'Sua fé no País era infinita'

Durante trinta e cinco anos mantive uma gostosa amizade com Antônio Ermírio de Moraes. Durante todo esse tempo, acompanhei de perto suas ideias e muito aprendi com elas.

José Pastore, O Estado de S.Paulo

26 de agosto de 2014 | 02h01

Avaliei de perto seu modo de pensar ao acompanhar a redação e produção de três peças de teatro, que tiveram o propósito de analisar os problemas do Brasil e ali apresentar sugestões para as mazelas financeiras (Brasil S.A.), a precariedade da saúde (S.O.S. Brasil) e o abandono da educação (Acorda Brasil), o que o levou para a Academia Paulista de Letras.

Crença no País. É desnecessário dizer que Antônio Ermírio de Moraes foi um dos empresários mais nacionalistas do Brasil. Sua fé no futuro do País era infinita. E investia pesadamente para aumentar a produção e gerar bons empregos.

A personalidade de Antônio Ermírio foi marcada pela combinação virtuosa de simplicidade, humildade e generosidade. Nunca foi um homem de noitadas. Nunca esbanjou. Nunca fez exibicionismos. Sua vida foi espartana e guiada pela moderação.

Esteve sempre pronto a ajudar quem mais necessitava. Foi o primeiro a apoiar os programas educacionais do governo e do setor privado.

Foi o primeiro também a ajudar vários hospitais dedicados aos mais pobres como a Beneficência Portuguesa, onde dois terços de internados são do SUS.

Ali que ele trabalhou todos os dias da semana, inclusive sábados, domingos e feriados, ajudando a administrar e a manter as finanças equilibradas. Ele sempre me disse: "Para quem tem dinheiro, o mais fácil é assinar um cheque. Mas o que o hospital mais precisa é de boa administração, o que requer tempo, dedicação, amor e trabalho diário".

Filantropia. Sua ajuda sempre foi marcada pelo anonimato. Jamais consegui saber quanto doava aos projetos que apoiava. Sei apenas que as suas doações vinham da sua conta bancária pessoal e não das empresas do Grupo Votorantim que ele presidiu por muitos anos.

Uma vez ou outra fiquei sabendo das suas doações não por sua iniciativa, mas pela revelação dos dirigentes de instituições beneficiadas e até pela própria imprensa. Esse foi o caso, por exemplo, da ajuda que deu para reformar o Colégio São Bento.

Tudo começou num sábado de manhã quando, ao ler o jornal, no seu escritório da Praça Ramos de Azevedo, viu que o Colégio São Bento iria fechar devido a problemas de rachaduras nas paredes e no teto do prédio e por falta de recursos para conserto. Na sua simplicidade, ele vestiu o paletó e foi a pé até o Largo São Bento para oferecer a sua ajuda.

Assim foi feito. O colégio foi reformado e continuou em funcionamento. Nova reforma (esta menor) foi por ele patrocinada quando da visita do Papa Bento XVI, que ali se hospedou. Mas ele nunca me disse o que fez e quanto gastou.

Com a sua morte em 24 de agosto, o Brasil perdeu um grande brasileiro. Os mais pobres perderem um desprendido benfeitor. A Academia Paulista de Letras perdeu um acadêmico querido. Os mais íntimos perderam um grande amigo. A família perdeu o seu maior amor. Deixo à sua esposa, Maria Regina, e familiares o meu profundo pesar.

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