Steve Jobs tira nova licença médica

Fundador da Apple afirma que vai continuar envolvido em decisões estratégicas da empresa, que enfrenta aumento de concorrência

Gustavo Chacra, O Estado de S.Paulo

18 de janeiro de 2011 | 00h00

De uma forma inesperada, o carismático fundador e presidente da Apple, Steve Jobs, anunciou ontem que ficará de licença da empresa de tecnologia americana para tratar de sua saúde. Diferentemente de dois anos atrás, quando ao sair estabeleceu uma data de seis meses para retornar, o homem considerado por muitos como o maior inovador de sua geração não disse quanto tempo permanecerá fora.

O anúncio teve impacto nas ações da empresa na Alemanha, já que a Bolsa de Valores de Nova York não funcionou ontem por causa de um feriado. Os papéis da Apple chegaram a despencar até 10%. A expectativa é de como o mercado americano vai reagir hoje.

Investidores temem que a saída de Jobs, de 55 anos, seja prolongada. Alguns não descartam que desta vez sua licença seja definitiva. Sobrevivente de um câncer no pâncreas, o executivo sofre complicações de um transplante de fígado e seu sistema imunológico é debilitado.

Durante a ausência de Jobs, de acordo com comunicado oficial da Apple, a administração ficará nas mãos de Tim Cook, que dirige atualmente a área operacional da empresa na Califórnia.

Na carta enviada para seus funcionários e tornada pública pela Apple, Jobs afirma que deixará a empresa temporariamente para se "focar no tratamento de saúde", sem dar mais detalhes sobre quais problemas estaria enfrentando atualmente. Na declaração, o executivo acrescentou que estará envolvido nas decisões estratégicas da empresa, mas alguns analistas diziam ontem que este trecho talvez tenha por objetivo apenas acalmar os investidores.

"Atendendo a meus pedidos, o conselho de diretores da empresa me concedeu uma licença médica", escreveu Jobs. "Eu amo tanto a Apple que pretendo retornar o mais brevemente possível", acrescentou. Em janeiro de 2009, o executivo também precisou deixar a empresa para tratar de sua saúde, retornando em junho do mesmo ano.

Momento crítico. O momento da saída de Jobs é considerado crítico. A Verizon, principal operadora de telefonia dos Estados Unidos, começará a vender o iPhone 4, no que deve ampliar ainda mais o mercado da Apple na telefonia celular, antes restrita apenas à AT&T, nos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, a Apple precisa lidar com o cada vez mais difundido sistema operacional Android, do Google, utilizado em uma série de aparelhos celulares fabricados por outras empresas. A Microsoft também decidiu entrar neste mercado, intensificando ainda mais a competição.

Nos próximos meses, também está previsto o lançamento de novas versões do próprio iPhone e também do iPad, que neste ano deve enfrentar a concorrência de outros tablets.

Lançado no ano passado, o iPad logo se converteu em sucesso de vendas. Antes, além de seus já tradicionais computadores Mac, Jobs havia criado produtos como o iPod, que alterou a forma como as pessoas ouvem música e, mais recentemente, o iPhone, que levou a telefonia celular para um novo patamar.

Além dos investidores, no entanto, os consumidores da Apple também ficam preocupados com a saúde de Jobs, que é uma espécie de guru com sua camiseta preta de gola olímpica e calça jeans. Nos Estados Unidos, especialmente entre os mais jovens, existe uma tendência quase religiosa de adotar todos os produtos lançados pela empresa, com filas gigantescas nas portas da Apple Store quando surge um novo lançamento.

PERFIL

Steve Jobs, fundador e presidente executivo da Apple

Empresário criou produtos inovadores

Steve Jobs fundou a Apple Computer com seu amigo Steve Wozniack na garagem da família Jobs no Vale do Silício, no fim dos anos 70. A empresa logo assumiu uma posição importante na então nascente indústria de computadores pessoais. Em 1980, o IPO tornou Jobs multimilionário.

O Macintosh, lançado em 1984, foi o primeiro computador comercialmente bem-sucedido, com uma interface gráfica fácil de usar. No ano seguinte, Jobs deixou a empresa, vendendo todas suas ações, mas voltou em 1997 como diretor executivo. Em 2001, a Apple lançou o iPod, cujo design simples consolidou o legado de Jobs como um inovador capaz de unir tecnologia e mídia.

Em 1986, Jobs foi um dos fundadores do estúdio Pixar, responsável por animações como Toy Story. Tornou-se membro do conselho de administração e o maior acionista individual da Walt Disney Co. quando esta comprou a Pixar, em 2006.

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