2020, mas, ao contrário, crescemos 10% a 15%, resultado que esperamos repetir neste ano”, afirma Machado. Quando o mercado estava parado, lembra ele, um “alívio” veio da empresa Euro Caps que, pelo segundo ano seguido, importou 100 sacas de café orgânico.

O grupo holandês mistura o produto brasileiro com outras marcas em cápsulas, mas avalia fazer uma versão de café da Amazônia.

Hoje o Café Apuí é cultivado em área de 45 hectares, mas Machado informa que há um projeto para ampliar a área de plantio para 395 hectares ao longo dos próximos cinco anos. Com isso, o número de famílias envolvidas aumentaria para 160.

“São áreas vizinhas onde há plantação de café no modelo tradicional, sem o conceito de agroflorestal, que não utiliza nenhuma química, agrega o plantio de árvores nativas e recupera o solo”, diz Machado.

Antes de 2014 - quando teve início a produção do Café Apuí após projeto desenvolvido pelo Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (Idesam) -, a produção média na região era de seis a sete sacas de café por hectare. Com a introdução das técnicas de agricultura sustentável, a média aumentou para 15 sacas.

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