Stephanes não vê solução para escoar safra de MT

O ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, admitiu hoje preocupação com o escoamento dos produtos agrícolas. "Precisamos de mais clareza no plano estratégico de médio e longo prazos não só para o escoamento da produção, mas também dos insumos básicos para a produção", considerou, durante entrevista coletiva para comentar os números do quinto levantamento da safra de grãos realizado pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). De acordo com o ministro, a Região Centro-Oeste e, principalmente, o Estado de Mato Grosso continuam a ser um grande problema sob este ponto de vista. "O pior é que não enxergo solução, um plano estratégico para resolver a questão do Centro-Oeste", criticou.

CÉLIA FROUFE, Agencia Estado

09 de fevereiro de 2010 | 14h17

Stephanes disse que o problema é tão grave que os custos com o transporte de alguns produtos, como o milho, por exemplo, acabam sendo maiores do que o valor do próprio grão. "Isso mostra que o sistema de escoamento está inadequado", argumentou. Stephanes ressaltou que a soja apresenta um quadro semelhante ao do milho e que, em breve, haverá problemas com a carne bovina também. "Desde o dia em que entrei neste ministério ouço falar da hidrovia Teles Pires-Tapajós e até hoje não vi, sequer, um estudo técnico para saber se ela é mesmo viável", atacou.

O ministro disse ainda que os portos brasileiros não estão sendo aparelhados para atender às demandas nacionais. "Os problemas na área de escoamento são muito grandes", resumiu. Indagado a respeito de quem seria a responsabilidade pelo atraso nessas melhorias de infraestrutura para a agricultura, Stephanes foi direto: "O Ministério dos Transportes e o de Portos e Vias Navegáveis."

Previsão de safra

O ministro da Agricultura adotou um tom cauteloso em relação à produção nacional de grãos, apesar da estimativa de crescimento da safra 2009/2010 em relação ao levantamento de janeiro, feita pela Conab e apresentada nesta terça-feira. Segundo a estatal, a produção doméstica deve somar 143 milhões de toneladas de grãos. "Embora a previsão seja melhor do que a anterior, é preciso ter cautela em relação aos números", disse o ministro. Em janeiro, a estatal previa uma produção de 141,35 milhões de toneladas.

Com o resultado de hoje, fortalece-se a expectativa de que a colheita brasileira de grãos será a segunda maior da história. De acordo com o ministro, a projeção da Conab melhorou porque as chuvas continuaram a incidir sobre as áreas plantadas. Ele salientou, porém, que não é possível garantir que todo o efeito das precipitações já tenha sido detectado neste levantamento da estatal, que é o quinto da safra. "Não temos o resultado dos últimos dez dias de chuva e não podemos prever os próximos 30 dias", ponderou.

Stephanes ressaltou que o resultado da safra tende a continuar positivo se as condições climáticas se mantiverem nos próximos meses. "Se chover na hora da colheita... eu não posso entrar nem entrar no plantio", considerou. Ele afirmou, porém, que, de maneira geral, o cenário é bom. "Vamos ter a segunda melhor safra em qualquer hipótese", disse. A disposição do agricultor, segundo o ministro, é a de plantar. "A tendência é de aumentar a produção. O cenário de curto prazo depende única e exclusivamente de questões climáticas."

Arroz e trigo

Stephanes estimou que as perdas dos produtores de trigo e de arroz com as chuvas na Região Sul somam uma quantia próxima a R$ 1,5 bilhão. "Vamos perder um milhão de toneladas de arroz", calculou. Segundo Stephanes, o impacto negativo das precipitações sobre a cultura deve ter sido todo registrado já no quinto levantamento da safra de grãos apresentado hoje pela Conab. "É provável que esse número se mantenha", disse, estimando em R$ 1 bilhão as perdas com o arroz.

No caso do trigo plantado na Região Sul, a perspectiva traçada pelo ministro também é prejuízo de um milhão de toneladas do produto, o que significaria perdas da ordem de R$ 500 milhões para o produtor rural. "Perdeu-se metade do trigo em termos de qualidade."

Stephanes ressaltou que a produção de cana-de-açúcar também foi prejudicada pelas precipitações, mas que a mensuração monetária, neste caso, é mais difícil de ser feita. "Para o produtor não foi ruim, porque houve aumento do preço do açúcar e do etanol, ainda que não tenha sido por isso", disse. O ministro lembrou que, fora as perdas com o equivalente a 40 milhões de toneladas de cana, o produtor também foi prejudicado pelo retardamento de aproximadamente 60 milhões de toneladas, para 2010, da colheita prevista para ocorrer no ano passado. O atraso também foi ocasionado em função da chuva. "O café também perdeu muita qualidade", acrescentou.

Indagado se, ao contrário do que ocorreu com as cidades, as chuvas do início do ano foram positivas para a agricultura, Stephanes avaliou que se a safra atual for "individualizada", o resultado das precipitações foi positivo para o setor. "Mas se eu colocar as safras de inverno junto com as safras de verão, a cana-de-açúcar e o trigo, a chuva não foi positiva no balanço geral", considerou. "Como safra deste ano, está sendo positivo, mas se tirarmos o arroz, que foi o grande prejudicado. Agora, vamos ver como ficarão as chuvas nos próximos 60 dias, no período de colheita. Isso é importante", acrescentou.

TCU

O ministro da Agricultura admitiu hoje que a Conab possui problemas estruturais e de comercialização, conforme apontou uma auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU). "O assunto já era conhecido. O relatório do TCU está correto", disse Stephanes, durante a entrevista coletiva sobre a safra de grãos de 2009/2010, quando esteve sentado ao lado do presidente da companhia, Wagner Rossi.

O ministro disse que os problemas dentro da empresa já são conhecidos e que a Conab já está trabalhando para solucionar as questões. "Há problemas com 10, 20 anos. Há também processos em andamento com essa idade", argumentou o ministro, na mesma linha adotada pela assessoria de imprensa da estatal ontem, que pontuou os problemas verificados na empresa como anteriores à gestão atual.

"Na maioria dos casos, trata-se de questões estruturais da própria Conab. Não tem desonestidade ou corrupções neste caminho", afirmou Stephanes, acrescentando que essas práticas, porém, já foram verificadas na estatal no passado. "Mas são coisas antigas." O ministro enfatizou também, assim como a nota da companhia ontem, que a Conab se antecipará ao prazo de 90 dias a que tem direito para responder a todos os questionamentos do TCU.

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