Steve Jobs adiou cirurgia, diz biógrafo

Cofundador da Apple tentou combater o câncer com terapias alternativas

STEVE LOHR, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

22 de outubro de 2011 | 03h06

Nos seus últimos anos, Steve Jobs experimentou desde regimes exóticos até tratamentos de ponta na luta contra o câncer do qual ele acabou morrendo. É o que diz uma biografia do criador da Apple que será lançada na segunda-feira.

Sua decisão, no início, de não se submeter a uma cirurgia e combater a doença apenas com sucos de frutas, acupuntura, ervas e outros tratamentos - alguns encontrados na Internet - enraiveceu e angustiou sua família, amigos e médicos.

Deste o primeiro diagnóstico, em outubro de 2003, até ser operado em julho de 2004, Steve Jobs manteve a doença em segredo - não comentou a respeito com funcionários, executivos ou acionistas da Apple.

Embora se saiba amplamente da luta do executivo com o câncer do pâncreas, a nova biografia, escrita por Walter Isaacson, oferece novos insights e detalhes a respeito.

Amigos, membros da família e médicos conversaram abertamente com o autor sobre a doença de Jobs e as estratégias várias que ele usou para superá-la. De acordo com Isaacson, Jobs foi uma das 20 pessoas a ter todos os genes do seu tumor cancerígeno e seu DNA sequenciado. O preço pago na época foi de US$ 100 mil. O sequenciamento genético permite a preparação de medicamentos específicos para o perfil do paciente, mas também contribui para os estudos sobre a doença.

Segredos. A biografia de 630 páginas abrange a vida inteira de Steve Jobs e inclui detalhes até agora desconhecidos sobre sua vida romântica, seu casamento, seu relacionamento com a irmã e seus negócios.

Isaacson realizou mais de 40 entrevistas durante dois anos com Jobs, que morreu no último dia cinco de outubro.

Uma cópia do livro foi obtida pelo The New York Times antes de ser colocado à venda.

De acordo com o livro, em outubro de 2003 Jobs recebeu a notícia de que estava com câncer, detectado por uma ultrassonografia. Um dos seus primeiros telefonemas, segundo o relato, foi para Larry Brilliant, médico e epidemiologista, que mais tarde tornou-se chefe do braço filantrópico da Google.

Os dois se conheciam há muito tempo, tendo se encontrado pela primeira vez num centro de retiro espiritual, na Índia. "Você acredita em Deus? - Jobs lhe perguntou.

Brillant conversou um pouco sobre religião e os diferentes caminhos para a fé, e então perguntou a Jobs o que estava errado. "Estou com um câncer" - ele respondeu.

Apelos. Steve Jobs adiou sua cirurgia por nove meses, fato que já tinha sido informado pela revista Fortune em 2008.

Amigos e a família, incluindo sua irmã, Mona Simpson, insistiram para ele se submeter a uma cirurgia e quimioterapia. Mas Jobs retardou o tratamento médico. Seu amigo e mentor, Andrew Grove, antigo diretor da Intel, que havia vencido um câncer de próstata, disse a ele que dietas e acupuntura não iriam curar o seu câncer. "Disse que ele estava louco" , disse Grove.

Art Levinson, membro da diretoria da Apple e chairman da Genentech, lembrou de ter suplicado para Jobs e se sentir frustrado porque não conseguiu convence-lo a se operar.

Sua mulher, Laurene Powell, também falou sobre aqueles dias, depois do seu diagnóstico.

"O fato é que ele realmente não estava disposto a abrir seu corpo", disse ela. "É difícil convencer uma pessoa a fazer isso". Ela tentou, contudo, escreve Isaacson. "O corpo existe para servir ao espírito", disse ela, em uma das muitas conversas na qual tentou convencê-lo a mudar para um tratamento convencional da doença.

Cirurgia. Quando seguiu o caminho da cirurgia e da ciência, Jobs o fez com paixão e curiosidade, não poupando gastos, avançando as fronteiras de novos tratamentos. De acordo com Isaacson, quando ele se decidiu pela cirurgia e tratamentos médicos, tornou-se um especialista, estudando, orientando e decidindo sobre os tratamentos. Segundo Isaacson, ele tinha a decisão final sobre cada novo tratamento.

O sequenciamento do DNA que Jobs acabou fazendo foi realizado por várias equipes em colaboração, de Stanford, John Hopkins, Harvard e o Broad Institute do MIT. O sequenciamento permitiu aos médicos receitarem medicamentos ajustados a ele e direcioná-los para as moléculas defeituosas.

Um médico disse a Jobs que os tratamentos pioneiros aos quais estava se submetendo em breve poderiam tornar muitos tipos de câncer uma doença crônica tratável. Mais tarde, Jobs disse ao autor que ele seria ou um dos primeiros "a vencer um câncer como este", ou a estar entre os últimos a "morrer em consequência dele" . / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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